Trabalho desenvolvido em conjunto com Caetano Caprioli Neto e Claudio Vichi no primeiro semestre de 2009 para o tópico sobre Literatura Latino Amerinana ministrado pelo Prof. Dr. José Alves de Freitas Neto.
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A independência latino-americana deve ser pensada em um duplo sentido. Por um lado buscou libertar os “crioulos” da subordinação ao mando burocrático peninsular, levando a desagregação dos vinculos existentes com o império e sua tradição histórico-cultural. Por outro lado, possibilitou a emergência de um novo projeto que prometia um futuro glorioso a América. Esse projeto não era outro senão aquele iluminista que se consagrou em decorrência da Revolução Francesa e da independência dos Estados Unidos. O projeto histórico dos liberais aspirava substituir a tradição colonial , baseada na doutrina do catolicismo, por uma afirmação igualmente universal: a liberdade da pessoa humana. Tal desejo foi possível de ser articulado na América porque as elites crioulas desejavam se desvincular da Espanha sem perder o seu status e hierarquia social baseadas em sua ascendência européia. Tal situação configurou uma realidade bastante estranha pois os revolucionários estavam ao mesmo tempo interessados em se desvincular de um certo tipo de tradição européia que, com todas as suas problemáticas, já fazia parte da realidade vivida e tradicional no ambiente americano, para se adaptar a novos ideais que ainda eram expressamente europeus, mas que se colocavam como universais baseados nas supostas luzes da razão, mas que não possuia nenhuma relação com a realidade concreta dos indivíduos.
Nessa direção foram formadas as diversas nações americanas. A emancipação e a configuração de Estados nacionais não advêm de uma identidade própria de cada região. A formação de cada um dos países foi feita pura e simplesmente no sentido político, nunca por singularidades culturais. Segundo o modelo francês, a nação aparece como uma coletividade humana constituída pela livre vontade de seus membros e governada por leis que ela mesma se dá. Assim, apesar de certa continuidade cultural dessa terra hispano-americana, os países acabaram por se configurar em torno de cidades principais que organizaram a administração, tomaram a frente da nação e formaram para si uma constituição própria, ressaltando a unidade política do território e os ideais liberais e democráticos vigentes em partes da Europa. Mas a novidade das novas nações americanas, como bem frisa Octávio Paz, é enganosa, “na verdade, trata-se de sociedades em decadência ou em imobilidade forçada, sobrevivência e fragmentos de um todo desfeito.” A América não possuia nenhuma base sólida para a formação do que hoje chamamos nação. Havia identidades múltiplas, sobrepostas e imbricadas umas nas outras, mas que, para copiar o modelo proposto pela Europa, configurou seu território em múltiplas nações cujas diferenciações e consciências nacionais próprias tiveram de ser produzidas posteriormente a partir de construções de identidades coletivas.
Formadas as nações os crioulos eram obrigados a se defrontar ao mesmo tempo com a flagrante ambição neocolonialista dos europeus que tanto admiravam e com o clamor por igualdade das minorias subordinadas: índia, mestiça e africana, muitas das quais haviam lutado nas guerras de independência. Para estabelecer uma condição favorável a si foi necessário a elite crioula da América buscar formas de discurso que sustentassem seu domínio político e econômico sem a necessidade de recorrer à metrópole espanhola e que configurassem identidades coletivas em torno da unidade nacional. Particularmente importânte foi o papel desempenhado pela literatura nesse processo de articulação de elementos. Uma característica marcante desses escritos é que a palavra é anunciada a partir de uma posição de verdade que são, em grande parte das vezes, indissociáveis de determinada posição política. Além disso, tal literatura é marcada por uma constante auto-interpretação e autodefinição que visa responder a uma demanda por identidade latino-americana e/ou nacional.
