domingo, 13 de setembro de 2009

O Amor de Deus é Real

Essa é minha primeira tentativa de escrever um conto. Como eu acho que em tudo que vamos fazer temos que manifestar a graça de Deus, esse é o tema do conto. Agora que li pra postar achei que ficou muito bom, embora provavelmente muitos acertos ainda têm de ser feitos. Espero que gostem. Então convido a todos a conhecer o grande amor de Deus que me deixa tão feliz tantas vezes. ))

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Foi num domingo de páscoa. Acordei com a luz do sol entrando pela janela e batendo com intensidade no meu rosto, pensei em cochilar mais um pouquinho quando de súbito me lembrei do compromisso. Naquele dia havia prometido ir visitar o Jack(1) e o relógio já apontava quase oito horas, me aprontei rapidamente e sai em direção ao Hospital das Clínicas, no centro da cidade.

Sendo médico eu estava bastante acostumado em lidar com paciêntes terminais como era o caso de Jack, mas a situação agora era diferente. Não seria lidar profissionalmente com um cidadão que estava aos meus cuidados, mas falar com um amigo de infância que muito me respeitava mas que odiava “essa coisa toda de religião” como ele dizia.

Quando pequenos nós frequentamos por anos a mesma escola dominical na Igreja Nacional do Evangelho Redimido. Nós dois éramos os melhores alunos da classe, decoravamos todos os versículos, sabiamos a resposta da tia antes de todos e ainda tinhamos mais estrelinhas amarelas no mural do que todos os outros alunos juntos. Pode parecer estranho mas nossa escola dominical ensinou muito como deveríamos lutar para merecer o reconhecimento dos outros e nos orgulhavamos de nosso próprio esforço.

Porém, durante a nossa adolescência aconteceu algo que iria mudar o rumo das nossas vidas. Um dos nossos pastores, por ambição egoista tentou um “golpe de igreja”, que é muito comum nos dias de hoje. É quando os pastores da igreja atingem a maturidade da luta competitiva pelo poder, ficam se apunhalando por trás lutando de modo darwiniano pela sobrevivência do mais apto. Então acontece o inevitável, a igreja se desmonta em várias partes. Mas como uma espécie de mutante cada parte começou a se desenvolver por si, construindo novas igrejas que reproduziam a mesma competitividade fria entre os pastores sedentos por poder.

Mas por um momento, enquanto eu e o Jack tentavamos entender tudo aquilo nós vimos por alguns instântes a nossa igreja em toda sua nudez, foi como pudessemos ver o que havia por trás daquele belo prédio em suas colunas em estilo grego. Por um momento a capa caiu e vimos um grande tumor que afetava a todos nós. A experiência foi tão tralmatizante que alterou totalmente o rumo de minha vida e a de Jack. Mas logo que o tumor se dividiu cada pedaço mutante se cobriu de uma nova capa para tentar esconder sua vergonha.

Desde então eu vi o Jack poucas vezes porque nossas famílias ficaram em “tumores” diferentes. Na época ele foi muito mais corajoso do que eu, mas não menos obstinado. A questão é que nossas vidas tomaram rumos totalmente diferentes, quase opostos. Ele se rebelou contra a sua igreja-tumor falando com clareza a todos da falsidade escancarada de tudo aquilo, o que ninguém ousava comentar. Depois xingou sua família e amaldiçoou sua existência se afundando na maior quantidade de pecados que conseguisse. Quando questionado costumava dizer que tinha agora outra regra de fé: “aproveitar e reduzir ao máximo a vida vazia”. Nunca mais concordei com ele mas sempre admirei como desde então ele viveu em sinceridade com a vida, não tentava enganar mas mostrava a todos com clareza quem era, e fazia tudo que dava vontade sem se preocupar com a opinião da sociedade.

Eu por outro lado cai de cabeça na religião, busquei cada vez mais obstinadamente viver a vida completa que a biblia prometia. Eu era irreperensível em tudo, sempre o primeiro a chegar nas reuniões, cantava a Deus mais forte do que todos, procurava separar várias horas diárias de oração, fazia jejuns de dias e ainda assim nada me consolava. Tentei todos os métodos possíveis para tentar me aproximar de Deus mas quanto mais fazia mais longe Ele ficava. Era desesperador, uma cadeia com grilhões pesados que eu não podia suportar. Quanto mais santo eu procurava ser mais a minha consciência me acusava de meus erros, porque por mais do que eu tenha feito nos meus esforços, nunca me achei suficientemente bom. Miserável homem que sou. Porque apesar de todas as aparências eu bem sabia que aqui dentro nada estava bom, não havia nenhuma luz brilhando.

Eu estacionei o carro o mais longe possível porque não sabia o que falar pro Jack, não sabia como enfrentar a cara dele. Por um breve momento pensei em algumas palavras de acusação:

- Você está vendo onde essa sua vida de pecado te levou? Vai morrer agora de AIDS!

Não!! Isso não funcionaria, não com o Jack, ele iria rir da minha cara e talvez até tentasse tirar minha máscara, que não estava tão ruim aquele dia. Atravessei o estacionamento apreensivo, talvez um último apelo religioso:

- Ainda há chance Jack, tome essa biblia e leia ela, agente pode orar a Deus por você. Vamos no culto, pelo menos nesse domingo!!

Também não!! Jack era tão obstinado em negar a religião que iria olhar com uma cara de tamanha insatisfação e ódio que eu iria me arrepender de ter ido. Mas de qualquer forma ele me chamou. O que ele queria? Eu não podia oferecer nada.

Cheguei ao quarto extremamente tenso, sabia inteiramente de meu dever religioso de converter aquele rapaz, mas como converter alguém que sabe tudo quanto eu sobre religião. Talvez ele realmente fosse uma pessoa predestinada a condenação. O que eu poderia fazer?

Entrei no quarto de Jack e me esforcei pra deixar sair um sorriso na minha máscara. Ele estava péssimo, esquelético, com o lábio rachado do qual vertia um pouco de sangue. Me acompanhou com os olhos e indicou uma cadeira. Eu me sentei, mas meu sorriso caiu e não consegui mais mantê-lo. Ficamos em silêncio, eu não queria falar, e ele continuava a me olhar com uma cara sem nenhuma expressão. Foi o minuto mais dificil da minha vida, e que minuto.

Como crente que eu era pesou de novo o peso de converter aquele homem, gaguejei e disse o xavão, meio sem pensar:

- Jesus te ama! As palavras saíram frias e escuras, Jack deu de ombros, me fitou no fundo dos olhos, não disse nada e se virou.

Quando levantei os olhos vi um senhor de idade sentado ao lado dele, no outro leito. Seu olhar era diferente, me olhou interrogativamente e depois se virou para o Jack e disse:

- JESUS te ama!

Na hora imediata pensei que aquelas palavras tinham sido muito belas, e só depois reparei que eram as mesmas palavras que eu tinha falado. Mas havia algo muito diferente no ar. Nas palavras dele havia uma certa vida que eu já havia sentido antes. Nas palavras dele estava aquilo que eu tanto buscava, ali havia um calor diferente, uma alegria inundou o meu ser e eu fiquei pensando como iria fazer para rete-la comigo.

Jack não resistia a um desafio.

- Suas palavras são de um tolo. Eu já ouvi falar muito de Jesus, por acaso não foi ele que construiu essas igrejas? vocês ficam tentando agradar ele pra ele dar presentes para vocês em troca. Se matam para parecerem santos e quando estão de costas um ao outro enfiam o punhal.

Mas o homem se manteve sereno.

- Talvez! Mas eu não falei sobre isso, eu só disse: “Jesus te ama!”

Jack riu de canto, não queria conversar com crentes chatos. Em outros momentos ele iria esculachar, mas agora só queria ficar sossegado.

- Olha - disse Jack - esse tal Jesus, ele nem sequer existe, já morreu. Quanto menos ainda ele pode amar. Me deixe em paz!

Por um momento o homem assumiu um olhar sério, e olhou fimemente para o Jack, como alguém que possui muita autoridade no que fala. Mas muito estranhamente nem por isso a alegria e compaixão deixaram os seus olhos.

- Por que pode dizer que Jesus não existe?

Jack percebeu a mudança no tom de sua voz, certamente o senhor não gostou do que dissera.

- Existe aquilo que posso ver, que posso tocar com minhas mãos, olhar com os olhos. Esse Jesus, eu já ouvi sobre ele, e gostei. Mas essas pessoas que ficam falando dele são odiosas, elas tentam acabar com toda a minha liberdade de fazer o que me da alegria. E você é um deles.

- O sol existe? - O homem parece ter desconsiderado o que ele disse.

- Existe!

- Mas como você pode dizer isso se não o ve agora?

- Olha isso é absurdo! Eu sei que ele existe porque já o vi, todos os dias o vejo.

- Olha garoto, - o velho olhava Jack calmamente – você não vê o sol, você ve a luz dele, um borrão no céu.

- Mas eu posso ver a luz pelo menos, tudo fica claro com o sol. Eu posso sentir seu calor também.

- Certamente, mas tudo isso é a consequencia do que o sol é, e não o sol em si. Você só pode saber que o sol existe pelos efeitos que sua luz e calor produzem no seu corpo. De noite nós não podemos ver nem sentir o sol em nós, mas nem por isso deixamos de acreditar que ele existe, porque sabemos que em algum lugar o sol está no meio do céu, rachando as cabeças com seu calor. Mesmo quando deixamos de ver o sol ele continua lá firme, a mesma luz e o mesmo calor, ainda quando não o sentimos.

- Huahauhauah, já entendi onde você quer chegar seu velho. Mas veja só uma coisa, o sol realmente existe porque eu já provei dele muitas vezes. Mas esse Jesus é muito diferente, eu nunca provei nada dele. Na igreja que eu ia ele estava bem morto, pendurado numa cruz.

- Bom, isso é espantoso. É como se você passasse a vida inteira em uma caverna, sem nunca ter visto o sol e caminhado para a vida em liberdade.

- Há, e agora você quer me ensinar sobre liberdade. Eu sim fui livre, eu fiz tudo o que essa vida pode oferecer sem ligar para esses limites da religião, todas essas leis nas quais vocês prendem as pessoas.

O homem olhou atentamente Jack, como que não entendendo e não disse nada. Eu quiz ajudar o velho mas ele estava falando de algo muito profundo, que eu não conseguia entender, me limitei a capturar o máximo de coisas que ele falava, parecia que a vida de Jesus estava nele, aquilo que eu sempre busquei desesperadamente de toda forma ele vivia plenamente.

- Você se considera livre? Isso é muito estranho. Olha pra você! Você se acabou, a verdadeira liberdade não deve acabar com nós, mas produzir ainda mais vida. Você provou de tudo o que podia fazer dentro dessa sua caverna, acabou com sua vida desesperada e infeliz, e ainda ri de mim quando eu falo que há um sol brilhando lá fora, que há um mundo que agente pode ver tudo claro, onde sentimos o calor do sol em nossa pele.

- Bom, você evidentemente é um louco achando que há outro mundo para além desse. Mas ainda que eu tenha vivido numa caverna a vida toda sem receber nada da luz do seu mundo imaginário, eu não tenho como ir até ele, pois confesso, eu já procurei algo maior que tudo isso, eu já tive essa esperança. Mas como posso acreditar que esse sol existe se a luz dEle nunca chegou até mim?

- Você têm se esforçar pra encontrar também né Jack, têm que fazer o que é certo. Olha o que você fez a vida toda, como quer que a luz venha até você? Você não merece! - Disse eu.

- Cala a boca seu túmulo de azulejo azul!!

Eu olhei assustado, as palavras do velho tinham sido pra mim! Ele me encarou profundamente, tão profundamente que minha máscara começou a derreter, e já pingava na minha coxa. Não ousei responder. Ele virou-se para o Jack.

- Olha aqui rapaz, não diga isso. Não existe nenhuma maneira de vermos a luz a não ser que ela se mostre a nós. Nós não temos a capacidade de chegar até ela, por isso seu amigo ali é tão infeliz. Mas com certeza você já viu a luz que estou te falando mas não deu importância a ela. Ela é muito diferente de sua caverna, deveria ter seguido por ela. A luz e o calor dela é aquilo que conhecemos por amor, não no sentido conhecido na sua caverna, mas muito mais profundo. O sol do mundo, que produz esse amor é o próprio Jesus, por isso são tão importântes as palavras do seu amigo: “Jesus te ama!”. Ele disse as palavras certas sem sentir de fato a essencia das palavras que disse.

Você não têm muita opção agora porque o seu mundo está desmoronando, você só pode confiar em mim!! Veja, a minha pele está bronzeada, eu te garanto que conheço o Sol e posso te levar até lá! Segure na minha mão! Confie em mim!

Jack estendeu a mão e seguou firme a mão do homem. O senhor estava com rosto reluzente e era dificil olhar dietamente na face dele. Minha máscara estava derretida no chão. Ele virou-se para mim.

- Quanto a você: você realmente crê que eu te amei?

Foi como se fosse um sonho. Depois de um desmaio voltei a olhar o quarto, Jack estava morto. Eu sorri e olhei pela janela, lá estava o Sol, me lembrando que Deus me ama. Depois daquele dia eu nunca mais fui o mesmo por causa da confiança que tinha no amor de Deus. Eu entrei em muitas cavernas de densas trevas, algumas delas eram grandes igrejas, mas não importa onde eu entrasse eu sabia que lá fora o sol estava sempre brilhando e cheio de calor para mostrar que o amor dele permanece para sempre.



(1)Mais por causa da minha falta de criatividade mesmo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Estudo de C. S. Lewis e a Convergência a Cristo

Esse texto surgiu assim, quando comecei a fazer o projeto sobre o C. S. Lewis, que tá postado ali embaixo, entrei em contato com a Gabriele Greggersen pois no Brasil ninguém manja mais do que o cara que eu vo estuda do que ela. Na cara de pau porque nem sequer tinha lido seus livros. E ela gentilmente pediu para que eu escrevesse um artigo sobre a contribuição da minha pesquisa para a cristandade, e aqui está o resultado. Escrever esse texto foi muito importânte para um auto-esclarecimento sobre o que eu estou fazendo, rss. Espero que gostem!!

