"A Besta... foi concedido também poder para guerrear contra os santos e vencê-los" Ap. 13: 7
Agora parecia não haver mais retorno. O sol escaldante ia deixando novamente sua fúria ao abaixar no horizonte do novo deserto brasileiro. De seu lugar, na jaula 412 A, Moacir estava a observar as sombras alongadas das máquinas que se dirigiam ao Centro de Controle Humano do subdistrito mundial de Manaus. Os des-humanos estavam satisfeitos, foi mais uma caçada bem sucedida e provavelmente uma das últimas incursões pelas remotas zonas de florestais que ainda resistiam ao estabelecimento da Nova Ordem Mundial (NOM). O pânico dos rebeldes era evidente, mas Moacir, o grande líder dos revoltosos, ainda conseguia manter certa serenidade no olhar que expressavam uma confiança que contrariava a situação. Nos últimos cinco anos o grupo de resistentes havia reduzido drasticamente devido as incursões dos grupos armados da NOM para capturar os humanos. Ninguém sabia ao certo o que acontecia aos opositores do regime pois só aqueles que negavam sua humanidade sobreviviam, todavia estes passavam então a perseguir os humanos que ainda restavam.
Aos que aderiam a Ordem foram implantados os aparelhos de auto-gestão des-humana que repeliam todas as categorias herdadas da "tradição", entre elas os valores éticos objetivos que teoricamente impediam a liberdade de ação dos seres frente ao mundo. A Nova Ordem havia finalmente descartado na prática da própria organização da sociedade a lógica segundo a qual qualquer preceito poderia ser verdadeiro ou falso, e qualquer ação julgada como correta ou errada. Não viam razão para pensar o mundo nesses termos, a própria sociedade com seu avanço tinha provado que nunca houve um Deus, e muito menos uma Lei divina sobre a Terra, também aquelas idéias de Lei Natural provaram-se falsas, e a própria Razão, agora, não era senão uma organização de átomos no cérebro que não poderia produzir qualquer coerência para além da subjetividade. Nos últimos anos pensava-se que era necessário manter alguma ética herdada da tradição para o bom convívio social, todavia a deflagração da terceira guerra e a catástrofe mundial eram provas de que esses atributos não foram úteis para evitar o caos. E ele, o caos, de forma onipotente parecia se impor sobre tudo e todos, parecia inútil lutar contra ele dizendo que ainda poderia haver alguma lógica no universo.
Agora restava apenas a desordem vazia de sentido e, sobre ela, o potencial criativo dos des-humanos de criar novos sentidos para o mundo. Finalmente a existência poderia ser ressignificada sobre atributos inteiramente novos. Mas como toda a ética estava descartada não havia o mínimo interesse de que esses novos valores produzissem alguma forma de "bem" social. Ao contrário eles eram criados simplesmente segundo o interesse de cada um em satisfazer suas próprias necessidades biológicas em termos de prazer e poder. Um dos primeiros dês-humanos, Reik Boriedge, planejou então a NOM, organização que deveria agregar os interessados em lutar contra todos aqueles que, após a guerra, propusessem um retorno aos velhos e antigos valores da humanidade. De inicio muitos dês-humanos rejeitaram a NOM pois odiavam qualquer tipo de organização coletiva que impusesse, nem que fosse minimamente, algum tipo de regra, mas, aos poucos os indivíduos perceberam que aderindo a NOM eles poderiam satisfazer suas necessidades pessoais perseguindo os defensores da antiga ordem. Se fossem bons subordinados poderiam crescer dentro da organização e posteriormente adquirir altos cargos de onde poderiam dominar os demais. Se fossem bons o suficiente, no sentido de serem bons traidores uns dos outros, poderiam atingir o cargo máximo da organização, a quem todos deveriam servir e não estariam mais subordinados a ninguém.