Logo após a independência alguns crioulos desejando sustentar a lógica cultural euro-americana celebraram a independência com louvores a natureza americana. Porém, como mostra Mary Louise Pratt[1], os textos fundamentais apresentam uma transculturação de valores europeus ou das maneiras como os europeus viam a Américas dentro do processo crioulo de auto-invenção. Os escritos de Alexander von Humboldt tornaram-se matéria prima essencial para as ideologias americanas europeizantes, fornecendo o ponto de partida para prescrições morais e cívicas às novas repúblicas. Vários autores partiram da América Latina primal e estetizada de Humboldt para proclamar o louvour da natureza americana, transculturando os valores europeus para uma auto-invenção crioula. Um desses autores, Adrés Bello, após representar a natureza americana e a fantasia que faz dela o observador europeu ele se volta para a necessidade de voltar para o trabalho e resgatar a terra selvagem. A Espanha, por sua vez, é definida como uma força retrógrada que conquistou barbaramente, por isso deve ser deixada de lado em nome de um suposto povo americano, uma multidão laboriosa, que anseia viver e trabalhar livremente em sua terra. Entretanto, essa ruptura política com a Espanha “mantinha valores europeus e supremacia branca.”[2]
Mesmo assim, o grande desafio das elites brancas passa a ser imaginar a descolonização. “A “independência” não era um processo conhecido, mas algo que estava sendo improvisado mesmo enquanto escreviam.”[3] Ou seja, era uma experiência que ia além das sociedades européias e requeria aos latino-americanos recriarem-se como cidadãos da América Latina. A reapropriação das idéias de Humboldt nesse contexto é um símbolo e um ponto de partida, além do qual se pretende ir. Seja na re-imaginação das relações com a Europa, na auto-compreensão das novas Repúblicas, na legitimação das classes dominantes, nos projetos de futuros,...
Como exemplo, é possível mencionar Faustino Sarmiento, que historicizou a alegoria num rabalho não ficcional: Civilização e Barbárie. Novamente a América de Humboldt fornece o ponto de partida para um projeto discursivo claramente crioulo. Nesse ensaio o autor legitima os valores crioulos liberais depreciando o legado das tradições coloniais, consubstanciadas na figura de Juan Facundo Quiroga. A barbárie, que consistia nas sociedades indígenas e populações escravas, parecia ser poderoso obstáculo as aspirações dos crioulos europeizados. Porém, ao contrário do que seria de se pressupor inicialmente Sarmiento e fascinado pelos modos de vida gaúchos, que, ainda que bárbara, fornece os elementos “argentinos” particulares necessários. É no elemento de Facundo Quiroga que se expressa toda essa contradição, ao mesmo tempo que expressa a brutalidade, o autoritarismo conservador e a violência que exemplificam a barbárie, fascina Sarmiento pelas formas de vida do mestiço do interior.
Sarmiento também escreveu um texto sobre a Europa, no qual, apresenta uma dificuldade teórica básica que é questionar sua própria autoridade de poder fazer esse discurso. Esse questionamento surge devido à própria escrita como aparato para evidenciar as assimetrias coloniais. Ou seja, “a metrópole continuamente... representa a colônia para si, e também continuamente exige da colônia que represente a si mesma para a metrópole.”[4] Nesse sentido, existe uma produção de idéias que subordinam a América Latina a Europa.
Como podemos ver em Pratt, as idéias produzidas na América Latina estão vinculadas aquelas produzidas na Europa. São assimiladas através da retórica do próprio discurso, do diálogo que estabelecem com essas idéias e das relações de poder entre metrópole e colônia. Servem como ponto de partida para projetos que ambicionam mais. Mas são usadas também para legitimar valores já existentes e de interesses para determinadas classes sociais. Esse discurso se torna problemático para contemplar a realidade latino-americana, na medida em que ela é composta por uma diversidade cultural imensa e uma sociedade multi-étnica.