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De fato, a questão que a Gabriele Greggersen[1] colocou a mim é a mais importânte, porém confesso que ainda não havia me detido o suficiente para considerar a questão mais lentamente. O desafio seria escrever um texto mostrando a relevância de minha pesquisa para a cristandade e, portanto, para a teologia. De fato, não existe questão mais essencial a ser respondida por alguém que procura alinhar os passos ao caminho apontado pelo nosso Aslam. Obviamente essa questão é impossível de ser respondida de todo, porque mesmo nós que caminhamos temos uma visão limitada do que vemos a frente e não sabemos ao certo o propósito de determinados caminhos. Porém isso não impede que, ao olharmos o que nos trouxe até aqui, façamos algumas suposições do lugar aonde esse caminho parece nos levar e de que forma isso contribui para a plena implantação de um Reino aqui na terra dos filhos de Adão e das filhas de Eva. Diante disso tentarei colocar alguns pontos que a mim parecem impotântes e em direção aos quais pensarei a minha modesta pesquisa de iniciação científica.

Começando com aquilo que é mais imediato: a divulgação das obras literárias de C. S. Lewis contribuem para a expansão de um cristianismo muito mais verdadeiro do que muito do que vem sendo divulgado até agora. É óbvio que sobre a aproximação das obras de Lewis com o evangelho muito foi escrito, porém não posso deixar de citar um exemplo que, para mim, é o mais importânte. Todas as tramas das Crônicas de Nárnia são montadas sobre personagens extremamente inconstântes e falhos, mas que estão a todo momento fazendo escolhas morais que podem levá-los a elevar ou rebaixar seu caráter. Porém Aslam apresenta-se como um ser perfeito e justo que deixa os personagens em total liberdade em suas escolhas e ainda, no caso de uma decisão errada, sempre oferece a possibilidade de retorno. O amor demonstrado por Aslam nesse sentido transcende toda a moral tradicional muitas vezes expressa pelos próprios cristãos e vastamente divulgada em nossa cultura da justiça que se expressa em retribuição às ações, boas ou más, de cada um. O Leão é tão apaixonante porque, apesar de todos os erros, Ele continua amando, ainda que, para isso, as vezes tenha de passar por más situações.

Agora, meu trabalho especificamente chama-se: Os Protestantes e a Literatura: A Leitura de C. S. Lewis no Brasil Contemporâneo[3]. A base principal é estudar a cultura literária protestante no Brasil por meio de um recorte específico na edição e leitura das obras literárias de C. S. Lewis. Como é a cultura da leitura entre os cristãos no Brasil? Como se faz a edição, a divulgação e a venda? Como os leitores percebem a obra de C. S. Lewis? Como interpretam os personagens e a trama da História? Qual a ligação entre a leitura dessas obras e a vida religiosa das pessoas? Como essa leitura influência a cultura e a maneira de agir dessas pessoas? Essas são algumas das questões que guiarão a minha análise. A idéia central desse projeto é mostrar como os leitores receberam e recebem sua obra e mostrar que ligação essa recepção têm com o indivíduo ou com a comunidade a qual pertence.

Evidentemente que aqui adentramos em questões mais amplas. Num primeiro momento iremos nos aprofundar nas obras propriamente na tentativa de esquematizar seu quadro de tramas e ações. Também buscaremos retornar ao sentido ao qual esses livros foram escritos: com que intenção C. S. Lewis desejava escrevê-las, que efeitos desejava produzir nos leitores, etc. Mais adiante há outras questões da recepção (interpretação) dessas obras: seria de aspecto puramente individual ou coletivo? Se é coletivo quais os limites dessa coletividade? Há uma coletividade religiosa, e portanto cultural, que define uma comunidade interpretativa? Ou haveria na obra aspectos que dizem respeito a principios essenciais, anteriores a própria cultura? E enfim, de que maneira a leitura dessas obras produz mudanças nos indivíduos, ou na cultura de determinado grupo? São questões extremamente complexas, mas respostas concretas a elas podem trazer algumas luzes sobre as possibilidades do uso, na divulgação de Verdades do Reino, daquilo que podemos chamar genericamente de metáforas.

Não só em relação as obras do Lewis, mas da possibilidade de princípios fundamentais poderem se inserir nas culturas não apenas na sua aparência mais clara ou racional, tal como os compreendemos no cristianismo, mas fundamentados no próprio incosciente da população, numa espécie de mentalidade coletiva que as conduz de volta às questões fundamentais da existência humana nesse mundo e assim aos próprios fundamentos básicos do que denominanos cristianismo. Se isso é possível temos que a grande Verdade que encontra sua expressão definitiva no Senhor Jesus Cristo e no seu Reino pode ser proclamada ao mundo e encontrar resposta nas pessoas sem termos de atrelar a ela o fardo da religião, que na maioria dos casos mais afasta do que aproxima as pessoas. E, nesse caso, espero ser bem compreendido. Não nego que haja dentro de muitas igrejas e instituições cristãs das mais diversas vertentes uma efetiva vida no Reino de Deus, ou seja, das verdades plenamente reveladas em Cristo. Mas o peso de nossas criações religiosas em torno do princípio básico de Cristo e do evangelho mais nos afastam do que aproximam. E isso é uma grande contradição porque a vivência do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, leva a convergência de todas as coisas e não ao afastamento. Agora, se pudermos retornar e repensar o cristianismo para além da base importânte, mas extremamente limitadora e cega da tradição religiosa, podemos ver que verdades profundas estão fixadas desde tempos imemoriais nas mais diversas culturas no inconsciente da população por meios alternativos que não a revelação plena em Jesus Cristo tal como a entendemos pela graça de Deus.

Isso me faz retornar a um livro que muito me intrigou durante a minha infância, chama-se: O Fator Melquisedeque[4] – o Testemunho de Deus nas Culturas Através do Mundo, de Don Richardson. Esse livro de ênfase missionária procura mostrar pelos mais diversos exemplos nas mais diversas culturas pelo mundo que Deus sempre encontrou uma forma de Revelar certas verdades fundamentais de seu carater e plano para as pessoas utilizando-se dos meios disponíveis na cultura. Os exemplos por ele citados são muitos como a necessidade de derramamento de sangue para a remissão, mitologias a respeito de um filho redentor, rituais que simbolizavam um novo nascimento, etc. Em todos os pontos abordados pelo autor permanece a idéia da provisão de Deus, por revelação, de possibilitar uma forma que se não levava a uma compreensão completa e consciênte de Jesus Cristo e seu Reino, ao menos abria caminho para o momento em que a menssagem do evangelho era plenamente anunciada por meio de um missionário. Os corações e as mentes estavam preparados para receber a semente, obviamente que não da religião cristã, mas de Cristo Jesus.

Anos mais tarde li o livro de um tio-bisavô meu, um dos patrônos da igreja adventista no Brasil em fins do século XIX, Guilherme Stein Júnior. O livro que me intrigou foi: A Torre de Babel e seus Mistérios[5] – A Origem Comum das Línguas e Religiões, editado postumamente pela Sociedade Criacionista Brasileira. Sua intenção fundamental foi fazer uma análise comparativa de diversas mitologias e línguas espalhadas pelo globo para mostrar seus aspectos comuns. Obviamente que toda interpretação das semelhanças mitológicas foram realizadas tendo por base a própria bíblia. A partir dai pode-se notar que apesar de todas as diferenças certos traços e princípios fundamentais se mantém e se repetem nos mais diversos locais mostrando que, de alguma forma, todos possuem uma relação entre si. Guilherme Stein interpretou essas semelhanças não como uma revelação, mas como a possibilidade de manutenção dessas verdades através da história. Nada parece mais óbvio do que crer que – se de fato cremos em Adão e Eva, nos eventos que os sucederam, no dilúvio e no espalhar da humanidade pela terra ao longo desses últimos cinco mil anos – todas as religiões não brotaram do nada, mas surgiram a partir da percepção que as pessoas já tinham acerca do mundo sobrenatural, sendo influenciados tanto pelo bem como pelo mal. É certo que, assim como todas as coisas desse mundo, grande parte desses principios foram deturpados, transformando-se no que hoje chamamos de paganismo ou ainda transformado-se em grandes religiões, mas isso não impede que ali tenham-se conservado Verdades que dão acesso a revelação plena e que sempre possibilitaram escolhas que definem o destino eterno dos indivíduos.

Foi exatamente nesse ponto que C. S. Lewis despertou grande interesse em mim. Só fui ler as Crônicas de Nárnia e a fascinante trilogia espacial recentemente, mas me espantou o fato de que ele estava fazendo a partir de uma literatura com forte apelo a mitologia, o que, ao que me parece sempre foi em parte a função da mitologia: revelar numa espécie de metáfora verdades das mais profundas. Os princípios divinos facilmente se perdem e distorcem entre os humanos se não houver a palavra escrita, mas a mitologia possibilita um outro suporte que segundo suponho, ainda que distorça totalmente a realidade do que aconteceu, mantém aquilo que chamo de princípio fundamental desde tempos imemoriais. Em nossa sociedade a religião cristã conseguiu criar para si tamanha repulsa por distorcer tanto os princípios fundamentais que devemos procurar outros meios de divulgar a Verdade sem que as pessoas associem essa ao falso (embora real) conceito de cristianismo existente hoje. Eis o que C. S. Lewis faz, sustentar e defender numa história mitológica, princípios que dificilmente penetrariam ou iriam durar se fossem transmitidas diretamente, simplesmente faladas.

Meu desejo, quase sonho, é estudar as culturas e suas mitologias e religiões a partir da plena revelação para buscar pontes de acesso. Por um lado não é de forma alguma uma tentativa de ecumenismo religioso porque o Senhor Jesus Cristo, o próprio filho de Deus é o centro de toda a análise e antecede e se sobrepõe a todas as religiões. Por outro lado não desejo de modo algum defender a religião cristã, suas tradições, hierarquias e instituições porque eles acabam por limitar e prender Cristo dentro de modelos, fórmulas e espaços quando na realidade Ele é muito mais do que isso.

Claro que aqui há muito risco, e eu o temo, pois como tudo nesse mundo a mitologia também foi desfigurada e péssimos elementos entraram nela. Como separar o que é bom do ruim é a questão mais complexa de todas, a base da bíblia é indispensavel, mas ainda assim em determinados momentos parece que tudo está de tal forma misturado, ou se misturou durante os séculos que a missão parece impossível. Nesse ponto me parece que C. S. Lewis será de grande utilidade para ajudar-me a pensar alguma dessas questões de maneira sábia. Uma profunda compreensão desses mistérios seria de inestimável valor para a cristandade pois mostrariam como, afinal, nosso Aslam é Soberano sobre toda a criação, possibilita o retorno de todos e todas as coisas boas desse mundo, ao final, irão convergir a Ele. Glória ao Cordeiro!


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[1] Pesquisadora brasileira, pedagoga, especialista na obra de C. S. Lewis. O site dela é: www.cslewis.com.br
[3] O projeto de pesquisa completo pode ser visualisado em: http://escrevendohistoria.blogspot.com/2009/07/entrando-no-armario-fantastico.html
[4] RICHARDSON, Don. O fator Melquisedeque – O Testemunho de Deus nas Culturas Através do Mundo, Vida Nova, São Paulo, 1995.
[5] STEIN JÚNIOR, Guilherme. A Torre de Babel e seus Mistérios – a Origem Comum das Línguas e das Religiões. Brasília: SCB,

sábado, 1 de agosto de 2009

Uma Comparação entre o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha

Mais uma do tópico do fascismo.














2) É correto considerar o fascismo italiano e o nazismo alemão como duas manifestações de um mesmo fenômeno?

Introdução

Para uma análise comparativa do fenômeno fascista na Itália e nazista na Alemanha é necessário uma compreensão de sua mais profunda estrutura. Como o historiador Robert Paxton demonstrou, o fascismo não possui uma essencia fixa, mas se configura de forma específica conforme a sociedade em que se encontra seguindo de forma absurda a lógica maquiavélica de que os fins justificam os meios. Para alcançar a finalidade em questão o fascismo é capaz de fazer as mais diversas alianças e as mais diversas doutrinas desde que essas ajudem a levá-los a seus objetivos. Ao que parece os fascismos deram certo segundo a sua capacidade de adaptar o discurso a sociedade na qual pretendiam estabelecer o governo e fazer as devidas alianças e concessões aos grupos que precisavam para alcançar o poder. Portanto, antes de nos determos na análise especifica do fenômeno na Alemanha e na Itália pretendemos demonstrar o que, para nós, configura a estrutura de pensamento básico que determina o que vêm a ser o fascismo nas suas mais diversas configurações.
O fascismo, a princípio, ao contrário das outras alternativas de governo surge como uma resposta emotiva e não racional a situação de suposta ou real degradação em que a sociedade se encontra. Logo, não podemos explicar racionalmente o fascismo de forma satisfatória sem antes esclarecermos os sentimentos que o originam. Em todos os casos o fascismo está intimamente ligado aos mais profundos sentimentos nacionalistas de vículo e amor para com o povo ao qual o individuo pertence. Derivado desse sentimento, a princípio nobre e humano[1], surge uma reação emotiva de profundo ódio para com todos aqueles que são considerados os inimigos da nação. O fascismo é uma forma conduta cuja preocupação maior está vinculada a decadência e humilhação da comunidade, vista como vítima de algum inimigo, no qual é descarregado um ódio violento. Crendo que as soluções tradicionais, em grande medida baseadas em certos princípios racionais, são fracos e incapazes de conter a suposta agressão inimiga esses grupos organizam uma oposição de luta em torno de um partido que valoriza o sentimento de unidade, energia e pureza da nação, age violentamente em relação aos inimigos e se diz capaz de restaurar a glória e a grandeza nacional.
Outra característica fundamental de caracterização do fascismo nos lugares em que este se desenvolveu é aquilo que podemos chamar de niilismo criativo. Tal característica é provocada pelo desprezo a tudo o que possui um valor em si como princípio a ser preservado, seja no âmbito racional ou no âmbito sentimental, é o desprezo por qualquer valor absoluto a não ser o plano biológico de existência material. Nessa lógica o individuo não possui qualquer dever em obedecer um principio superior ao qual os humanos devem seguir[2]. Ao se libertar da necessidade de corresponder a esse princípio exterior devido a própria descreça em sua existência os niilistas devem escolher entre dois caminhos: o nada ou a criação de algo “novo” em benefício a única existência real que restou: a existência biológica do ser em si.
No limite tal desprezo pela verdade até a loucura leva a uma condição que a própria nação perde sua mística e valor para passar a ser um grupo biológico. Mesmo os sentimentos de amor e de ódio iniciais do movimento a favor de um bem coletivo chegam a um momento que perdem seu valor. O que importa é que a manipulação de tal sentimentalismo nos outros poderia levar a satisfação de um desejo pessoal e, em certos casos, supostamente coletivo, de êxito e poder. Para chegar ao domínio livre e totalitário de poder os fascistas faziam os mais diversos acordos políticos com os grupos instituidos, distorciam toda a tradição e moral, manipulavam o sentimento da população e criavam novas ideologias “verdadeiras”. Ao fim toda a política estava organizada para satisfazer os aleatórios desejos de poder e dominação do indivíduo que por sua vez era conduzido unicamente por seus instintos.
Feitas essa considerações poderemos agora nos deter numa análise mais detalhada do fascismo italiano e do nazismo alemão e mostrar que ambos esses movimentos são a manifestação de um mesmo fenômeno ainda que em alguns momentos a aparência exterior seja divergente em certas questões de doutrina e conduta de modo a se adaptar melhor ao contexto no qual o movimento está inserido.

