sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

As Crônicas de Nárnia e a Alegria



Existe bastante discussão nos dias de hoje em torno das Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Alguns tomam a obra como uma espécie de parábola do cristianismo; outros consideram que as crônicas são apenas uma leitura interessante e envolvente; e há até aqueles que entendem que C. S. Lewis desejou defender idéias conservadoras e preconceituosas. Todavia, poucas pessoas tem procurado descobrir o que o próprio autor disse acerca de sua produção. Segundo o próprio Lewis ele não escreveu contos de fada para dar aos leitores o que eles queriam ou o que eles precisariam ouvir, mas sim por ser a melhor forma artística de expressar aquilo que ele desejava dizer. Questões secundárias como a moralidade surgem naturalmente das raízes espirituais que o autor conseguiu lançar no decurso de sua vida. Aliás, segundo Lewis, tudo da história deve brotar da própria vida do autor e não de intenções secundárias para com seus leitores.

A questão central que Lewis desejava expressar quando começou a escrever suas histórias narnianas esta intimamente relacionada a sua experiência de vida pessoal. Lewis acreditava que foram os contos de fada que permitiram-lhe libertar-se dos traumas da acentuada religiosidade. Em sua infância, logo após a morte de sua mãe Lewis foi enviado a um internato na Inglaterra onde começou a freqüentar uma igreja e praticar devocionais diários no intuito de exercitar a fé. Segundo ele pensava na época um devocional consistia em produzir por um grande esforço pessoal de atenção e zelo na oração um estado mental correto que fosse satisfatório diante de Deus e conseqüência produzisse certa satisfação emocional. Mas logo Lewis percebeu que suas preces nunca eram suficientemente boas uma vez que ele sempre alimentava duvidas sobre ter orado com a seriedade suficiente. Sempre que orava ele ficava se perguntando se as palavras ditas haviam sido expressas com o devido zelo e se sua reação emocional havia sido satisfatória. Isso acabou tornando o simples objetivo de falar com Deus um fardo quase insuportável de carregar. Lewis levava tão a sério seu compromisso religioso que acabou passando longas horas todas as noites se esforçando em ser perfeito em sua devoção enquanto vozes soavam em seu ouvido acusando-o de sua falta de sentimentos em relação a Deus e a Cristo. Podemos dizer que a própria reverencia o prejudicou aprisionando-o num complexo de culpa e fracasso. E assim, o grande fardo que a religião se tornou para ele, combinado com um pessimismo em relação ao mundo e a existência devido a morte de sua mãe, levou Lewis a se afastar da crença indo em direção a experiências que pudessem aliviar aquele peso. E foi desse modo que Lewis se tornou ateu.

Lewis viveu de forma intensa nesse período, não o cristianismo, mas a religiosidade que está presente no espírito humano. Ficamos tentando encontrar a Deus com nosso próprio esforço, com nossa moralidade, com nossas obras. Tentamos produzir o ritual correto para atrair o divino e esperamos a recompensa merecida. Religiosidade é tudo o que fazemos para alcançar a Deus e assim termos o que desejamos. Os povos pagãos fazem sacrifícios e dançam perante seus ídolos para terem boas colheitas. Muitos evangélicos hoje fazem sacrifícios de seus salários e encenam adoração perante seus apóstolos para serem prósperos. Sempre falhamos nisso, voltamos ao mesmo erro. E dessa situação contraditória e decepcionante, ou a pessoa se torna hipócrita, fingindo viver o que não existe, ou é sincero o suficiente para se afastar dessa falsidade. Assim como Lewis, muitos se toram ateus por não suportarem o peso da mentira religiosa.

C. S. Lewis só veio a reencontrar a espiritualidade nos momentos em que vivenciou certas situações que mais tarde denominou de Alegria. Na realidade a experiência com a alegria guiou toda a vida do autor, conforme ele mesmo escreve em sua autobiografia: Surpreendido pela Alegria. A Alegria começou quando ainda era bem novo e seu irmão Warren lhe mostrou uma espécie de terrário. E continuou por toda sua vida em momentos mais diversos como na recordação de certas situações marcantes, ao ouvir música wagneriana, quando via as belas paisagens da Irlanda... mas principalmente por meio da literatura, como a leitura de livros de mitologia e de contos de fadas.