Carlos Fuentes em seu livro, O Espelho enterrado[5], complementa essa discussão. Esse autor questiona-se se, sendo nós elementos mistos, mestiços entre uma cultura e outra, temos mesmo que seguir modelos que não foram formulados por nós mas exportados de fora? Já está mais do que claro, depois do advento da Guerra Fria e a divisão do mundo segundo dois arquétipos gerais formulados na Europa, que tais configurações não funcionam na América, tanto o capitalismo como o socialismo só nos levaram a uma desgraça maior, a afundarmos ainda mais em relação as grandes potências. São idéias trazidas de fora e forçadas, contra a natureza, nas sociedades americanas cuja lógica de organização é outra. Colocado em nossas sociedades qualquer sistema vai tomando formas que nos são próprias, particulares e não cumprem assim, objetivamente, o intuito ao qual foi designado. Segundo Fuentes, só podemos dar boa resposta as nossas crises a partir de nós mesmos, “isto é, de dentro de nossas culturas”. É necessário, antes de tudo, compreender-nos, conhecer nossa própria cultura, nosso próprio passado, para assim criarmos elementos que sejam não indígenas e nem europeus, mas genuinamente nossos, americanos do século XXI.
É interessante pensar que essas idéias são trazidas por um grupo de pessoas. Podemos mencionar os intelectuais no caso. Beatriz Sarlo, ao questionar o papel dos intelectuais[6], mostra como esses homens tentavam compreender a realidade, passar essa compreensão para os outros, a Nação, o Povo e buscavam soluções através dela. A preocupação da Sarlo, nesse texto, é atual. Qual o papel que ainda resta para essa intelectualidade na tentativa de compreendermos a sociedade? Mas, o que queremos observar nesse texto, é justamente como ela expõe que o papel do intelectual, hoje, está abalado. E isso por questões históricas, como as falhas desses pensadores. Também vincularam para si o dever do saber e, com isso, representaram-se como donos de um poder. A produção da verdade. E, através disso, fizeram lutas, apoiaram regimes, criticaram-nos, foram perseguidos. Isso faz com que a figura do intelectual se torne um problema e seja desvalorizada. Sua historicização e a percepção de que ele não é neutro, mas vinculado a valores, a uma política, a uma ideologia reduzem sua credibilidade. Ainda mais frente aos rumos da ciência e da técnica, que criam um novo tipo de pensador, o especialista.
O que queremos perceber é que houve na América uma apropriação de idéias européias que foram assimiladas por um grupo de pensadores como se fossem verdades. Idéias que nem sempre condiziam com nossa realidade e isso gerou dificuldades intelectuais a esses pensadores, em tentar compreender nossas singularidades. Nesse sentido é possível a América Latina se libertar do discurso político-cultural que criou para si e buscar novas possibilidades a partir de sua própria realidade. O objetivo é sempre construir algo que não seja exportado, mas próprio da América, enxergá-la em si, e não na relação com outros estados e nações tidos como mais avançados. Temos que focar a reflexão e a ação na percepção da singularidade do americano, quem de fato é ele e porque é tão difícil defini-lo. Apenas com um conhecimento profundo dessa lógica podemos nos aproximar de uma comparação efetiva entre ambos, e não tomar precipitadamente o modelo europeu como muitos tem feito, e a partir dele condenar o fracasso americano.
Nessa direção foram formadas as diversas nações americanas. A emancipação e a configuração de Estados nacionais não advêm de uma identidade própria de cada região. A formação de cada um dos países foi feita pura e simplesmente no sentido político, nunca por singularidades culturais. Segundo o modelo francês, a nação aparece como uma coletividade humana constituída pela livre vontade de seus membros e governada por leis que ela mesma se dá. Assim, apesar de certa continuidade cultural dessa terra hispano-americana, os países acabaram por se configurar em torno de cidades principais que organizaram a administração, tomaram a frente da nação e formaram para si uma constituição própria, ressaltando a unidade política do território e os ideais liberais e democráticos vigentes em partes da Europa. Mas a novidade das novas nações americanas, como bem frisa Octávio Paz, é enganosa, “na verdade, trata-se de sociedades em decadência ou em imobilidade forçada, sobrevivência e fragmentos de um todo desfeito.” A América não possuia nenhuma base sólida para a formação do que hoje chamamos nação. Havia identidades múltiplas, sobrepostas e imbricadas umas nas outras, mas que, para copiar o modelo proposto pela Europa, configurou seu território em múltiplas nações cujas diferenciações e consciências nacionais próprias tiveram de ser produzidas posteriormente a partir de construções de identidades coletivas.