O Fascismo na Itália

O fascismo nasceu na Itália em 1919 quando um grupo composto de veteranos desmobilizados, sindicalistas que haviam apoiado a guerra e intelectuais futuristas se reuniram para declarar guerra ao socialismo em razão desse ter se oposto ao nacionalismo. Retirando o sentimento de nacionalismo e o ódio aos socialistas pouco há que una esses três grupos em um único movimento. Os veteranos de guerra acompanhavam Mussolini e se sentiam no direito de governar o país pelo qual haviam lutado. Os sindicalistas traziam consigo um carater revolucionário e um desejo por uma profunda reestruturação social na Itália. Por fim, os futuristas desejavam a destruição da sociedade vigente e pensar novas possibilidades, que confere o principal carater diferencial do movimento em relação a outros semelhantes.
Os futuristas eram uma associação livre de artistas e escritores que apoiavam os manifestos futurisas de Filippo Tomaso Marinetti. “Discutindo diante dos limites extremos da lógica” Marinetti fala sobre a necessidade de romper violentamente com tudo o que é associado com a tradição. Repudiava o legado cultural do passado reunidos nos museus e nas bibliotecas como antiquarios sinônimos de morte. Afirma como base do movimento uma reação violenta contra a religião e a moral cristã que para ele é inconsciente, esnobista do passado e que prega a renúncia. Ao invés disso deseja que todas as coisas se prostrem diante do homem. Afirma o poder da vontade e glorifica os atributos e desejos da juventude: a coragem, a energia, a velocidade, a violência, o desejo de ir além para arrombar as portas do Impossível. Em lugar da tradição o futurismo pretende criar novas possibilidades, despertar sensações novas e desenvolver os valores emotivos.
O futurismo nos oferece ocasião para tratar do controvertido filósofo que muito influenciou a Benito Mussolini e, em grande medida os próprios futuristas, Friedrich Nietzsche. Apesar de todas as controvérsias a teoria do pensador alemão apresenta uma teoria geral que muito influenciou os fascismos. Nietzsche desejava uma superação do homem através do super-homem, alguém espiritualmente livre que, através da sede de poder e rejeição, rebeldia e rebelião contra os velhos ideais e códigos morais entraria em um continuo processo de superação a partir da criação de novos valores próprios. A questão é que partindo da filosofia de Nietzsche nada temos a condenar em nenhum dos fascismo, pois a própria característica básica de tal filosofia é se colocar acima do bem e do mal. Ora, se não há nenhum absoluto maior no qual se baseie os principios de justiça, não podemos dizer que subordinar, controlar e matar milhões de pessoas é, necessariamente, ruim. O que Mussolini fez foi aproveitar-se da suposta liberdade do super-homem, livre para fazer e criar o que bem entende pelo seu próprio desejo irracional e natural de poder.

Mas o fascismo em seus primórdios ainda era um tanto misturado. Tinha um anseio de expansionismo, prometia a perseguição violenta aos inimigos da nação, atacava a propriedade e a exploração burguesa, propos maior igualdade e desprezava a sociedade estabelecida. Logo depois de fundado um grupo fascista invadiu o escritório do jornal socialista Avanti onde feriu muitas pessoas e matou quatro delas, desse modo, o fascismo “inrrompeu na história por meio de um ato de violência contra não apenas o socialismo como também contra a legalidade burguesa, em nome de um pretenso bem nacional maior”. Logo a violência foi organizada por um grupo de seguidores de Mussolini denominados squadrismo. Sua tática era atacar os que a seu ver eram inimigos da nação italiana, acima de tudo, os socialistas. Nessas investidas muitos grupos como os proprietários de terra e a polícia local não só concordavam como colaboravam com os fascistas. Os puristas do movimento que discodava dos rumos que o partido havia tomado acabaram ou por sair do movimento ou foram expulsos, sendo substituidos por filhos dos proprietarios, policiais jovens e oficiais do exército. Tal fator alterou a composição social do movimento em direção a direita, mas o fascismo ainda preservava sua qualidade jovial e “revolucionária”.
Mussolini optou por adaptar seu movimento segundo as oportunidades que surgiam. É certo que o líder italiano muito se inspirou no que leu na obra de Friedrich Nietzsche que apesar de todas as controvérsias apresenta uma teoria geral que muito influenciou os fascismos. Nietzsche desejava uma superação do homem através do super-homem, algém que, através da sede de poder e rejeição, rebeldia e rebelião contra os velhos ideais e códigos morais entraria em um continuo processo de superação reavaliando a parti da criação de novos valores.

O chefe sentia-se destinado a governar e lançou-se politicamente, com impressionante habilidade tática, a se transfomar em um participante indispensável na competição pelo poder político na Itália. Essa pretensão levou Mussolini a converter seu movimento em um partido político, desagradando a muitos de seus seguidores que acharam que o movimento estava perdendo seus principios iniciais para se conformar com o parlamentarismo burguês. Mas para Mussolini tais concessões e mudanças, assim como saber lidar com os diferentes interesses econômicos e sociais, ainda que esses confrontassem a política nacionalista do partido, pareciam necessárias para a finalidade do poder. No período de 1920 a 1922 houve sensíveis mudanças na orientação do grupo: desapareceram muitas das reivindicações a favor dos trabalhadores, Mussolini tentou a reconciliação com o catolicismo e amenizou seu republicanismo inicial. Assim, o movimento foi sendo remodelado conforme a imposição das necessidades.
Logo o líder fascista percebeu que além de esclarecer prioridades e tecer alianças era necessário um novo estilo político que atraísse os eleitores. Com alguns ajustes a proposta fascista veio a tocar muitos desejos que os italianos sentiam no período. Ao invés de se apresentar como apenas mais um partido que iria dividir ainda mais a sociedade e o cenário político os fasistas prometiam unir o povo o povo debaixo de uma liderança que trabalharia em beneficio da sociedade alemã. Além disso se apresentavam como o único caminho não socialista para a necessária renovação política. O chefe discursava uma proposta de revolução contra o socialismo e o liberalismo flácido, um novo tipo de autoridade governamental capaz de subordinar as liberdades privadas às necessidades da comunidade nacional. Era hábil em criticavar a tudo que a população de fato discordava e apresentava uma Itália unida e triunfante sem necessariamente mostrar o caminho para alcançar esse ideal.
Mussolini ainda se apropriou da teatralidade pública com discursos bombasticos proferidos carismaticamente e organizou a coesão aparente do partido com uniformes e forma própria de saudação. Mussolini tinha a retórica necessária para extrair apoio diretamente da vontade popular manifestada em comícios de massa por meio de uma misteriosa comunicação do chefe com sua raça. Esse status único e místico colocava o líder como a encarnação da vontade do povo e o portador do destino desse povo, uma espéciede messias dotado de poderes pessoais extraordinarios que surgiu para a redenção da nação.
No decorrer de 1922 os squadristi exacerbaram sua atuação de tal forma que Roma não poderia deixar de ser a próxima meta. A marcha sobre Roma foi liderada por quatro militantes que representavam as diversas cepas do fascismo, mas o próprio Mussolini, prudentemente esperou em Milão. No entanto parece certo que as tropas fascistas chegaram a Roma mal-armados, com pouca comida e água e desgastados, facilmente o exército nacional poderia suprimir a revolta. Mas no último minuto, o rei Vittorio Emmanuel III recusou-se a usar a força para expulsar os Camisas Negras de Roma. Em vez disso o rei ofereceu o cargo de primeiro-ministro ao jovem líder fascista que viera do nada. A melhor explicação é que, se o governo usasse a força para dispersar os revoltosos correria o risco de ter de suportar amargas e perigosas dissensões internas.
A grande crise pela qual passava a Itália no período, crise que os próprios fascistas haviam alimentado, tornava o momento por demais anormal. Os líderes conservadores tiveram de decidir se tentariam cooptar os fascistas ou empurrá-los de volta a marginalidade. Na Itália eles preferiram “transformar” Mussolini a disciplina-lo. Os líderes conservadores concluiram que o que os fascistas tinham a oferecer superava em muitos as desvantagens de tê-los junto ao governo: o fascismo tinha uma base de massas suficiente para permitir que os conservadores formassem maioria parlamentar, ofereciam uma nova forma de engajamento e disciplina com cara jovem e pareciam apresentar soluções para contenção das esquerdas e assim restaurar a desejada ordem e o poder dos conservadores. Esse período em que conservadores e fascistas dividiram o poder foi uma época tensa para ambos os lados, mas tanto um lado como o outro estava dispostos a fazer os acordos necessários e serem cumplices uns dos outros. Tal período criou muitas tensões para Mussolini que, se por um lado tinha de negociar o poder com a elite política conservadora, por outro seus seguidores o acusavam de acomodação e de trair seus principios.
Mas Mussolini desejava ir além, queria a autoridade pessoal ilimitada. Isso ocorreu mais definidamente a partir de 1925 quando, pressionado pelo Duce o parlamento aprovou uma série de Leis para a Defesa do Estado, que fortalecia o poder da administração, submetia a imprensa a censura, restituia a pena de morte e dissolvia os partidos. Os conservadores aceitaram o golpe interno poque as alternativas pareciam ser a continuidade do impasse no enfrentamento do ministro ou a admissão da esquerda no governo.
Mas ainda aqui as ambições de poder pessoal de Mussolini contrapunham-se em constante tensão tanto às forças tradicionais quanto aos intrasigentes do partido fascista. Ao final o regime fascista italiano decaiu cedendo espaço a um poder autoritário e conservador. As organizações paralelas do partido fascista desempenhou um papel complexo e ambíguo, era ao mesmo tempo um recurso do líder que pretendia levar vantagem contra as forças conservadoras e uma base de poder autônoma que poderia colocar em cheque a supremacia do líder. Nesse jogo de forças Mussolini optou por subordinar o partido ao Estado, com seu poder consolidado declarou o fim da revolução e deu maiores autoridades ao Estado em detrimento ao partido.
Assim, as ações do líder apenas vagamente eram tomadas para defender determinada ideologia, ele agia de modo a aumentar sua situação pessoal de prestígio e poder. Para não se opor muito aos conservadores por vezes o líder teve de tomar medidas que colocavam de lado seu próprio partido. Os radicais, por sua vez, também desejavam poder, ao percebessem que as atitudes do líder estavam se tornando cada vez mais conformistas o pressionavam a radicalização e, em condições favoraveis, não tardariam em tentar depô-lo. O modo como Mussolini chegou ao poder impedia-o de acomodar-se diante do partido e mesmo da sociedade, ele deveria sempre fazer promessas espetaculares de purificar, unificar e energizar sua comunidade com feitos cada vez mais ousados. Mas, ao que parece, tendo sido um jogador ousado durante a tomada do poder Mussolini acabou se revelando um primeiro ministro que preferia a estabilidade à aventura.
O expansionismo a partir da guerra foi a saida encontrada pelo general para manter o carater ativo e dinâmico de seu governo. A luta mostrou ser a fonte de coesão, disciplina e energia do regime, assim foi na guerra contra a Etiópia e na entrada na II Guerra Mundial. Nessas condições em que o jogo de forças política com os conservadores saia temporariamente de cena o fascismo mostrava sua cara mais assustadora e o quanto a lógica do niilismo de poder criativo penetrava todo o partido. Era na ocasião de domínio de um outro povo em terra estranha que todos os preceitos morais políticos e sociais desapareciam dando a possibilidade daqueles céticos inventarem o que desejavam fazer com a população local. Não havia mais nenhum poder político, ainda que dos piores, que poderia refrear suas atitudes arbitrárias diante do desproporcional poder estabelecido em suas mãos.