C. S. Lewis denomina Alegria experiências que duram poucos instantes mas que são de extrema felicidade. Isso porque esses momentos parecem apresentar uma realidade muito além daquela que vivenciamos em nosso cotidiano. É como a saudade por um paraíso perdido, embora o próprio sentimento seja, de certa forma, um paraíso. Mas esse sentimento se dissipa logo deixando apenas um anseio no fundo da alma por algo mais. Por isso a Alegria nunca pode ser possuída: ela não é a felicidade em si mas como que um rastro de algo maior e mais grandioso. É um desejo, um desejo fortemente desejável, que nos lembra da existência de algo mais vivo e profundo que nossa vida material. Depois de muito vivenciar tais situações Lewis concluiu que, a medida que temos existência temos também raízes em um Absoluto, que é a realidade ultima. É por esse fato que sentimos a Alegria, ansiamos por aquela unidade que não podemos atingir. Assim, os momentos de Alegria não são mera fantasia, mas sim situações de extrema consciência: são nesses momentos que percebemos o quanto nossa realidade fragmentaria e ilusória diante desse algo muito maior que se apresenta diante de nós. E, sabendo disso, ansiamos por aquela união impossível. É aqui que a Alegria que Lewis sentia coincidiu com o cristianismo (o cristianismo real e não a religiosidade cristã). Se, conforme ensina a doutrina cristã, todos os seres humanos são exilados do paraíso, então nada mais natural do que sentirmos saudade. Mas essa saudade é alegre pois aponta para realidades genuínas que um dia poderemos encontrar. (céu)

Muitas pessoas dizem que o cristianismo não é religião. Isso porque em todas as religiões é apresentado o homem tentando se aproximar do divino: é nós que temos que nos esforçar para encontrar o divino. O cristianismo contradiz a concepção religiosa quando destrói a idéia da possibilidade do homem alcançar o divino por meio de seus feitos. Na realidade o cristianismo apresenta a idéia absurda de um Deus perfeito que vem ao encontro do homem: isso na pessoa de Jesus Cristo, mas também a nível pessoal, a cada um de nós. O próprio Lewis disse certa vez que a principal diferença do cristianismo em relação a outras religiões é a Graça. Não há nada que possamos fazer para que Ele nos aceite, somos pobres miseráveis desorientados e incapazes. Mas então o inesperado acontece: o próprio Deus vem até nós, se revela a nós, nos diz que nos aceita e nos ama da forma que somos, nos toma no colo e promete nos carregar para longe desse mundo desastroso.

A Alegria se apresentou a Lewis como Graça. Era algo externo que vinha pessoalmente até ele nos momentos mais diversos com os sentimentos que ele desejava ter encontrado na religião, mas sem a cobrança e o fardo das praticas devocionais. Mas com o passar dos anos Lewis começou a buscar o sentimento de Alegria pelo próprio sentimento. E percebeu que quanto mais se esforçava para obtê-lo menos alegria sentia. Aqui Lewis revela que falhou ao tentar produzir pelo esforço próprio o estado mental que possibilitasse a vivencia da Alegria. Ou seja, o mesmo erro que cometeu em relação a vida religiosa Lewis também o fez em relação a alegria: tentou se concentrar em produzir uma situação favorável para que a Alegria pudesse atingi-lo e esqueceu de simplesmente viver o momento na forma como ele se apresentava. Enquanto estamos preocupados com o efeito não vivemos o processo. A Alegria, Lewis constatou, não era resultado de uma prática de diligencia interior, mas algo que vinha de fora de si mesmo e o atingia. E isso acontecia nos momentos em que estava imerso e vivenciando determinadas situações do momento presente aonde não havia espaço para preocupações egocêntricas, como o próprio desejo pela Alegria. A insistência em buscar a alegria ou o próprio aprimoramento espiritual ira falhar se o foco da busca estiver em outra coisa que não o objeto de contemplação. A verdadeira vida espiritual floresce quando o foco está em Deus, pelo que Ele é em si e não em nossa satisfação pessoal; a alegria surge quando deixa de ser o ídolo almejado e a mente esta totalmente imersa em determinada situação. Enfim, para Lewis todas as nossas ações estão erradas enquanto o foco estiver em nós e não no objeto ao qual nos dedicamos naquele momento. Mas se colocarmos as coisas certas em primeiro lugar teremos todas as outras como graça.

A Alegria que Lewis sentiu quando lia contos de fada fez com que ele vivenciasse a espiritualidade em sua potência real, sem que para isso fosse necessário o fardo da religiosidade. Isso porque, segundo Lewis, essas histórias possuem o que ele mais tarde veio a denominar de qualidade mítica: histórias de caráter simples que nos satisfazem plenamente em sua inevitabilidade. Eles atuam sobre nós por seu aroma e qualidade, e sentimos que o padrão de seus movimentos possuem uma profunda relevância para nossas próprias vidas, transmitindo a nós um temor respeitoso. Para Lewis isso indica a presença do poder divino que pretende comunicar algo do maior alcance.