Formadas as nações os crioulos eram obrigados a se defrontar ao mesmo tempo com a flagrante ambição neocolonialista dos europeus que tanto admiravam e com o clamor por igualdade das minorias subordinadas: índia, mestiça e africana, muitas das quais haviam lutado nas guerras de independência. Para estabelecer uma condição favorável a si foi necessário a elite crioula da América buscar formas de discurso que sustentassem seu domínio político e econômico sem a necessidade de recorrer à metrópole espanhola e que configurassem identidades coletivas em torno da unidade nacional. Particularmente importânte foi o papel desempenhado pela literatura nesse processo de articulação de elementos. Uma característica marcante desses escritos é que a palavra é anunciada a partir de uma posição de verdade que são, em grande parte das vezes, indissociáveis de determinada posição política. Além disso, tal literatura é marcada por uma constante auto-interpretação e autodefinição que visa responder a uma demanda por identidade latino-americana e/ou nacional.
Logo após a independência alguns crioulos desejando sustentar a lógica cultural euro-americana celebraram a independência com louvores a natureza americana. Porém, como mostra Mary Louise Pratt[1], os textos fundamentais apresentam uma transculturação de valores europeus ou das maneiras como os europeus viam a Américas dentro do processo crioulo de auto-invenção. Os escritos de Alexander von Humboldt tornaram-se matéria prima essencial para as ideologias americanas europeizantes, fornecendo o ponto de partida para prescrições morais e cívicas às novas repúblicas. Vários autores partiram da América Latina primal e estetizada de Humboldt para proclamar o louvour da natureza americana, transculturando os valores europeus para uma auto-invenção crioula. Um desses autores, Adrés Bello, após representar a natureza americana e a fantasia que faz dela o observador europeu ele se volta para a necessidade de voltar para o trabalho e resgatar a terra selvagem. A Espanha, por sua vez, é definida como uma força retrógrada que conquistou barbaramente, por isso deve ser deixada de lado em nome de um suposto povo americano, uma multidão laboriosa, que anseia viver e trabalhar livremente em sua terra. Entretanto, essa ruptura política com a Espanha “mantinha valores europeus e supremacia branca.”[2]
Mesmo assim, o grande desafio das elites brancas passa a ser imaginar a descolonização. “A “independência” não era um processo conhecido, mas algo que estava sendo improvisado mesmo enquanto escreviam.”[3] Ou seja, era uma experiência que ia além das sociedades européias e requeria aos latino-americanos recriarem-se como cidadãos da América Latina. A reapropriação das idéias de Humboldt nesse contexto é um símbolo e um ponto de partida, além do qual se pretende ir. Seja na re-imaginação das relações com a Europa, na auto-compreensão das novas Repúblicas, na legitimação das classes dominantes, nos projetos de futuros,...
Como exemplo, é possível mencionar Faustino Sarmiento, que historicizou a alegoria num rabalho não ficcional: Civilização e Barbárie. Novamente a América de Humboldt fornece o ponto de partida para um projeto discursivo claramente crioulo. Nesse ensaio o autor legitima os valores crioulos liberais depreciando o legado das tradições coloniais, consubstanciadas na figura de Juan Facundo Quiroga. A barbárie, que consistia nas sociedades indígenas e populações escravas, parecia ser poderoso obstáculo as aspirações dos crioulos europeizados. Porém, ao contrário do que seria de se pressupor inicialmente Sarmiento e fascinado pelos modos de vida gaúchos, que, ainda que bárbara, fornece os elementos “argentinos” particulares necessários. É no elemento de Facundo Quiroga que se expressa toda essa contradição, ao mesmo tempo que expressa a brutalidade, o autoritarismo conservador e a violência que exemplificam a barbárie, fascina Sarmiento pelas formas de vida do mestiço do interior.
Sarmiento também escreveu um texto sobre a Europa, no qual, apresenta uma dificuldade teórica básica que é questionar sua própria autoridade de poder fazer esse discurso. Esse questionamento surge devido à própria escrita como aparato para evidenciar as assimetrias coloniais. Ou seja, “a metrópole continuamente... representa a colônia para si, e também continuamente exige da colônia que represente a si mesma para a metrópole.”[4] Nesse sentido, existe uma produção de idéias que subordinam a América Latina a Europa.