A Alemanha Nazista

A Alemanha do pós-guerra oferecia um solo fértil para movimentos anti-socialistas que tinham como meta renascimento nacional. O impacto emocional da derrota na guerra e o colapso econômico do país destroçou o orgulho e autoconfiaça nacionais. Veteranos que não tinham para onde ir, sem conseguir encontrar trabalho ou mesmo comida eram presa fácil para o extremismo. Muitos deles agarraram-se ao nacionalismo dos tempos de guerra e se puseram na luta contra os “inimigos internos”, os socialistas. O cabo Adolf Hitler, já em 1919 veio a se juntar a um dos muitos movimentos nacionalistas que surgiram desde então, o Partido dos Trabalhadores Alemães, que mais tarde Hitler alterou o nome para Partido nacional-socialista. De inicio seu programa era uma mistura de nacionalismo, anti-semitismo, ataques a lojas de departamentos e ao capitalismo internacional.
Grande parte dos partidários do movimento eram jovens que reagiam com entusiasmo à nova espécie de política anti-política do nazismo e a intensa fraternidade de emoção e esforço do grupo. O partido em si era bastante diversificado, podia-se encontrar boêmios, operários, intelectuais e artistas. O que os unia eram certos valores sentimentais, muitas vezes, comuns na Alemanha do período: desprezo pela cansada política burguesa, hostilidade com relação a esquerda, nacionalismo fervoroso, idéia de que a sociedade estava se degradando e perdendo suas raizes e tolerância a violência, quando necessário.
No nazismo o nacionalismo é direcionado e explicado por diretrizes mais amplas de base biológica. São os princípios básicos do darwinismo que entende a vida como uma constante luta pela sobrevivencia na qual o mais apto deve prevalecer que são transportados para o campo social da comunidade. Para muitos fascistas as questões relativas a racionalidade e a emotividade estão subordinadas ao principio mais amplo da preservação da espécie. Esses elementos são pensados não como um fim em si, mas devem ser usados como meio com o objetivo do grupo conquistar o topo da hierarquia entre as raças dominando os demais.
Como uma invenção nova criada para a subordinação da nação aos “deveres” para com a raça o fascismo teve de formular maneiras de subjugar a nação a esse ideal. Para tanto buscou apelar para ações que gerassem reações emocionais no povo, tanto seu amores e prazeres quanto seus maiores ódios. Manipula-se tanto os desejos emocionais do povo quanto suas capacidades racionais com a finalidade de produzir neles um estado de espírito que pudesse ser de todo controlado pela política totalitária. Dessa forma o próprio conceito de verdade perdeu todo sentido deixando de ser o objetivo a ser alcançado para se tornar o meio para o poder. Essa inversão é fundamental. “A verdade de uma ideologia consiste em seu poder de mobilizar nossas capacidades para os ideais e para a ação” e já não possui um valor em si.
Iludido pelo mito de Mussolini, Hitler buscou também realizar sua “marcha”. Após o fracasso decidiu não mais chegar ao poder pela força, as massas teriam de sustentá-lo. Hitler teve que esperar outra crise para que novamente tivesse a chace de subir ao poder, o que ocorreu nos anos da grande Depressão. Nessa época milhões de pessoas perderam seus empregos e estavam ainda mais insatisfeitas com o regime vigente e com a possibilidade de uma revolução comunista. Nessa situação o fascismo soube se aproveitar da situação apresentando uma vasta torrentes de reivindicações particulares, para cada grupo seus estrategistas souberam formular uma retórica que se dirigisse aos seus interesses específicos. O nazismo conseguiu prometer alguma coisa a todos. A contradição dos argumentos pouco importava, e sim que, em 1932 os nazistas eram o maior partido da Alemanha.
Hitler sabia como trabalhar com o eleitorado de massas, jogava habilmente com os ressentimentos e medos dos alemães comuns com discursos apaixonados. O partido unido em seu uniforme e em sua marcha repetia inúmeras reuniões públicas como uma espécie de espetáculo com espertas técnicas de publicidade, as massas eram excitadas com o forte apelo emotivo do momento. No partido e no discurso cuidadosamente talhado pelo líder pareciam que todas as diferenças desapareciam em benefício de um bem superior mitificado, a glória da nação alemã. Uma nação tão nobre não poderia ser destruida pela modernidade estrangeira, pelo comunismo, pelo judeu. Deveria, isso sim, dominar os outros povos, expandir suas fronteiras, ser aquilo que estava destinada a ser, a raça superior.
Com o apoio das massas Hitler atraiu um amplo eleitorado e, assim como na Itália, colocou os conservadores em uma difícil situação. Para que pudessem se opor a esqueda comunista com maioria parlamentar era necessário uma aliança com os fascistas. Os conservadores sempre desprezaram os nazistas como brutos grosseiros, traze-los para dentro do governo foi um ato de desespero diante de uma ameaça “maior”, o comunismo. A dificuldade do estado liberal dar soluções satisfatórias ao momento de crise econômica abriu a brecha para outras alternativas de poder, o fascismo soube se aproveitar disso. Diante da caótica situação política pareceu ao idoso presidente Hindenburg que nomear Hitler como chanceler seria a solução mais viável aquela altura, achava que coseguiria domesticá-lo e mante-lo na linha dentro do jogo de forças do governo.
Mas na Alemanha a aliança dos fascistas com os conservadores durou pouco tempo. Logo, Hitler, com audácia, ímpeto e agilidade tática, conseguiu a autoridade total que os fascistas tanto desejavam. Um incêndio ao prédio do Reichstag em 1933, supostamente provocado por comunistas e o consequente pânico da revolução bolchevique deu a oportunidade ao chanceler de aumentar seu poder sem ter de responder ao Parlamento nem ao presidente, estabeleceu então uma ditadura de partido único. Desde então a luta dos conservadores se converteu numa ação de retaguarda em defesa da autonomia dos núcleos de poder que ainda lhes restavam.
Por outro lado haviam também as relações de Hitler com o partido nazista, relações essas cheias de tensões. É fato que Hitler sempre exerceu maior controle sobre seu partido do que Mussolini, mas mesmo nas dissenções internas que haviam ele tratou de maneira mais brutal e conclusiva. Assim, conseguiu resolver grande parte dos conflitos na “Noite das Facas Longas” quando mandou assassinar vários líderes da SA além de outros notáveis que o haviam ofendido ou que ameaçavam sua posição. Essa lição foi aprendida cruamente: debaixo da proteção de Hitler os nazistas tinham permissão de agir quase com liberdade total, mas se quisessem se opor ao Fuhrer certamente seriam assassinados.
Enquanto o regime fascista italiano decaiu, cedendo espaço para um poder autoritário e conservador, a Alemanha nazista se radicalizou a ponto de chegar a uma situação de licenciosidade irrefreada. Por algum tempo as forças do partido e as forças do estado coexistiam numa cooperação conflituosa conferindo ao regime uma mistura de legalismo com violência arbitrária. Pouco a pouco a coalizão interna e organizações paralelas dos nazistas sobrepuseram-se e até mesmo contaminaram as instituições tradicionais do estado usurpando o poder destas. Hitler permitia que as agências do partido competissem com as repartições estatais mais tradicionais colocando-os uns contra os outros. Em certo sentido, nos fascismos, o caos é o princípio basico de sustentação do poder. Logo o partido detinha o controle absoluto ou influenciava grandemente todas as instituições como o exército, a polícia, a educação, a imprensa, o poder judiciário e a área da saúde. Essa maior atuação e “liberdade” que Hitler dava possibilitava o dinamismo e o poder desejado por seus seguidores e supria em parte a ânsia radicalizadora dos nazistas.

Após o inicio da guerra o governo do partido assumiu o controle total do estado. A invasão ao leste ofereceu uma liberdade de ação quase ilimitada ao partido e as suas instituições paralelas, livres das poucas restrições que ainda provinham da estrutura de estado tradicional. Na “terra de ninguém” os radicais sentiram-se a vontade para realizar suas fantasias de limpeza étnica. Além disso a guerra possibilita uma situação de caos e fragmentação necessária para um poder mais irrestrito, nesse caso uma minoria fanática pode se ver livre para expressar um furor e colocar em prática seus desejos mais instintivos. O holocausto dos judeus deve ser pensado como a expressão radical e até as últimas consequencias de profundos sentimentos de ódio que se viu livre para a atuação sem uma ética básica acerca de qualquer moral de nível superior a simples existência e qualquer instituição capaz de preservar alguma moral que pudesse fazer frente aos instintos. O nazismo trabalhou nos dois sentidos, interiormente destituiu os individuos dos valores a partir dos quais suas consciências poderiam impedi-los de agir livremente, e exteriormente se levantou contra as instituições que defendiam tais valores prometendo que o poder estabelecido não condenaria seus abusos. Nos lugares conquistados tanto a normalidade burocrática quanto os princípios morais eram fáceis de serem deixados de lado e as necessidades da raça superior convertiam-se no único critério para a ação.
Tamanha liberdade de ação possibilita-nos uma brecha para outra possível interpretação. É possível considerar que nem todos os partidários do fascismo sempre acreditaram na teoria de pureza biológica da nação. Ainda que acreditassem que o valor biológico é o único a ser seguido, em detrimento de qualquer outro valor, isso em nada implica o dever de defesa de uma comunidade de indivíduos que supostamente fazem parte de um mesmo grupo. Esse suposto dever instintivo para com a espécie não é algo que está tão naturalmente dado como o instinto de preservar a si mesmo em detrimento dos demais. Ao que parece, se desejo protejer minha raça isso está muito mais ligado a um sentimento enraizado na tradição do que num impulso. E é exatamente por isso que esse suposto “instinto” ter de ser fabricado pela propaganda.
Não penso que estariamos exagerando se considerassemos toda a doutrina biológica nazista como um instrumento de propaganda e não de crença real, para submissão coletiva a vontade individual e instintiva de uns poucos individuos. Talvez isso dificilmente se possa provar, contudo, é bastante claro que em determinado momento, principalmente para a liderança nazista pouco importava a raça e a nação, e sim a subordinação dos demais a vontade própria, a Alemanha pouco importava, e sim a possibilidade da pratica da vontade instintiva de poder e dominação. Tal característica se torna mais descoberta ao final da guerra quando uma minoria obcecada é capaz de levar a cabo, de forma mais implacável, seus ódios mais passionais, extrapolando-os aos limites últimos da experiência humana. Por fim a radicalização acaba por negar a própria nação e os fanáticos preferem ter de destruir tudo a admitir a derrota. O poder acaba se voltando contra a própria população alemã, como o próprio Hitler em ocasião da aproximação das tropas aliadas desejou levar junto com sua própria destruição toda a nação alemã.

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[1] Inicialmente, o amor aos semelhantes, assim como o amor a família, não implica o ódio para com os outos, diferentes. Seria um erro condenar o sentimento de pertencimento a um grupo simplesmente porque alguns individuos degradaram esse sentimento.
[2] Esse conceito é amplo demais para definirmos satisfatoriamente nesse pequeno texto. Seria em termos gerais uma realidade exterior ao individuo de valor objetivo por meio da qual as ações eram julgadas como condizentes ou incondizentes a essa realidade. Essa realidade exterior pode ser identificada ao longo da história com vários nomes, citaremos apenas alguns: Deus (ou qualquer realidade sobrenatural), a Lei, o Caminho, a Verdade, a tradição, a Natureza, a Razão.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Para uma Interpretação Ética do Nazismo

Esse trabalho foi realizado no primeiro semestre de 2009 para um tópico sobre o nazismo ministrado pelo Professor Doutor Michael Hall. Ta GRANDE, eu sei. Mas achei importânte refletir sobre a questão porque ninguém sabe o que o futuro reserva ao certo, e mostrar o que o nazismo é em sua essência ética nos ajuda a previnir quanto a problemas que sem dúvida retornarão, cedo ou tarde, na mente dessa raça humana cujo desejo por poder é inssaciável.




Introdução

A proposta desse trabalho é desenvolver uma análise do nazismo a partir do problema da ética. Estamos plenamente conscientes da complexidade e controvérsia do tema, porém optamos pelo assunto ainda assim porque o consideramos de importância fundamental e cremos que seria extremamente produtivo pensar a questão do nazismo raciocinando nesses termos. Para tanto tomamos como base para o desenvolvimento do trabalho o livro publicado em 1943 pelo escritor C. S. Lewis, A Abolição do Homem[1]. O trabalho está dividido em quatro momentos. Primeiro procuramos demonstrar as progressivas nos conceitos de ética desde o iluminismo. Num segundo momento mostramos a circunstância específica da república de Weimar que possibilitou a total superação de qualquer conceito de ética. Por fim, tentamos explicar tanto teoricamente como na prática o modo como o nazismo se aproveita dessa circunstância para criar uma nova forma política que se colocava acima de qualquer conceito ético.


A morte da ética

a) A ética transcedental

Por longo período de tempo toda a moral, ao menos no mundo cristão ocidental, foi baseada em princípios éticos[2] absolutos que possuíam uma legitimidade exterior ao indivíduo e não precisavam nem sequer ser explicados pois faziam parte da própria vida humana. Segundo essa cosmovisão, que possui suas origens filosóficas nos gregos, os objetos não são meros receptores de nossas emoções mas podem merecer ou não a nossa aprovação. A justiça seria a capacidade de dar a cada objeto o valor que lhe é devido e a virtude correspondia ao correto ordenamento das afeições, agindo assim em conformidade com a perfeita e absoluta realidade exterior. Dessa forma, todo o universo é configurado de uma maneira tal que as atitudes humanas no plano da realidade sensorial podem estar congruentes ou incongruentes a ele. Toda atitude pessoal ou coletiva era julgada e interpretada de acordo com sua concordância ou discordância aos conceitos de virtude anteriormente estabelecidos como absolutos. Seria Boa toda a atitude que se conformasse ao Modelo estabelecido previamente, que tinha por característica básica o fato de ser uma premissa de valor objetivo que era colocada anteriormente e acima de qualquer juízo de valor pessoal. Por outro lado, seria considerada Má toda a atitude que se colocasse contrária, desrespeitasse, ou fosse incoerente aos princípios estabelecidos pela Ordem verdadeira.
Não pretendemos que esse ensaio seja uma defesa de tal cosmovisão porque apesar de estarmos de acordo com a necessidade de tal principio absoluto e exterior ao qual devamos nos conformar, estamos plenamente conscientes do quanto esse modelo de pensamento acabou por se tornar ferramenta de opressão para aqueles que, ao invés de se subordinarem aos seus princípios éticos acabaram por utilizá-lo como ferramenta pessoal para maior e melhor dominação a partir do moralismo. E se pretendemos que ainda existe algum valor em resgatarmos os princípios transcendentais de conduta ética em nossa sociedade devemos mostrar que há algo em sua essência que vai além da aplicação exterior de seus preceitos moralistas e dogmáticos que até aqui só conduziram a hipocrisia odiosa, o que não convém fazer aqui.