De repente o comboio parou e uma descarga elétrica percorreu todas as jaulas dos presidiários. Nus e indefesos os rebeldes tentavam saltar dos ferros nas jaulas. Parecia que passariam a noite ali, ainda estavam a alguns quilômetros do Centro e, como todos sabiam, seria impossível atravessar o denso e amarelado remanescente do rio Amazonas na escuridão da noite. Muitos dês-humanos consideravam totalmente desnecessária a tentativa de reabilitação dos indivíduos de seu estado humano pois, apesar das técnicas de repressão aos "elementos conservadores" estarem extremamente aprimoradas, eram poucos os indivíduos que conseguiam se livrar de sua humanidade, a maioria resistia até a morte. E mesmo a esses que conseguiam não seriam senão mais indivíduos com quem, mais cedo ou mais tarde, teriam de lutar contra para garantir a própria sobrevivência no grupo. Mas isso era outra questão, nesse momento os des-humanos estavam mais interessados em se divertir com os presidiários aplicando-lhes sofrimento físico e confusão psicológica.
Um distinto jovem de roupas negras e com a barba feita apenas do lado direito se aproximou da jaula do calmo Moacir para inquirir acerca de seu movimento de resistência. Trazia na mão um controle que permitia ativar os vários mecanismos de "cura" da jaula. O controle trazia botões de coerção física (choques elétricos, queimaduras, cortes no corpo, etc), botões de indução mental (liberação de gases alucinógenos, injeções, etc) e botões de limpeza mental (imagens e sons que afetassem os conceitos morais do paciente). Mas estranhamente o nordestino, tido como líder intelectual da resistência, ainda mantinha aquele mesmo olhar tranqüilo e sereno, que chegava a expressar até certa alegria. Alegria a qual o inquisidor respondeu com um novo choque elétrico enquanto o questionava em um tom rude:
- Ei velho! Quem são esses?
Moacir olhou para o jovem e respondeu com toda sinceridade de coração.
- São os últimos santos do cordeiro que ainda padecem as aflições de um mundo rebelde. Foi assim desde Babel, mortais que se negam a reconhecer sua própria humanidade e querem ser como deuses, senhores da morte e da vida, criadores do bem e do mal.
A gargalhada histérica do dês-humano pôde ser ouvida em meio aos gritos de dor dos humanos em suas jaulas.
- Vejo que aprisionamos os loucos mais retrógados dos vermes humanos – disse o inquisidor liberando um gás verde na jaula, e voltou a dizer num tom bastante suave – creio, Moacir, que o senhor é, anh, inteligente o suficiente para entender que essas história são apenas antigas fábulas com as quais alguns dos mais inteligentes entre os humanos conseguiam dominar os demais. Nunca houve e nunca haverá deus senão aquele criado pela própria imaginação humana para satisfazer seus desejos. A uns crer em deus é bom pois, anh, garante para eles status e poder de dominar os demais. A outros é bom também acreditar em deuses pois os humanos sempre tiveram medo de serem livres, possuem um certo gosto sádico por alguém que controle suas ações e vontades.
- Você não sabe o que está falando – disse Moacir resistindo aos efeitos alucinógenos.
- Olhe bem aqui Moacir – o inquisidor continuou a falar colocando uma musica totalmente arrítmica – veja todas essas pessoas, você realmente acha que se Deus existisse o mundo seria desordenado desse jeito? O que houve foi sempre o caos, o caos de átomos perdidos no espaço infinitamente vazio e frio. Diante das infinitas possibilidades em algum lugar do espaço era de se esperar que os átomos se organizassem da forma como o vemos aqui na terra. Aqui o caos permanece o tempo todo, embora tenhamos sempre sido ensinados a acreditar que exista certa ordenação da vida nessa terra. Na realidade você e eu, e tudo ao nosso redor, é uma organização de átomos como outra qualquer, e não há nada de relevante nisso.
- Entendo - Disse Moacir um pouco atordoado olhando fixamente para seu polegar.
- Não pretendo fazê-lo acreditar em tudo que digo. Meu próprio pensamento, como o seu alias, não é senão um conjunto de átomos vagando aleatoriamente pela cabeça, não há nada de tão relevante em qualquer raciocínio. Eu sei que meu próprio pensamento não diz a verdade, é apenas mais um discurso, entre tantos por ai. Quero apenas que você seja livre, livre de todas as cadeias com as quais a humanidade foi presa durante anos. Tente criar a vida desse jeito, primeiro retirando os significados impostos, para depois formar os seus próprios significados. Se você unicamente passar por essa etapa de negar a humanidade poderá criar seus próprios deuses, inventá-los da maneira que achar melhor, se quiser, poderá proclamar-se o próprio deus, pois tudo lhe será permitido.