Como podemos ver em Pratt, as idéias produzidas na América Latina estão vinculadas aquelas produzidas na Europa. São assimiladas através da retórica do próprio discurso, do diálogo que estabelecem com essas idéias e das relações de poder entre metrópole e colônia. Servem como ponto de partida para projetos que ambicionam mais. Mas são usadas também para legitimar valores já existentes e de interesses para determinadas classes sociais. Esse discurso se torna problemático para contemplar a realidade latino-americana, na medida em que ela é composta por uma diversidade cultural imensa e uma sociedade multi-étnica.
Carlos Fuentes em seu livro, O Espelho enterrado[5], complementa essa discussão. Esse autor questiona-se se, sendo nós elementos mistos, mestiços entre uma cultura e outra, temos mesmo que seguir modelos que não foram formulados por nós mas exportados de fora? Já está mais do que claro, depois do advento da Guerra Fria e a divisão do mundo segundo dois arquétipos gerais formulados na Europa, que tais configurações não funcionam na América, tanto o capitalismo como o socialismo só nos levaram a uma desgraça maior, a afundarmos ainda mais em relação as grandes potências. São idéias trazidas de fora e forçadas, contra a natureza, nas sociedades americanas cuja lógica de organização é outra. Colocado em nossas sociedades qualquer sistema vai tomando formas que nos são próprias, particulares e não cumprem assim, objetivamente, o intuito ao qual foi designado. Segundo Fuentes, só podemos dar boa resposta as nossas crises a partir de nós mesmos, “isto é, de dentro de nossas culturas”. É necessário, antes de tudo, compreender-nos, conhecer nossa própria cultura, nosso próprio passado, para assim criarmos elementos que sejam não indígenas e nem europeus, mas genuinamente nossos, americanos do século XXI.
É interessante pensar que essas idéias são trazidas por um grupo de pessoas. Podemos mencionar os intelectuais no caso. Beatriz Sarlo, ao questionar o papel dos intelectuais[6], mostra como esses homens tentavam compreender a realidade, passar essa compreensão para os outros, a Nação, o Povo e buscavam soluções através dela. A preocupação da Sarlo, nesse texto, é atual. Qual o papel que ainda resta para essa intelectualidade na tentativa de compreendermos a sociedade? Mas, o que queremos observar nesse texto, é justamente como ela expõe que o papel do intelectual, hoje, está abalado. E isso por questões históricas, como as falhas desses pensadores. Também vincularam para si o dever do saber e, com isso, representaram-se como donos de um poder. A produção da verdade. E, através disso, fizeram lutas, apoiaram regimes, criticaram-nos, foram perseguidos. Isso faz com que a figura do intelectual se torne um problema e seja desvalorizada. Sua historicização e a percepção de que ele não é neutro, mas vinculado a valores, a uma política, a uma ideologia reduzem sua credibilidade. Ainda mais frente aos rumos da ciência e da técnica, que criam um novo tipo de pensador, o especialista.
O que queremos perceber é que houve na América uma apropriação de idéias européias que foram assimiladas por um grupo de pensadores como se fossem verdades. Idéias que nem sempre condiziam com nossa realidade e isso gerou dificuldades intelectuais a esses pensadores, em tentar compreender nossas singularidades. Nesse sentido é possível a América Latina se libertar do discurso político-cultural que criou para si e buscar novas possibilidades a partir de sua própria realidade. O objetivo é sempre construir algo que não seja exportado, mas próprio da América, enxergá-la em si, e não na relação com outros estados e nações tidos como mais avançados. Temos que focar a reflexão e a ação na percepção da singularidade do americano, quem de fato é ele e porque é tão difícil defini-lo. Apenas com um conhecimento profundo dessa lógica podemos nos aproximar de uma comparação efetiva entre ambos, e não tomar precipitadamente o modelo europeu como muitos tem feito, e a partir dele condenar o fracasso americano.