b) A ética natural – Direitos do Homem

Um marco fundamental do rompimento com essa percepção transcendental de mundo aconteceu por volta do século XVIII com o Iluminismo. Em seu desejo em delimitar racionalmente a Ordem que, por sua própria natureza, têm de ser evidente por si, acabaram por retirar da divindade e mesmo da tradição o fundamento sobre o qual se baseava os princípios de justiça[3]. Aos poucos, como mostraremos adiante, o que aconteceu foi que, desvinculados de seu contexto temporal e espacial, ou seja, da tradição ao qual estão vinculados, os princípios fundamentais perdem todo o seu valor e já não possuem a tão desejada evidência em si mesma.
Como demonstra Hannah Arendt em seu clássico, Origens do Totalitarismo[4], a Declaração dos Direitos do Homem na Revolução Francesa foi um marco fundamental nesse processo de emancipação de toda espécie de tutela sobre o homem. Significava que o Homem e não o comando de Deus e nem os costumes da comunidade seria a fonte última da Lei. Os direitos éticos determinados pela tradição foram substituídos por modelos gerais de direitos naturais como verdades evidentes em si mesmas.
O desenvolvimento racionalista possui um efeito imediato na modificação progressiva das concepções tradicionais de mundo empírico. Quando compreendemos um objeto analiticamente, o dominamos e o usamos para nossa própria conveniência, nós o reduzimos à condição de “Natureza” – no sentido que nós suspendemos nossos juízos de valor a respeito dele, fazemos abstração da sua causa final e o tratamos quantitativamente. O preço da conquista racionalizada sobre os objetos significa desmistificação desses para então tratá-los como mera natureza sem nenhum atributo de valor, ou seja, a racionalização acaba por retirar todo significado simbólico atrelado aos objetos para deixar no lugar uma essência vazia.
Mas, ao que parece, o que configura a característica de humano não é uma abstração do Homem em sua essência natural, mas uma herança vinculada a cultura que um homem transmite aos seus filhos como transmite a própria vida. Pois é exatamente no momento em que a pessoa se torna um ser humano geral - sem uma tradição, uma cultura, uma cidadania, na qual se identifique e se especifique – sendo nada além do que sua individualidade absoluta e singular, que sua característica humana perde todo o seu significado.
Quando os direitos do Homem foram declarados a hipótese é que eles eram inalienáveis, ou seja, independiam de todas as culturas e governos. Com a constituição dos Estados-nações modernos, outro advento das luzes, o dever de preservação daqueles direitos humanos inalienáveis foi imediatamente associado ao pertencimento a uma nação que garantisse a proteção de seus cidadãos. A grande desgraça foi que nem todos os grupos conseguiram se ajustar perfeitamente ao modelo proposto. Foi assim que surgiu um problema que até hoje carece de solução: os apátridas e as minorias étnicas. No momento em alguns os seres humanos deixaram de ter um governo não restava mais nenhuma autoridade para protegê-los. Acabou acontecendo que a perda dos direitos nacionais tinha como conseqüência a perda dos direitos humanos, para esses não havia mais Lei que assegurasse qualquer proteção. A simples existência na qualidade de Homem, em que tudo é dado misteriosamente por nascimento não pôde oferecer qualquer motivo particular para essa suprema e insuperável afirmação. A igualdade, em contraste com a mera existência, não nos é dada, mas resulta da organização humana, não nascemos iguais, mas tornamo-nos iguais como membros de um grupo no qual compartilhamos valores. Aos poucos a noção de direitos humanos tornou-se para todos uma prova de idealismo fútil ou de tonta e leviana hipocrisia.

A questão dos judeus ajuda a esclarecer esse ponto. Ao longo dos séculos a presença judaica no meio cristão foi se sedimentando e se institucionalizando por meio de rituais codificados que diferenciavam o judeu mas também o colocavam num lugar devido dentro das relações sociais do imaginário cristão. Até o advento da modernidade, a separação dos judeus foi nada mais que um exemplo da separação universal das unidades na preordenada cadeia do ser. A própria identidade cristã se baseava no isolamento judeu e na atribuição a ele como a oposição necessária para a sustentação da ordem clériga. O conceito de judeu foi construído como a repugnância da ordem cristã, arquétipo da heterodoxia, do caos, da anomalia, da aberração. Por fim, acabaram se tornando alvo de toda espécie de antagonismos mesmo opostos e contraditórios. Porém, com o advento da modernidade e sua tendência a uniformidade foram constituídos os Estados-nação de acordo com o território pertencente a cada grupo, mas os judeus, por sua dispersão, não couberam nessa definição e acabaram por tornar-se hóspedes indesejáveis dentro de cada nação impedindo a tão desejada homogeneidade do grupo. Em todos os lugares eles eram o vazio nacional em um mundo coberto de nações, o lado opaco num mundo que lutava por claridade, a ambigüidade num mundo ansioso por certeza.
A cidadania e igualdade instituídas desde então acabaram por quebrar a diferenciação tradicional que se fazia para com os judeus. Assim, a ainda desejada separação desse grupo teria de ser fabricada e racionalmente defendida. Teoricamente, pelos princípios “naturais”, essas minorias étnicas deveriam ter os mesmos direitos dos habitantes genuinamente nacionais sem o serem, o que gerou grande insatisfação. O anti-semitismo moderno nasceu não da grande diferença entre os grupos, mas sim da ameaça de não haver diferenças, da homogeneização da sociedade ocidental e da abolição das antigas barreiras sociais e legais entre judeus e cristãos. Os judeus, já constituídos como imundos pela tradição eram alvo vulnerável ao impacto das novas tensões e contradições que a modernização trazia consigo. Na maior parte da história moderna eles foram os principais portadores de tensões e ansiedades que a própria modernidade declarou mortas. Sobretudo foram identificados com aqueles elementos da modernidade que causavam maior desprezo, o burguês rico e explorador, o imoral, o esteticamente imperfeito, o sujo, o comunista, o artista e intelectual degenerado, o insano, a fonte do caos.

c) Os problemas da lei natural

Por vezes a solução buscada pelos defensores dos princípios racionais foi a criação de certas comunidades internacionais que se colocassem em defesa dessas minorias. A nós parece que a questão está em outros termos. Mesmo rejeitando grande parte dos valores tradicionais e divinos como um erro, ainda assim os iluministas continuaram crendo que certos princípios básicos são bons em si mesmos e devem ser preservados, desejavam abandonar a tradição e ao mesmo tempo manter a parte dela que consideravam útil para o Homem. Por isso buscaram criar outra base absoluta em supostas leis inalienáveis da natureza que nada mais eram do que uma seleção de alguns dos princípios vinculados a tradição e a ordem transcendental destituídas de seu contexto e que alguns homens consideraram como o modelo moral para toda a humanidade.
O problema é que, quando decodificamos a ética a partir da racionalidade fazendo uma abstração de seus princípios fundamentais e reduzimos esses pontos a condição de princípios naturais nós acabamos por retirar todo o conjunto de significados e valores a ela associados para tratá-los como um produto vazio. Paradoxalmente é exatamente nessa situação que tais princípios perdem sua naturalidade de existência em si mesmos tornando-se questionáveis. Ao que parece a natureza não diz a mesma coisa a todas as pessoas. Que razão torna as premissas escolhidas mais verdadeiras do que outros princípios igualmente legíveis da tradição? Por que essas premissas se mantêm se assim como os dogmas se não são passiveis de serem comprovados racionalmente? Por que a seleção daqueles valores e não de outros? Por que tais premissas fundamentais não poderiam ser transgredidas em beneficio da maioria ou da nação?
Os revolucionários perceberam sabiamente que uma concepção de lei que identifica o direito com a noção do que é bom torna-se inevitável quando as medidas absolutas e transcendentais da religião ou da tradição perdem a sua autoridade. Mas não possuindo uma base sólida para sustentar a doutrina moral senão o próprio homem em sua suposta essência natural a ética universal e absoluta tornou-se extremamente instável e questionável, principalmente por aqueles que advinham de outra tradição. Aqui, nos problemas da realidade concreta, confrontamo-nos com uma das mais antigas perplexidades da filosofia política, que pôde permanecer despercebida somente enquanto uma teologia cristã estável fornecia a estrutura de todos os problemas políticos e filosóficos, mas que, há muito tempo atrás, levou Platão a dizer: ‘Não um homem, mas um deus deve ser a medida de todas as coisas’.

d) Racionalismo no XX

Mas, como sabemos, o impulso racionalista do século XVIII adentrou o século XX com o mesmo impulso em desmascarar os valores objetivos da religião e da tradição em benefício de outros valores supostamente universais e racionais. Não tardou e o próprio racionalismo tornou-se parte da tradição de alguns países e exercia influência sobre toda a Europa. Mas uma característica importante que diferencia o racionalismo no século XX de muitos teóricos do iluminismo é acabar por descartar mesmo a possibilidade de uma verdade natural absoluta. As sucessivas conquistas de dominação e utilização do homem sobre os elementos da natureza tornaram possível a concepção da idéia de que o homem não estava mais sujeito a ela, mas a dominava totalmente para o benefício próprio. Os “avanços” sobre a natureza fez do homem do século XX tão emancipado da natureza como o homem do século XVIII se emancipou da história. Ambas se tornaram alheias a nós de forma que a essência do homem não pode ser compreendida em termos de uma e nem de outra.
Com o avanço científico e a conseqüente desmistificação da religião, da tradição e da natureza, a razão assumiu o controle absoluto da ética. Desde então os sentimentos dos indivíduos deixaram de ter de se conformar a qualquer princípio mais amplo e superior do qual podiam estar em acordo ou desacordo para tornarem-se simplesmente reações subjetivas aos fenômenos da realidade. O único valor que restou era a esperança de que a razão conseguiria cada vez mais superar as contradições do mundo e do pensamento e achar a essência real por traz de todas as coisas. Desse modo a sociedade tenderia sempre a se superar levando a uma organização a partir de princípios, mesmo éticos, cada vez mais desenvolvidos.
Essa lógica tende a desprezar o sentimentalismo em benefício da racionalidade que supostamente levaria o homem aos caminhos mais verdadeiros. Quaisquer características emocionais dos indivíduos ligados a tradição ou a religião são vistos como contrários a razão e, por isso, desprezíveis. Eram como névoas instáveis que impediam o conhecimento da essência da causa. Assim, os sentimentos foram sendo condenadas a favor de uma razão pura que ainda pretendia fornecer a base para novos absolutos fundamentados em suas próprias capacidades.


A República de Weimar

É verdade que a disputa entre o racionalismo crescente e a tradição ligada a sentimentos estava presente em toda a Europa de finais do século XIX e começo do XX. Mas foi sua expressão de forma especial na República de Weimar que possibilitou a ascensão de uma nova base ética que pudesse sustentar os sentimentos sem que esses necessitassem ser explicados por qualquer princípio absoluto e exterior ao próprio indivíduo biológico. Mas antes de nos determos nesse ponto é necessário mostrar a preparação do terreno na conturbada república de Weimar na Alemanha no pós-guerra.

a) Aspectos políticos

A Guerra desacreditou muitas das visões de mundo otimistas e progressistas lançando sérias dúvidas sobre os pressupostos liberais de harmonia humana natural. A onipotente razão mostrou-se extremamente capaz, mas ao invés de construir uma sociedade melhor apenas criou armas que causaram a destruição de milhões de pessoas. Diante do terror das trincheiras a muitos europeus pareceu que a própria civilização ocidental, com suas promessas de paz e progresso havia fracassado.
Na Alemanha a derrota frente aos Aliados levou ao desmoronamento do Império. Depois da vitória sobre os spartakistas, grupo de esquerda radical, o partido social-democrata convocou as eleições por sufrágio universal para a formação de uma nova Assembléia nacional a fim de formular para a Alemanha uma constituição republicana. O problema mais espinhoso e desgastante para os republicanos foi lidar com o tratado de paz emitido pelos vencedores, o tratado de Versalhes. Enfraquecidos demais para se posicionar contra, a assembléia acabou por concordar, ainda que relutantemente, em assinar o acordo tão humilhante para a nação alemã. Desde então a república passou a ser identificada com a aceitação da paz nas condições impostas pelos Aliados, para muitos Weimar era sinônimo de fraqueza, humilhação e submissão cultural e ideológica a dominação estrangeira.
Como demonstra Peter Gay[5], de um modo geral predominava na visão das pessoas acerca da república um ceticismo quanto sua capacidade em trazer benefícios a nação alemã. Sua forma excessivamente racionalizada e burocrática de lidar com a política pareceu uma exportação estrangeira que em nada condizia com o espírito alemão. O fato é que esse governo encontrava pouca legitimidade na tradição do país, seus princípios de organização não eram valorizados como baseadas em princípios universais, mas como uma interferência estrangeira, exportada devido à derrota. O pessimismo geral que pairava sobre a república ajudaram a enfraquecer o governo estabelecido. Para piorar, as dificuldades da república em lidar com as crises econômicas do pós-guerra e do crash em 1929 e a fragmentação cada vez maior dos partidos numa cacofonia de interesses discordantes vieram a confirmar a pregação dos partidos antagônicos a república sobre a fragilidade do governo estabelecido. Por fim, a constante ameaça da revolução comunista parecia um problema que estava fora do alcance da república a possibilidade de controlar.
Mas o fracasso não era um fim inevitável de Weimar, durante certo período ela teve chance real, muitas pessoas encararam a Revolução como a promessa de uma nova vida e criam em sua plena concretização. A proposta da República era uma Alemanha cosmopolita e pacifista, visava um futuro glorioso para a nação, e, ao mesmo tempo, possuíam uma base na tradição da filosofia humanista. Outras muitas pessoas, mesmo não concordando totalmente, aprenderam a viver com a república e a aceitá-la. Não a julgavam ideal, mas necessária, não a amavam com o coração, mas a respeitavam como um modelo justo. Esses são chamados por Peter Gay de republicanos racionais[6], por escolha intelectual. Para eles a forma de governo não era tão importante, mas sim evitar a polarização radical na política através da colaboração entre as classes. Se a república não perdurou isso foi devido a uma série de fatores particulares que, auxiliado pelo clima de ceticismo e pessimismo contribuíram para enfraquecer o governo então estabelecido.