Assim como J. R. R. Tolkien Lewis acreditava que os mitos são repositórios de verdades ultra-racionais, que embora sejam parciais e distorcidos, falam acerca de realidades concretas que estão fora do alcance da indagação lógica. Existe uma incapacidade da razão humana de entender e uma limitação da linguagem cotidiana para explicar planos mais profundos da existência, como as vivencias espirituais ou mesmo sentimentais. É por isso que usamos de recursos abstratos para compreender essas realidades. A metáfora ao aproximar elementos que estão distantes consegue configurar novos significados simbólicos para compreender o mundo e a existência humana. Para expressar sentimentos ou visões de mundo espirituais usamos as expressões metafóricas, a linguagem poética ou parábolas. Para Lewis as mitologias fariam a mesma coisa no plano de uma história.

Segundo ele o mundo simbólico dos mitos e dos contos de fada, mesmo não sendo verdadeiro no sentido de ser realista, aponta para uma direção solidamente real, isso porque eles são constituídos de uma realidade espiritual mais profunda a partir da qual as próprias verdades fluem. Quando vivenciamos um grande mito chegamos o mais próximo possível de experimentar como concreto aquilo que somente pode ser entendido abstratamente. Mas só podemos vivenciar um mito dessa forma quando nos deixamos levar pela sua história, em outras palavras, quando de fato entramos naquele mundo que nos é sugerido. É apenas quando recebemos os mitos como uma história que podemos experimentar esse princípio concretamente, quando tentamos traduzi-lo ou interpretá-lo estamos novamente racionalizando.

Para Lewis e Tolkien a vida, a morte e a ressurreição de Cristo seriam a realização objetiva na realidade concreta da existência humana dos motivos centrais encontrados em todas as mitologias do mundo. Assim, por exemplo, os mitos universais do deus que morre e renasce mostram a consciência inata da redenção. A encarnação de Jesus Cristo era o ponto principal em que o mito – com todas as categorias que ele articula – se tornava fato, quando os eventos que só podiam ser capturados na imaginação mitológica ocorreram realmente na história humana. Todavia, para eles, mesmo que a encarnação de Cristo seja um fato, ele não precisa deixar a qualidade mítica em sua caracterização e significação, pois mesmo o Cristo encarnado contém elementos que não podem ser de todo apreendidos por nossa compreensão puramente racional da realidade.

Muitos bons romances conseguem recuperar essa qualidade mítica e assim fazer seus leitores recordarem de algo que já não é possível situar muito bem, ou que se perdeu por se tornar banal em nosso cotidiano. Conforme afirma o próprio Lewis:

“O valor do mito é que ele recolhe todas as informações que conhecemos e restaura-lhes o rico significado que tem sido ocultado pelo véu da familiaridade. A criança aprecia comer sua carne fria fingindo que ela é um búfalo que acabou de abater com seu próprio arco e flecha. E a criança é inteligente. A carne verdadeira retorna para ela mais saborosa por ter sido imersa numa história; você pode dizer que somente então ela é a carne verdadeira... Ao colocarmos pão, ouro, cavalo, maça ou as próprias estradas em um mito, não nos afastamos da realidade, nós a redescobrimos”

Se bem usados pelo autor e encontrando o leitor certo o conto de fadas tem o poder de apresentar a impalpável forma, não conceitos ou experiências singulares, mas todos os tipos de experiências. Dessa forma uma boa narrativa possui a capacidade de transmitir a própria Alegria e as reações a ela correspondentes e dessa forma descartar irrelevâncias religiosas que destroem a capacidade de uma pessoa de perceber a realidade como deveria. Mas no seu melhor pode ainda fazer mais, pode nos dar experiências que nós nunca tivemos e assim, ao invés de simplesmente comentar sobre a vida pode adicionar a ela. Assim, podemos dizer que ao escrever As Crônicas de Nárnia Lewis pretendia transmitir possibilidades de mundo e da existência que estão além da nossa percepção lógica imediata, ampliando e resignificando nossa concepção limitada do que é o mundo e a existência.

6 comentários:

Vanessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanessa disse...

Muuuito bom, Silas =D

Vc tem muita graça de Deus para falar a respeito de coisas tão profundas...

Abraços!!!

Patricia Kler disse...

Vc é Fantastico na Escrita!!!

Que sensibilidade...Parabenss Silas xD

Se Cuida.=]

Minecrafter disse...

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Anônimo disse...

que lindo!!!

Anônimo disse...

Sensacional texto, parabéns Silas!