A literatura Latino-Americana, como toda literatura de qualquer lugar do mundo, é uma forma de expressão. Como bem afirma Louis de Bonald, pensador e crítico do Romantismo francês em inícios do século XX: “A Literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem”. Talvez, ainda mais do que isso, a literatura é a expressão de um todo, de um universo no qual ela está inserida. É a expressão da cultura, a expressão da sociedade e a expressão da história.
Quando paramos para analisar especificamente a literatura latino-americana essa idéia deve estar sempre em mente. Isso, porque, toda a história da América Latina e todos os processos pelos quais essa região do mundo passou esta incorporada em sua literatura. Estamos falando de uma região imersa em processos políticos e econômicos, em lutas de libertação ou consolidação, em etapas de conscientização em diferentes planos. Se tomarmos os primórdios da literatura americana, em períodos pré-independência, por exemplo, temos casos no México da freira Soror Juana Inês de La Cruz (1651–1695, que escreveu muitos poemas e ganhou fama pela sua defesa dos direitos das mulheres, além de Juan Luiz de Alarcón (1581-1639) um dramaturgo que publicava obras de caráter moralizador e de ataque aos costumes e vícios sociais da época.
Mas não precisamos ir tão longe. Se pegarmos a literatura latino-americana do século XIX observaremos um conjunto de produções literárias com objetivos determinados. São obras de afirmação, de busca da criação de uma identidade tanto nacional quanto latino-americana. São textos de auto-interpretação de um espaço que outrora era colônia e que agora é uma nação. Muitas dessa obras tocarão em assuntos que agora (pós independência) são de extrema importância. O argentino Esteban Echeverría (2 de setrembro de 1805 – 19 de Janeiro de 1851, amplamente conhecido como “fundador” da literatura argentina), por exemplo, foi o mais importante poeta do primeiro período romântico no Rio da Prata. Durante o período em que escreveu, os debates dentro da Argentina centravam-se na emancipação americana, quando o caos reinava na Argentina. A situação suscitou o conflito do estado argentino e a polarização em duas partes: o partido Federal e o Unitário. A parte federal, apoiada pela força política da capital Buenos Aires e as aldeias, governou a Argentina, liderada pelo Presidente Rosas. Este grupo apoiou um governo federal com base no modelo confederacional dos Estados Unidos, cujas leis e direitos de distribuição foram iguais em todas as regiões do estado. Quanto à União, estes preferiram o modelo europeu para o Estado, ao contrário dos federais, um governo unitário e centralizado, inspirado pelos ilustradores do tempo e apoiado pelas grandes elites. Por outro lado, existia também a figura do gaúcho argentino, indivíduo independente que trabalhava de graça na lavoura, apoiado pelos federalistas. Essa bipolarização será observada não apenas na Argentina, mas em diversas regiões da América Latina, agora transformadas em nações recém independentes. Echeverria, em sua obra O Matadouro (1838-1840), faz a denuncia do regime sangrento de Juan Manuel Rosas através da analogia com o ambiente de um Matadouro, além de utilizar a temática do índio e do deserto na manifestação poética.
Domingo Faustino Sarmiento Albarracín (1811-1888), por sua vez, em "Facundo: Civilização e Barbárie", traça uma biografia do caudilho argentino Facundo Quiroga. Sarmiento, porém, usando Quiroga como pretexto, realizou neste livro um profundo estudo do fenômeno do Caudilhismo e um verdadeiro libelo contra Rosas e seu regime. Tanto Quiroga quanto Rosas, para o autor, são caudilhos e representam a barbárie que deriva da natureza e da falta de civilização presente no campo argentino. Esse campo, por sua vez, pode ser representado na figura do gaucho, livre, rústico e símbolo contrário ao progresso.
O poeta José Hernandez (1834-1886), ao contrário, tratará de exaltar o gaucho, como emblema da argentinidade. O trabalhador dos pampas aparecerá como personagem principal de obras como "O gaúcho Martín Fierro", onde recrutado à força para a guerra contra o índio, é vítima de arbitrariedades, se tornando desertor, e depois assassino e ladrão.