b) Aspectos sociais

O sociólogo Talcott Parsons[7] tentou explicar o surgimento do nazismo a partir do que ele denominou “estado de anomia”. Seria uma situação na qual muitos indivíduos estão carentes de integração nos padrões institucionalizados estáveis e temem o avanço da desintegração e decadência social. Tal situação é gerada pela instabilidade das expectativas para as quais a ação está orientada e pela instabilidade de um sistema de símbolos concreto em torno do qual os sentimentos individuais possam se cristalizar. Na Alemanha essa situação é conseqüência da rapidez com que se opera o que Parsons chamou de “processo de racionalização” e suas conseqüências como a industrialização, a instabilidade econômica, a urbanização, as mudanças culturais e, sobretudo, o desenvolvimento científico que acabou por desmistificar os valores tradicionais da religião, da ética e da filosofia sem apresentar substitutos equivalentes e estáveis. O desaparecimento de modelos de orientação que o individuo poderia tomar com total garantia e a complexidade de influências sem que nenhuma delas fornecesse uma definição socialmente sancionada por um critério absolutamente definido gerou o anseio por uma revolução espiritual e abriu a porta a possibilidades não antes imaginadas.
A questão central parece ser que os princípios racionais estabelecidos desde o século XVIII e que eram o suporte da política liberal e democrática em vários países europeus tiveram muito maior resistência em se estabelecer na Alemanha. Ao que parece ali as idéias da ética racional, igualitária e democrática não faziam tanto sentido para a população de uma forma geral, exceto para os burgueses, a elite esclarecida e alguns poucos intelectuais. Para aqueles que estavam acostumados com os princípios estabelecidos pela tradição ligada ao povo e a terra a república claramente confrontava a ordem estabelecida e os vínculos e formas de relação tradicionais a partir de princípios supostamente universais que na realidade carregavam outros valores. Para esses a racionalização era sintoma de decadência nacional que levaria a sociedade alemã a ruína. A separação e exaltação sobre os valores do “ocidente” burguês, materialista, racionalista e individualista era uma parte importante da ideologia alemã.
Mas se o socialismo-democrático era ruim para os princípios tradicionais da ordem estabelecida o comunismo parecia pior. Em sua denuncia da falsidade na aplicação dos princípios de igualdade defendidos pelo liberalismo acabou por se opor de maneira ainda mais racionalizada e radical aos princípios anteriormente estabelecidos em benefício de uma nova ética cujo absoluto máximo é colocado nos princípios econômicos e na luta de classes. Tomando tais ideais como protótipo das atitudes corretas os elementos da tradição não racionalmente defensáveis foram ainda mais desmistificados. Porém, na realidade concreta a luta não se desenvolve apenas nos princípios de classe, mas também sobre posições culturais divergentes, o comunismo parecia significar a destruição dos sentidos e significados atribuídos ao mundo e aos modos de relações humanas estabelecidos de forma ainda mais absurda do que vinha sendo provocado até então seja no Império ou na República. Não que esses não percebessem muitas vezes a dominação e exploração por parte tanto dos conservadores quanto dos liberais, mas por algum motivo de ordem mais profunda que sua situação econômica grande parte dos proletários preferiam permanecer nessa situação a se juntar aos comunistas.

c) Aspectos culturais

Essa Alemanha democrática possibilitou a plena emergência de uma cultura extremamente complexa e reflexiva diante da instabilidade social e política do período. A atmosfera conturbada aumenta os paradoxos provocando a destruição de muitos valores, por isso a inquietação dos alemães nesse período adquire proporções gigantescas. Segundo nos parece o filósofo Heidegger condensa de maneira genial em sua filosofia a atmosfera geral do período. Os termos chave de sua filosofia como “o nada”, “existência”, “decisão” e “morte” eram comuns nos meios intelectuais e artísticos da época. O objetivo de sua filosofia parecia bastante claro: o homem é lançado ao mundo, perdido e amedrontado; ele tem de aprender a enfrentar o nada e a morte. A razão e o intelecto são guias sem esperanças, e totalmente inadequados para o mistério do ser. Segundo o filósofo a situação em que o homem se encontrava na República era uma situação revolucionária em que se deve agir; qualquer que fosse, a construção ou a total destruição que se seguisse não importava nada. Sua filosofia é uma rejeição desdenhosa da civilização racionalista, moderna e urbana. Seus trabalhos davam boas razões para a crítica de Weimar, o fruto da razão, e a exaltação a movimentos como o dos nazistas que propunha alternativas de ação baseadas no instinto da raça. Na Alemanha de Weimar, antes mesmo que o racionalismo pudesse se estabelecer plenamente como o princípio de sustentação política e social, grande parte da intelectualidade já se tinha descartado completamente a possibilidade da racionalidade encontrar um sentido para a existência. Tendo desprezado a crença nas capacidades racionais de encontrar as saídas para os problemas do homem proclamado pelo iluminismo a solução aos problemas políticos deveria buscada em outros termos.
Nessa mesma direção trilha o expressionismo alemão. O movimento era pouco unificado, mas possuía certos contornos gerais próximos. Trouxe uma visão emotiva da realidade de forma a interpretar o mundo de maneira subjetiva e livre. A idéia principal era romper com as aparências e enxergar, a partir da subjetividade do artista e seu mundo interior, uma essência, que está por traz da realidade. Se o mundo interior era alógico e obscuro assim também deveria ser a expressão artística na apreensão e concretização do mundo. Dai advêm as distorções, os contrastes de cores e certa falta de lógica tão características das obras expressionistas. Inicia-se uma vinculação forte da vanguarda artística ao obscuro e indeterminado, ao ilógico e misterioso. Para muitos as perguntas mais insistentes giravam em torno da necessidade de renovação do homem, perguntas tornadas mais urgentes e praticamente insolúveis diante de um mundo em que tudo parecia deixar de possuir sentido.
O complexo de sentimentos e reações confusas e sem direção é uma característica comum a grande parte da população de Weimar, tal situação aparece ante ao exame como sendo uma enorme reação nascida de um grande temor: o temor do modernismo. Tal gerou a ânsia por alguém capaz de reestabelecer a ordem e direção sem a confusão e instabilidade das múltiplas vozes soantes na república. A ânsia desesperada por raízes e o repúdio a razão acompanhado pela necessidade de alguma reação ordenada possibilitou a sujeição fácil a um líder carismático. Mas em muitos termos a ânsia pela centralização estava inundada de ódio; o mundo político da democracia era paranóico, cheio de inimigos e falsidade; a máquina desumanizante, o materialismo capitalista, o racionalismo sem deus, a sociedade sem raízes, o monstro da cidade e o remorso da derrota. Todos esses fatores tornaram possível o surgimento de um movimento totalitário que misturasse misticismo e brutalidade, mas ainda não o explica, teremos de avançar em mais alguns termos.

O Nazismo na teoria

a) O Sentimento Nazista

O partido Nacional-Socialista surge em meio a essa atmosfera de profunda desordem que se encontrava a Alemanha do período. Porém, ao contrário dos outros partidos ele não nasce de uma oposição racionalmente definida para com a política instituída, mas como uma reação profundamente sentimental. A mistura de sentimentos que movem os nazistas a ação não são isolados, mas compartilhados por grande parte da população da Alemanha no período. Tais sentimentos surgem como reação de ódio nacionalista diante da derrota na guerra e do avanço de um racionalismo que acaba quebrando e fragmentando os valores e estruturas sociais existentes. Para esses a comunidade está passando por uma fase de decadência e humilhação devido à penetração de idéias e influências exteriores que corrompem a sociedade. No nazismo esse sentimento geral tomou formas mais definidas.
Segundo o historiador Robert Paxton o nazismo deve ser explicado a partir da instalação de um estado de espírito comum em torno de um conjunto de paixões mobilizadoras e não por uma filosofia explícita e plenamente consistente. O essencial é um nacionalismo apaixonado que possui uma visão maniqueísta da história como uma batalha entre os campos do bem e do mal da qual a própria comunidade é sempre vítima. O povo foi enfraquecido pelos diversos partidos políticos, pelas classes sociais, pelas minorias inassimiláveis e pelos intelectuais e artistas cosmopolitas que perderam o senso de comunidade. Por um lado, esse pavor da decadência gera no nazismo o desejo de trabalhar a favor da integração da sociedade alemã, buscando uma sociedade mais pura. Por outro o leva a tomar atitudes violentas contra tudo o que aos seus sentimentos parece ser o inimigo.

b) A base biológica

Mas, sentimentos não podem se sustentar em si mesmos senão no nível da pura subjetividade se não se apoiarem numa base mais ampla; e como o nazismo pretendia formular uma doutrina de ação coletiva e havia negado todas as bases anteriores na qual o sentimento poderia se sustentar foi necessário dar-lhe nova base, e essa foi encontrada na biologia. A essência por traz de tudo é a preservação da espécie. Assim, todos os valores tradicionais, os sentimentos e a própria razão não são um fim em si, mas meios para atingir um propósito anterior, o instinto de preservação da raça. Qualquer noção de justiça está subordinada a esse verdadeiro fim. Os nazistas colocam a luta grosseira pela sobrevivência e o direito do mais forte, no caso, a raça alemã, de dominar sobre as outras nações, como algo evidente em si mesmo e inquestionável. Nessa lógica, o instinto de dominação da comunidade vem antes da preservação da própria humanidade. E, para os nazistas, era dever do povo alemão obedecer a esse instinto acima de qualquer coisa.
A teoria biológica desenvolvida pelo nazismo a partir do darwinismo social entre as raças é de todo complementar ao forte sentimento nacionalista do grupo e está totalmente associado à possibilidade do nazismo superar o próprio racionalismo oferecendo novas possibilidades de ação. Essa teoria deu outras características fundamentais ao nazismo. Em primeiro lugar o direito do povo eleito de dominar os demais sem limitações de qualquer natureza, sejam elas impostas por leis humanas ou divinas. Depois, a primazia do grupo, com relação ao qual as pessoas tem deveres superiores a quaisquer direitos e a subordinação do individuo a esse grupo. E, por fim, a necessidade da autoridade dos líderes naturais, culminando num chefe nacional que é o único capaz de encarnar o destino do grupo e cujo instinto é superior a qualquer racionalidade. Hitler acreditava que ele seria capaz de levar o povo a obedecer a cumprir o destino da raça ariana.
Nesse mundo cujo princípio fundamental de todas as coisas está no plano biológico, que, guiado pelas leis da natureza, luta instintivamente pela dominação do forte sobre os fracos, não há mais nada que tenha valor, exceto o grau de poder sobre os demais. Tal característica do nazismo deve ser pensada em várias perspectivas, a mais óbvia, já citada, a dominação de uma raça sobre as demais, o que justifica a guerra. Mas também existe uma preocupação constante do partido nazista em dominar a massa. Além disso, apesar de todas as aparências, uma luta darwiniana interna ao próprio partido, todos usando todos os tipos de artimanhas possíveis para chegar mais próximos as esferas de maior influência e dominação. E, por fim, o poder que o líder pretende exercer sobre os povos inferiores, sobre a raça alemã e sobre o próprio partido.

c) Os problemas da base biológica

Mas se analisarmos com atenção a base biológica veremos que aqui encontramos sérias dificuldades práticas. Antes de qualquer coisa porque normalmente chamamos de instinto tudo aquilo que não sabemos explicar direito como funciona. Os nazistas supuseram a partir do suposto instinto de preservação da espécie defendido pelo darwinismo, que existiria outro instinto ainda mais forte de preservação da raça. Mas, ainda que admitíssemos a existência desse instinto o que obriga uma nação a obedecer a ele? Dizer que devemos obedecer aos instintos é como dizer que devemos obedecer as pessoas, as pessoas dizem coisas diferentes, e assim também os instintos. Cada instinto clamará por ser atendido em detrimento dos outros, pelo simples fato de ouvirmos um deles e não os demais estaremos fazendo um julgamento prévio. Os nazistas dirão então que temos o dever de preservar a raça. Mas por qual motivo o indivíduo deve colocar o instinto de preservação da comunidade a frente do instinto de preservação pessoal?
Ao que parece a opção por um instinto e não o outro só pode ser explicado com a intensidade de nossos sentimentos em relação a eles. E não existe outro lugar para encontrar as raízes desses sentimentos senão a própria tradição. Foi porque os nazistas e toda a sociedade alemã viviam em determinada atmosfera cultural que validava certos princípios coletivos como verdadeiros e desprezava outros como falsos. Se, por um lado, havia um forte sentimento comunitário de apego a terra e ao povo alemão, por outro percebemos desprezo e resistência aos valores afirmados pela racionalidade, como o individualismo.