Ao terminar de falar o jovem foi desligando os botões de indução mental. Para Moacir as palavras do inquisidor o reprimiam como um cercamento a uma cidade murada mas que esta absolutamente disposta a não ceder ao inimigo. Tudo aquilo que o inquisidor falou era bastante lógico diante da situação. Como podia ele continuar crendo que existe um Deus criador benevolente se a realidade até então só havia lhe mostrado o caos e a desordem? Se Deus realmente existisse porque nada na sua vida então parecia apontar nessa direção? Tudo o que fazia para resistir ao mal avassalador parecia dar errado, muitas das vezes que confiou no livramento de Deus surgiram decepções que contrariavam abalavam suas crenças e, algumas vezes, propunham a visão cética de que o caos era a única coisa que existia. Mas Moacir não iria dar o braço a torcer, ainda mais a esses imprestáveis desumanos.
- E então, disse finalmente o inquisidor, o que o senhor me diz?
- Você fala muito bem, mas desconsidera que nesse universo possa haver algo além da matéria. Eu realmente não posso provar que meu deus existe, mas você também não pode provar que ele não exista ainda que todas as evidências pareçam apontar nessa direção. Porém eu lhe digo que dentro de mim existe um espírito, e eu posso senti-lo, e ele me mostra claramente que não devo negar quem ele é e todas as coisas que isso implica. Esse mesmo espírito me mostra que vocês, os dês-humanos, são a pior coisa que já existiu na face dessa terra decaída. Jamais me renderei a vocês.
- Bom, então talvez tenhamos de usar de métodos mais fortes para tentar a sua reabilitação – o inquisidor voltou a ligar os botões de indução mental, agora em maior intensidade – a não ser que esteja disposto a ver nossos testes científicos recentes. Nós entendemos sua posição, pois sabemos que dentro de você existem hormônios químicos que o fazem resistir a negar suas antigas crenças. Além disso, anh, os homens sempre se agarram aquilo a que são ensinados, e o ensino não é apenas formal, mas perpassa todas as formas de relação social. Mesmo eu tive muita dificuldade em ser iniciado, pois resisti destruir o Cristo na cruz de madeira e abusar sexualmente daquela criança. Mas basta dar alguns passos contra todas essas mentiras que lhe foram ensinadas que você será livre. Os hormônios são então dispersos e nunca mais a consciência poderá acusá-lo de coisa alguma, você poderá ser finalmente livre de seu deus que lhe exige tanto, mesmo nesse estado.
Os efeitos dos gases foram dessa vez muito mais fortes. E a pressão para Moacir era novamente muito grande. Como seu deus poderia ter deixado numa tal situação? Exigindo a obediência absoluta, a completa servidão na solidão total entre os seus perseguidores sem sentir sequer uma gota do amor e compaixão de um deus bondoso do qual tinha ouvido durante toda a vida. Moacir pensou em desistir, render-se aquele canalha e tentar viver tranqüilo o resto de sua vida, não precisava se tornar um deles. De qualquer forma, em tal estado, ninguém podia exigir-lhe uma decisão coerente.