d) A superação ética do nazismo

Mas aqui surge uma mudança ética fundamental que diferencia o nazismo das demais organizações nacionalistas: o nazismo pretende manter os sentimentos mesmo depois de tê-los superado pela razão. Desejavam tratar com a tradição e os sentimentos a ela envolvidos depois de acreditarem terem desmistificado suas origens pelo seu conhecimento. A tradição não estava mais vinculada a princípios eternos e imutáveis que encontra sua realidade última em Deus, na Natureza, ou mesmo na Razão. Todas essas questões foram desmistificadas pelo homem e agora não existia outra realidade senão o indivíduo desvinculado de todos os atributos humanos, restava o animal. A desgraça foi que os animais queriam ser deuses. Pretendiam restaurar a ordem alemã, restaurar a moral e os sentimentos patrióticos depois que a própria crença sincera e interna nos ideais emotivos que possuíam seu princípio em uma base superior havia-se perdido. Não que eles não fossem nacionalistas, eles desejavam ser verdadeiros nacionalistas, mas o nacionalismo aqui não está mais na sua posição natural, os nazistas estão fora do processo e acima dele. Se desejam retornar aos sentimentos não é pela sua evidência em si, mas pela decepção com a razão.
Depois da superação da razão como princípio último a ser seguido existem dois caminhos possíveis a ser seguidos: o niilismo completo e o niilismo criativo. A opção feita pelo nazismo foi a segunda, eles poderiam “criar” algo novo a partir da reconfiguração da tradição. Depois da superação da crença em qualquer absoluto ao qual o homem deve se submeter estão livres para usar da tradição e de seus preceitos objetivos para a satisfação da própria vontade. Nada os impede de arrancar de seu contexto um ou mais preceitos simplesmente porque esses chamaram sua atenção por meras circunstâncias emotivas em determinado momento, hipertrofiá-los até a loucura e usá-lo para os fins de sua vontade. Com essa reconfiguração os sentimentos emotivos também podem ser produzidos e manipulados de forma a gerar alguns prazeres desejados e incitá-los a determinadas ações.
Essa é a medonha característica supra-revolucionária do nazismo. A ética trascedental vive internamente a crença naquilo que acredita, dessa forma se coloca dentro da tradição e de seus preceitos e enxerga o mundo a partir de um todo. Com um exemplo simples, se ela diz que é certo amar aos conterrâneos ela também diz que é errado mentir. Não que essa ética possua uma essência fixa, em vários sentidos ela pode ser superada. Mas a superação aqui, ao menos teoricamente, implica uma modificação interna visando o aperfeiçoamento do próprio modelo, não nega a tradição anterior, mas aponta seus defeitos. Da mesma forma, até então, os modelos políticos baseados em características racionais partiam de sistemas filosóficos coerentes a partir de uma discussão com o debate estabelecido anteriormente, assim todas as possibilidades novas partiam das bases daquilo que para todos era um consenso. Isso possibilita uma capacidade revolucionária, mas, repetimos, a mudança se dá interiormente e a partir do processo estabelecido. Não pretendemos dizer que o nazismo está desvinculado da história, na realidade ele só pode “criar” algo novo a partir dos elementos estabelecidos socialmente, porém, ele pretende “criar” desde fora do processo, manipulando conforme a sua vontade a tradição e os elementos internos da discussão acumulada.
Desde então eles podem lidar com a tradição sem ter de se sujeitar a seus princípios fundamentais, podem selecionar o que lhes será útil e o que pode ser desprezado. Mas sem se conformar com a própria “liberdade” criativa adquirida o nazismo foi além, no intuito de manipular nos outros a criação própria. Verdadeiros sentimentos nos indivíduos foram encorajados por motivos que nada têm a ver com justiça e pertinência implícitas. A ética transcendental vinculada a tradição era transmitida pelas gerações para que as pessoas desenvolvessem reações apropriadas e de acordo com a Verdade, os sentimentos eram conseqüência da transmissão e propagação da própria humanidade. Mas depois de terem superado a crença nesse princípio superior a nova moral será capaz de condicionar os sentimentos pelos motivos mais variados com estratégias de propaganda. Isto é, criar nos outros por sugestão ou feitiço uma miragem que a racionalidade do criador já dissipou porque isso supostamente é bom para a comunidade.

e) O desejo criativo

Isso vem a confirmar as teorias de que o nazismo tinha em seu cerne um ideal artístico de embelezar o mundo. O apego sentimental dos vários líderes nazistas, e principalmente de Hitler, a certo conceito de pureza e beleza, levou a criação de uma política que buscava moldar a nação de acordo com preceitos estéticos. Isso advém de uma doutrina de que, se não há mais nenhum valor absoluto ao qual a vida e mesmo a política deva se embasar, a vida deve ser criada como uma obra de arte de modo a criar novas possibilidades e moldar aquilo que deverá ser o belo. Assim como a arte, o Estado possibilitava essa força criadora, o poder sobre a nação constituía o atributo necessário para que a vontade criasse simultaneamente as formas do Estado assim como se criam as formas artísticas. Para os nazistas, como na arte, na política poderia ser criado algo novo de modo a produzir o belo.
O nazismo queria criar um homem novo, um novo estilo de cultura que expressasse a excelência tanto física como artística do povo alemão. Para que isso pudesse se realizar era necessário estabelecer um poder quase absoluto sobre a população. Por isso a estética fascista nasce juntamente com uma preocupação com o controle e submissão. Elas endossam duas situações aparentemente opostas: egocentrismo exagerado e servidão. Essas relações de dominação e escravização tomam a forma de manipulação de grupos de pessoas, a transformação de pessoas em coisas e o agrupamento dessas coisas ao redor de uma força toda-poderosa e hipnótica, normalmente o líder. A estética fascista é baseada no refreamento das forças vitais da população e da restrição e repressão dos comportamentos individuais em benefício dos supostos desejos da comunidade, que, por fim, é representado numa única pessoa, o fuhrer.
Em suma, podemos pensar o nazismo como uma reação sentimental a infiltração racionalista na Alemanha do pós-guerra. Essa reação tomou por base os princípios biológicos que subordina os valores tradicionais ou racionais ao instinto de preservação biológica. Portanto a vida é toda uma constante luta pelo poder na qual sempre vence o mais forte. Na busca por esse poder e em decorrência da vontade de criar uma nação alemã baseada naquilo que seus sentimentos desejavam o nazismo criou, a partir dos sentimentos e valores existentes na tradição, novas possibilidades de ação política sobre o mundo. Essas criações conseguiram manipular a massa, o exército e, talvez, parte do próprio partido, com o objetivo de controlar de maneira cada vez mais absoluta e assim criar ainda maiores liberdades ao desejo criativo. Tendo por base essa reflexão teórica pretendemos mostrar como esses ideais foram aplicados na prática do partido até sua derrota em 1945.

O Nazismo na prática

a) A política de massas

Apesar de toda sua doutrina antidemocrática o nazismo considerou que poderia estabelecer uma autoridade muito maior se chegasse ao poder através das urnas com o apoio da massa. Com esse intuito os nazistas produziram dos mais diversos discursos e ações, principalmente emotivas, que conseguissem conquistar a população para seu próprio benefício. Tal situação era possível devido às recentes descobertas do subconsciente do pensamento humano e do irracional em suas ações, o avanço das teorias psicanalíticas ajudaram a minar a convicção liberal de que a política significava homens livres escolhendo o melhor para a nação.
Ao contrário do que pensavam os liberais as motivações das massas são determinadas muito mais pela emoção e sentimentos do que pelo raciocínio bem defendido. Logo Hitler percebeu que esses sentimentos possuem sempre um positivo e um negativo, amor ou ódio, certo ou errado, verdade ou mentira. Essa relação se dava de forma extremamente clara na sociedade de uma forma geral, o lado positivo era transmitido com nostalgia a todas as categorias ligadas a uma sociedade alemã anterior que estava se perdendo, logo, esse lado está extremamente relacionado aos princípios fundamentados na própria tradição. Por outro lado, o sentimento negativo estava vinculado a tudo o que era novo naquela sociedade, portanto relacionado as categorias que a maior infiltração da racionalização na sociedade alemã veio a trazer. Por isso, por mais supra-revolucionário que o nazismo possa ser, se ele deseja o apoio das massas, ele só pode se sustentar se retornar em defesa dos princípios mais arcaicos e tradicionais existentes no seio sentimental da sociedade. Isso fez do nazismo uma estranha combinação, pois, ao mesmo tempo em que era extremamente antiético manteve um discurso que soava um moralismo radical.
Os nazistas souberam se aproveitar das diversas angústias de Weimar em seu próprio benefício. Eles ressaltaram questões centrais que encontravam eco na estrutura de uma grande camada de indivíduos como o colapso da comunidade e o medo da desintegração social; o medo da decadência dos valores e costumes e o medo de inimigos. A essas preocupações a ideologia nazista respondeu com a crença cega em um chefe que iria conduzir a nação, a exaltação do povo alemão, o ódio contra as minorias raciais e acima de tudo eles prometiam reestabelecer muitos dos valores e das formas de relação tradicionais. Ou seja, o nazismo só foi aceito porque encontrava sólidas bases na emoção dos indivíduos e trabalhou no sentido de responder as expectativas dos indivíduos.
Por exemplo, a ideologia nazista valorizava a família camponesa apresentando-a como a proteção verdadeiramente alemã contra os males sociais que estavam afetando a nação, nesse sentido como aqueles que preservavam o verdadeiro sentimento alemão. Segundo os nazistas eles eram verdadeiramente apegados a raça, possuíam o caráter tradicional e comunitário que deveria ser recuperado e ainda guardavam a moral que estava se perdendo. A mulher camponesa está próxima a terra e dos ancestrais, foi valorizada em sua posição tradicional na sociedade como a mãe guardiã da vida familiar e da raça ariana. O homem possuía autoridade em relação a sua família mantendo as necessárias relações sociais hierárquicas que estavam se perdendo no período. O nazismo além de valorizar essa autoridade familiar ainda propunha uma autoridade suprema no topo da hierarquia que condizia mais com o sentimento da população do campo do que a fragmentação de interesses e objetivos representados pela república. Ao ressaltar o campo e a estrutura familiar a mensagem do nazismo é clara para a população no sentido de trabalhar para restaurar a ordem que estava se perdendo.

b) Cerimônias políticas

Para expressar seus ideais a massa o partido organizou paradas políticas que foram repetidas incessantemente pelos mais diversos lugares da Alemanha, sempre, com a mesma estrutura básica. Nesses eventos o nazismo soube se aproveitar extremamente bem da situação emocional da população. Segundo interpretações psicológicas[8] durante a república de Weimar as pessoas viviam muitas ansiedades decorrentes das mudanças sociais, entre elas o medo do isolamento enquanto a sociedade parecia se fragmentar. Esses sentimentos facilitaram a adesão ao nazismo devido o forte caráter emocional nos comícios de massa. Em sua condição debilitada e diante da sociedade desestruturada o individuo aceita sua insignificância pessoal e facilmente deixa dissolver-se em um poder que se revele superior. Naquela unidade de sentimentos facilmente o indivíduo era sucumbido pelo desejo de pertencer aquele todo e deixar-se levar pela sugestão em massa daquele espírito comum. O próprio Hitler atribuía grande importância psicológica a tais eventos, pois reforçavam o ânimo militante do nazismo, o individuo perdia o medo de estar só diante da força da imagem de uma comunidade maior, que transmitia gratificantes sensações de encorajamento.
A chave da organização dos grandes espetáculos era converter a própria multidão em peça essencial dessa mesma organização como se à vontade a qual os nazistas defendiam emanasse de todo o povo alemão e não de um partido de coalização. Tudo era feito para que essa massa se emocionasse de maneira contagiante, participando ativamente da produção de uma energia que carregava consigo após os espetáculos. Cada acontecimento era preparado minuciosamente pelo próprio Hitler, a entrada em cena, a marcha dos grupos, os lugares dos convidados de honra, a decoração geral, flores, bandeiras, tudo era previsto. Aos poucos, a forma foi sendo definida, e os acontecimentos ganharam o sentido de um ritual religioso que se manteve imutável em sua forma.
O uso dos uniformes entre os militantes servia à dissimulação das diferenças sociais e projetava a imagem de uma comunidade coesa e solidária. Os emblemas de águia e cruz gamada funcionavam como marcas de identificação. O símbolo da suástica de conhecida ancestralidade foi escolhido porque sugeria a energia, a luz, o caminho da perfeição. As músicas cantadas pela multidão ampliavam consideravelmente o entusiasmo de todos, a multidão era assim tomada pelo sentimento de formar um todo único, um bloco coeso e inquebrantável. Durante toda a cerimônia as massas expressam uma alegria histérica de viver aquele momento.
Particularmente importante era o momento em que Hitler tomava a palavra. O Fuhrer aparece como a personificação da nação encarnando o sentimento nacional, ele é o guia condutor da fé e aquele que traz a esperança, é o grande arquiteto da comunhão nacional. Sua personalidade assume traços de pura idolatria. No extremo possuía atributos de um deus cuja vontade importava mais do que qualquer doutrina. Forjando a vontade coletiva o líder leva o povo a obedecê-lo cegamente sem em nada questioná-lo. Esse status único e místico colocado sobre o líder com base na idéia de que nele converge o destino da nação alemã dá-lhe uma autoridade externa a qualquer estrutura formal e qualquer racionalidade. É essa característica irracional e mítica que possibilita a satisfação do desejo criativo do líder sobre a população.
O Fuhrer aparecia como o ponto central de todo o movimento, posto acima de todos e inatingível. Num cenário de multidão e ordem Hitler, teatralizando todos os movimentos jogava habilmente com os ressentimentos e medos dos alemães comuns com discursos cuidadosamente talhados e apaixonados. Em seu discurso, primeiro apresentava a decadente situação e um ódio violento aos inimigos que supostamente estavam agredindo e prejudicando a raça alemã, acima de tudo os comunistas e judeus. De um salto, falava da grandeza e da glória do movimento como a única esperança para a raça, de repente pareciam que todas as diferenças desapareciam em benefício de um bem superior mitificado, a glória da nação alemã. Apesar da debilitada argumentação do discurso o que importava era o zelo dos fiéis e não a concordância intelectual.

c) A propaganda

A degradação ética do nazismo se torna ainda mais clara por suas práticas de propaganda. Como Hitler deixou claro em Mein Kempf a propaganda nazista tinha o intuído de levar o povo à vontade. Para ele a propaganda de deveria ser popular, dirigida as massas e desenvolvida de modo a levar em conta um nível de compreensão dos mais baixos. Deveria restringir-se a poucos pontos, repetidos incessantemente. O essencial era atingir o coração das massas, compreender seu mundo maniqueísta e representar seus sentimentos. Tudo era feito de modo que todas as almas trabalhassem em benefício dos nazistas. O nazismo não desejava conquistar somente a mente, mas principalmente o coração do povo e mantê-lo dependente junto a si. Só o que conta aqui é o desejo dos nazistas por conquistas e dominação.
Conforme o nazismo foi aumentando seu poder a propaganda foi investida de tal condição que ela não se contentava apenas em mentir e sugerir alternativas para a realidade, mas parece querer criar a própria realidade, ou seja, a propaganda não se contenta em distorcer os eventos, mas mostra outra versão que é de tal modo configurado que não se assemelha a realidade concreta. Agindo cruelmente, os nazistas apoderaram-se dos componentes da realidade para encenar a pseudo-realidade de um sistema ilusório. Assim, um mundo moldado pela arte da propaganda se torna como a massa de modelar. Somente um poder niilista que desprezava todos os valores humanos tradicionais podia manipular de modo tão imperturbável os corpos e as almas de todo um povo para esconder seu próprio niilismo. O triunfo do nazismo é o triunfo de um desejo criador do niilismo.
No nazismo todas as artes foram usadas com a finalidade da propaganda em benefício do partido. A arquitetura deveria expressar a grandeza do regime e de uma raça. No entanto a arquitetura não viria apenas a expressar a unidade e o poder alcançados pela nação; ela podia criá-los. As grandes construções despertariam a consciência nacional, reforçariam a unidade política, incrementariam o orgulho de ser alemão e ainda projetariam idéias de seus realizadores no pensamento das outras nações. Para tanto a arquitetura que Hitler imaginava deveria ser megalomaníaca. Para Berlim, que deveria vir a ser a capital do Império deveria ter construções monumentais que superariam em muito todas as construções até então.
A arte aceita e difundida por Hitler era baseada na greco-romana, desejava-se traçar uma linha de continuidade da Alemanha com esse passado clássico e suas formas. Hitler tinha uma profunda admiração por aquelas civilizações e desejava que seu governo fosse visto como continuador daquele passado. O fuhrer da Alemanha construiu esculturas semelhantes às gregas com a única diferença que tinham proporções muito maiores. Nelas destacam-se a forma física perfeita, os músculos bem definidos que acabam por evocar uma imagem de beleza e perfeição. A pintura mantinha a mesma estética, os quadros nazistas também se baseavam nas formas humanas perfeitas, muitas vezes com paisagens bucólicas e cenas familiares. A mulher é mãe e seu lugar é o lar, já o homem é viril e guerreiro; também são comuns pinturas de paisagens e da vida rural, numa visão mítica da maior pureza da natureza e do homem do campo.
Anualmente Hitler promovia exposições dessa forma de arte, e se esforçava em adquirir muitos dos quadros. Mas havia também exposições da arte concebida como degenerada. Essas obras, normalmente de vanguardas artísticas modernas, partilhavam obviamente de outro ideal artístico e estético, mas eram interpretadas pelo nazismo como uma arte tipicamente judia que carregava em si o vírus da decadência e da depravação cultural e intelectual. A partir de 1931 são feitas também exposições que fazem comparações entre essas obras de arte moderna e fotos de pessoas com problemas físicos e mentais como forma de associar a degeneração humana com depravação artística.
Mas o cinema foi a forma de arte mais explorada pelo regime. A sua maneira, cada filme, expressava os valores do regime. Muitos deles estavam diretamente relacionados ao heroísmo, ao espírito alemão e ao patriotismo, outros são mais diretos, falando da militância partidária. O cinema nazista não só propôs uma nova modalidade de filme de propaganda, mas também alcançou um nível invejável de realização estética. Para analisar mais detalhadamente suas técnicas vamos nos deter no clássico: O triunfo da vontade[9], de Leni Riefenstahl.
Filmado durante o Congresso do Partido em Nuremberg em 1934 o filme ilustra a capacidade nazista de transformar e absorver a realidade por meio de uma estrutura artificial. Os nazistas prepararam meticulosamente o terreno: grandiosos arranjos arquitetônicos foram construídos para acompanhar os movimentos de massa e, sob a supervisão de Hitler, planos precisos de marchas e paradas foram projetados e ensaiados bem antes do evento. Dessa forma o congresso podia evoluir num espaço e num tempo próprio. Durante todo o congresso uma quantidade enorme de pessoas já predispostas a sugestão foram transportadas por um movimento contínuo, e bem organizado, que só poderia dominá-las. O filme foi formulado para ser um autêntico documentário de uma realidade forjada. O Triunfo da Vontade representa uma já alcançada e radical transformação da realidade: a história torna-se teatro. Acima de todos e como uma espécie de maestro encontra-se o Fuhrer que, feliz, conduz as massas para onde desejar. Enfim, depois de todos os valores terem sidos deixados de lado resta apenas a exaltação de um indivíduo biológico que unicamente pela vontade pessoal triunfa absoluto sobre os demais.

d) Rumo ao totalitarismo

Com o apoio das massas Hitler atraiu um amplo eleitorado e colocou os conservadores em uma difícil situação. Para que pudessem se opor a esquerda comunista com maioria parlamentar era necessário uma aliança com os fascistas. Os conservadores sempre desprezaram os nazistas como brutos grosseiros, trazê-los para dentro do governo foi um ato de desespero diante de uma ameaça “maior”, o comunismo. A dificuldade de o estado liberal em dar soluções satisfatórias ao momento de crise econômica devido o crash na bolsa abriu a brecha para alternativas de poder, o fascismo soube se aproveitar disso e assumiu o governo em 1932. Logo no ano seguinte Hitler aumentou seu poder e estabeleceu uma ditadura de partido único. Desde então o poder nazista não parou de crescer, aos poucos todas as máscaras que a propaganda foi capaz de criar foram caindo e o nazismo revelou a todos sua face terrível.
O partido nazista caminhou em direção ao controle total e radical com uma polícia terrorista, e o monopólio de poder sobre os meios de comunicação, sobre as forças armadas, sobre a organização econômica e grande parte da educação. Rapidamente muitas das organizações públicas passaram ao controle do Estado totalitário que buscava moldar seus cidadãos segundo lhes convinham na sua busca de criar um novo homem e uma nova mulher. Dessa forma, começou uma nova relação do Estado com os indivíduos visando a subordinação total do individuo a comunidade. O Estado nazista corporificava o destino nacional onde os direitos individuais não tinham mais qualquer existência autônoma. Nessa situação não havia espaço para livre-pensadores ou subcomunidades independentes. Qualquer processo legal e igualitário desapareceu dando lugar a um regime que podia de forma irrestrita, prender, despojar e matar aqueles que desejassem.
Após o inicio da guerra o governo o nazismo assumiu o controle total. A invasão ao leste ofereceu uma liberdade de ação quase ilimitada ao partido e as suas instituições paralelas, livres das poucas restrições que ainda provinham da estrutura de estado tradicional. Na “terra de ninguém” os radicais sentiram-se a vontade para realizar suas maiores fantasias de super-poderes. Além disso, a guerra possibilitou uma situação de caos e fragmentação necessários para um poder mais irrestrito, nesse caso uma minoria fanática pôde se ver livre para expressar um furor e colocar em prática seus desejos mais instintivos. Nos lugares conquistados tanto a normalidade burocrática quanto os princípios morais eram fáceis de serem deixados de lado e as necessidades da raça superior convertiam-se no único critério para a ação.
O holocausto dos judeus deve ser pensado como a expressão radical e até as últimas conseqüências de profundos sentimentos de ódio que se viu livre para a atuação sem uma ética básica acerca de qualquer ética de nível superior a simples existência e qualquer instituição capaz de preservar alguma moral que pudesse fazer frente aos instintos. O nazismo trabalhou nos dois sentidos, interiormente destituiu os indivíduos dos valores a partir dos quais suas consciências poderiam impedi-los de agir livremente, e exteriormente se levantou contra as instituições que defendiam tais valores prometendo que o poder estabelecido não condenaria seus abusos.
Tamanha liberdade de ação possibilita-nos uma brecha para outra possível interpretação. É possível considerar que nem todos os partidários do fascismo sempre acreditaram na teoria de pureza biológica da nação. Ainda que acreditassem que o valor biológico é o único a ser seguido, em detrimento de qualquer outro valor, isso em nada implica o dever de defesa de uma comunidade de indivíduos que supostamente fazem parte de um mesmo grupo. Esse suposto dever instintivo para com a espécie não é algo que está tão naturalmente dado como o instinto de preservar a si mesmo em detrimento dos demais. Como esses indivíduos podem ter um dever para com a raça se o próprio conceito de dever para com qualquer coisa foi excluído? E como posso afirmar defender a raça é bom ou mau se a própria noção de bem caiu? Como mostramos, se há um desejo de proteger a raça, isso está muito mais ligado a um sentimento enraizado na tradição do que a um impulso. E é exatamente por isso que esse suposto “instinto” teve de ser fabricado pela propaganda.
É então possível considerar todas as idéias de dever, mesmo para com a espécie como simples e úteis métodos de sobrevivência, deixar mesmo isso de lado e decidir aleatoriamente o que se deseja que o homem seja e fazer isso não porque algum valor de qualquer espécie conduza a tal situação, mas simplesmente pelo impulso do individuo, o subjetivismo total ordenando o mundo como se fosse deus pelo uso da força. Aqueles que estiverem nessa condição com poder suficiente poderão escolher que tipo artificial de valor poderão impor a sua sociedade ou a humanidade. Quando todas as noções que dizem “isso é bom” são desmoralizadas, permanece a que diz “eu quero”.
Não penso que estaríamos exagerando se considerássemos toda a doutrina biológica nazista como um instrumento de propaganda e não de crença real, para submissão coletiva a vontade individual e instintiva de uns poucos indivíduos. Talvez isso dificilmente se possa provar, contudo, é bastante claro que em determinado momento, principalmente para a liderança nazista pouco importava a raça e a nação, e sim a subordinação dos demais a vontade própria; a Alemanha pouco importava, e sim a possibilidade da pratica da vontade instintiva de poder e dominação. Tal característica se torna mais descoberta ao final da guerra quando uma minoria obcecada é capaz de levar a cabo, de forma mais implacável, seus ódios mais passionais, extrapolando-os aos limites últimos da experiência humana. Por fim a radicalização acaba por negar a própria nação e os fanáticos preferem ter de destruir tudo a admitir a derrota. O poder acaba se voltando contra a própria população alemã, como o próprio Hitler quando em ocasião da aproximação das tropas aliadas desejou levar junto com sua própria destruição toda a nação alemã.

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[1] LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
[2] Para nós, ética significa aquilo que é estimado bom ou nobre, enquanto que moral se impõe como uma obrigação.
[3] Foram várias as tentativas de substituir a fonte dos preceitos absolutos (de onde provinha autoridade). A principal foi a lei natural, mas houve quem buscasse na realidade empirica e na própria racionalidade humana.
[4] ARENDT, H. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1989.
[5] GAY, Peter. A Cultura de Weimar. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
[6] Idem
[7] PARSONS, Talcott. “Alguns aspectos sociológicos dos movimentos fascistas” In: RODRIGUES, A. E. M. Fascismo. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974.
[8] REICH, Wilhen. “A ideologia autoritária da família na psicologia de massas do fascismo” In: Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
[9]RIEFENSTAHL, Leni. O Triunfo da Vontade, 1936.

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BIBLIOGRAFIA

ARENDT, H. “Prefácio”; “O declínio do Estado-Nação e o fim dos direitos do homem” In: As Origens do Totalitarismo. SP, Cia das Letras, 1989.
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GAY, Peter. “O Trauma do nascimento”; “A Comunidade da razão”; “A Ânsia pela Totalidade”; “A Revolta do Filho” IN: A Cultura de Weimar. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
HITLER, Adolf. Minha Luta. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/4754705/Adolf-Hitler-minha-luta
KRACAUER, Siegfried. “Propaganda e o Filme de Guerra Nazista” In: De Caligari a Hitler – Uma História Psicológica do Cinema Alemão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
LENHARO, Alcir. Nazismo: “O Triunfo da Vontade”, São Paulo: Editora Ática, 1994.
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PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
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RICHARD, Lionel. “A República de Weimar e seu nascimento difícil”; “Associações para Todos” IN: A República de Weimar. São Paulo, Cia das Letras, 1988.
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SONTAG, Susan. “Fascinante Fascismo” In: Sob o signo de saturno. Porto Alegre: LP&M, 1986

FILMES

COHEN, Peter. Arquitetura da Destruição, 1996.
RIEFENSTAHL, Leni. O Triunfo da Vontade, 1936
BERGMAN, Ingman. O Ovo da Serpente, 1976.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Aqui embaixo é Jesus me abraçando!


Aqui em cima é Jesus me abraçando! :)
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Nesse mundo tenho visto muita tristeza.
Existe muita gente sofrendo com a degradação física desse corpo mortal. Muitos outros sofrendo por causa do sofrimento.
Existe os que sofrem com a violência e aqueles perdidos que praticam a violência.
Existem governantes corruptos e exploradores que aida se acham os vencedores.
Existe o povo anônimo andando sem direção e sem opção.
Existem os intelectuais que acham que estão acima de tudo, quando são, de todos, os mais ocos por dentro.
Existe gente correndo atráz de um monte de prazeres só pra se satistazer neles, eles ainda não aprenderem o que é alegria.
E existe eu que, perdido nessa confusão, nem sei o que fazer.
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Mas ali em cima é Jesus me abraçando! (rs, veja como Ele me abraça).
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E existe a Igreja!
Ah! a igreja...
Existem pastores que roubam o dinheiro do povo em vez de servir!!
Existem divisões e facções que nos tornam uma multiplicidade de seitas, sem nenhum vínculo de corpo!!
Existe muito orgulho e falsidade, mentiras e ressentimentos!!
Existêm templos enormes e bonitos e corações vazios e aprisionados!!
Existem muitas Leis, Regras, Moralismos mas nada de simples amor pelas pessoas!
E existe eu que desejo lutar apaixonadamente contra todas essas coisas mas, muitas vezes, me vejo envolvido a todas elas.
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Mas mesmo assim, ali em cima é Jesus me abraçando! (Olha lá! vê como Ele me abraça gostoso)
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Aaaa! Eu...,
o problema na verdade é esse: eu, eu, eu e eu!
Têm muito eu nisso tudo! Como posso querer mudar a igreja e o mundo se ainda existe tanto eu?
Existe em mim muita falsidade, mentira, hipocresia, inveja, orgulho.
E eu tenho muita dificuldade de me livrar de mim mesmo! Parece que nunca vou conseguir.
Vocês nem sabem, eu sou capaz de pecar, olhar novamente pra Jesus e depois pecar em cima do meu pecado.
Tantas vezes sou falso e busco apenas meus próprios interesses, e enquanto isso a igreja, os ricos, os pobres, os ladrões, os pecadores, os enfermos, os políticos, TODOS, passam ao meu lado e não sou capaz de esterder a mão porque pra mim o que é mais importante naquele momento, e em quase todos os momentos, é eu mesmo.
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Mas de uma coisa sei: ali em cima é Jesus me abraçando. (Mais uma vez vai, olha Ele me abraçando, rs)