Mas não, ele sabia com toda a certeza, aqui estava a grande decisão, uma decisão que, se o cristianismo estivesse certo, envolvia algo muito além que sua própria vida. Era o confronto entre a rebeldia e a submissão, ele podia escolher apontar na cara de Deus e julgá-lo por sua injustiça ou escolher mais uma vez crer na soberania e propósito de um Deus benevolente que, para além do que toda a situação parecia apontar, ainda o amava imensamente. Tomando todas as forças que tinha dentro de si Moacir gritou:
- Não! Seu tolo! Será que você realmente conseguira me convencer de que sua vida é melhor que a minha? Veja seu estado, você jamais poderá ser feliz vivendo algo em que já não crê. São puras satisfações ocas e momentâneas de prazeres degradados que apesar de aumentarem em quantidade já não possuem qualquer sentido. Vocês não podem criar nada que lhes de satisfação verdadeira pois jamais serão capazes de realmente acreditar em suas próprias criações. Só lhes resta a luta pela sobrevivência e satisfação de seu corpo biológico, que na melhor das hipóteses morrera no esquecimento depois de uma curta e infeliz vida vazia. Ainda que você esteja certo e tudo aquilo em que acredito não passe de mentiras contadas por um idiota eu prefiro continuar realmente acreditando nelas, acreditando que depois que essa terra for consumida haverá um novo amanhecer num novo céu e nova terra, e nós os santos, poderemos viver totalmente satisfeitos ao lado daquele que é a suprema satisfação de nossos desejos, pois por ele e para ele fomos criados.
Os olhos do inquisidor arregalaram-se, ele realmente não esperava aquela resposta. Um choque violento percorreu novamente o corpo de Moacir e aos poucos a jaula começou a esquentar. Todavia, que contradição, o coração de Moacir se encheu de uma alegria absurda. Era como se o próprio Deus estivesse preenchendo de força divina cada canto de sua alma. É difícil conceber isso, mas sua alegria foi tão imensamente intensa que chegou até a fazê-lo esquecer o grande sofrimento que estava a passar. Ele olhou para aquele jovem desumano e o amou, e amou tanto que desejava expressar, queria mostrar de alguma forma que aquele Deus era real e que o amava. Desejava que seu amigo soubesse que depois da noite fria e escura sempre há um novo amanhecer, depois do inverno a primavera chega novamente. O sofrimento é passageiro mas o gozo e alegria que vem depois é tão infinita como o próprio Deus. Mas Moacir não conseguia que sua face expressasse tudo isso, ou ao menos seus olhos mostrassem qualquer coisa como amor pois naquele momento se contorcia com as dores das queimaduras. Depois de algum tempo o inquisidor abaixou a temperatura.
- Bom? E o que me diz sobre isso? – voltou a questionar o inquisidor achando que dessa vez teria inibido a persistência de Moacir em reafirmar a sua crença.
- O próprio Espírito testemunha a meu espírito que sou filho de Deus, se filho então herdeiro, herdeiro de Deus, co-herdeiro com Cristo, contanto que sofra com Ele para que seja glorificado com Ele. Pois a mim foi concedido que por causa de Cristo, eu deveria não apenas crer, mais sofrer. Assim, me alegro por ser participante dos sofrimentos de Cristo, para que também possa me alegrar e exultar na revelação da sua glória. Pois os sofrimentos desse tempo presente não podem ser comparados com a glória que será revelada. Meu tesouro não está na terra, nem mesmo no meu corpo.
Com um riso no canto da boca o inquisidor apertou os botões para comprimir a jaula até que ela amassasse completamente o corpo de Moacir. Passou então a assistir os momentos finais do último dos grandes heróis entre os humanos.
- Você pode ter meu corpo massacrado, mas jamais terá minha obediência!
E pela última vez o grande líder proclamou a vitória aos seus irmãos de resistência que acompanhavam a conversa de suas jaulas.
- O propósito de Deus em criar o universo é demonstrar a grandeza da glória de sua graça, suprema no sofrimento de seu Filho. A nós nos cabe unir-nos a Cristo em sua graça e em seu sofrimento na via do calvário para demonstrar a suprema satisfação da glória da graça. Só assim todos poderão ver quanta satisfação Ele é em nós. Isso me dói meus irmãos, eu jamais teria escolhido esse caminho se não fosse a verda... .
3 comentários:
O texto ensina muito sobre o bendiencia e aliança com o Pai..
Retrata a sujeira desse mundo mais em contradição mostra pessoas que ainda confiam no unico Deus.
Maravilhoso texto Silas, parabéns!
Continue escrevendo e nos ensinando...Acredito que esses textos e esse dom vem de Deus.
bjooo
Parabens Silao. MUITO bom!
Historiador e Cristão? Raro! geralmente se tornam ateus logo nos primeiros semestres do curso. Bom saber!
Graça e Paz
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