O que queremos dizer citando esses autores é que a literatura latino-americana (principalmente do século XIX) possui temáticas, aspectos e um ambiente que, de fato, a torna única, com uma linguagem única. Ora, estamos falando de produções artísticas que retratam as tensões e debates gerados por acontecimentos até então únicos na história (o colonialismo, os processos de independências e, subseqüentemente, os processos de construções das nações americanas). É obvio que essas produções vão estar recheadas de apelos políticos, de críticas, de idéias e de denuncias. Os três autores citados acima são apenas alguns exemplos da infinidade de escritores que se dedicaram (cada um da sua forma) a buscar soluções e a entender suas nações e a América.
Quando adentramos ao século XX, após a normalização da vida política da América Latina, a literatura latino-americana atravessou um processo de mudança, passando a tratar de temas universais. Ao longo dos anos, passou-se a produzir uma obra literária capaz de despertar a admiração internacional. Entretanto, falarmos de uma literatura cosmopolita, de uma literatura que agora não mais se dirige a denuncias e a conscientização (como a do século XIX) não significa falarmos de uma literatura que perdeu seu reconhecimento enquanto latino-americana. Apesar de termos consolidado a nossa independência e as bases de nossas nações, os processos vividos pela América Latina no século XIX não se esvaziaram. Como bem afirma Julio Cortázar em seu ensaio “A literatura latino-americana à luz da história contemporânea”: É obvio que a maioria dos novos escritores latino-americanos percebe que a sua literatura participa de um ciclo vital e histórico que chega bem além das funções bastante restritas que a tradição clássica ou acadêmica atribuía à literatura” [7] (sublinhados meus). Na verdade, ser escritor na América latina é falar também de si. É falar de vivencias que os próprios literários fazem parte. Essa talvez seja a grande peculiaridade da literatura latino-americana: O literário, “além de ser escritor é um argentino ou um panamenho ou um boliviano” [8]
Quando paramos para analisar especificamente a literatura latino-americana essa idéia deve estar sempre em mente. Isso, porque, toda a história da América Latina e todos os processos pelos quais essa região do mundo passou esta incorporada em sua literatura. Estamos falando de uma região imersa em processos políticos e econômicos, em lutas de libertação ou consolidação, em etapas de conscientização em diferentes planos. Se tomarmos os primórdios da literatura americana, em períodos pré-independência, por exemplo, temos casos no México da freira Soror Juana Inês de La Cruz (1651–1695, que escreveu muitos poemas e ganhou fama pela sua defesa dos direitos das mulheres, além de Juan Luiz de Alarcón (1581-1639) um dramaturgo que publicava obras de caráter moralizador e de ataque aos costumes e vícios sociais da época.
Mas não precisamos ir tão longe. Se pegarmos a literatura latino-americana do século XIX observaremos um conjunto de produções literárias com objetivos determinados. São obras de afirmação, de busca da criação de uma identidade tanto nacional quanto latino-americana. São textos de auto-interpretação de um espaço que outrora era colônia e que agora é uma nação. Muitas dessa obras tocarão em assuntos que agora (pós independência) são de extrema importância. O argentino Esteban Echeverría (2 de setrembro de 1805 – 19 de Janeiro de 1851, amplamente conhecido como “fundador” da literatura argentina), por exemplo, foi o mais importante poeta do primeiro período romântico no Rio da Prata. Durante o período em que escreveu, os debates dentro da Argentina centravam-se na emancipação americana, quando o caos reinava na Argentina. A situação suscitou o conflito do estado argentino e a polarização em duas partes: o partido Federal e o Unitário. A parte federal, apoiada pela força política da capital Buenos Aires e as aldeias, governou a Argentina, liderada pelo Presidente Rosas. Este grupo apoiou um governo federal com base no modelo confederacional dos Estados Unidos, cujas leis e direitos de distribuição foram iguais em todas as regiões do estado. Quanto à União, estes preferiram o modelo europeu para o Estado, ao contrário dos federais, um governo unitário e centralizado, inspirado pelos ilustradores do tempo e apoiado pelas grandes elites. Por outro lado, existia também a figura do gaúcho argentino, indivíduo independente que trabalhava de graça na lavoura, apoiado pelos federalistas. Essa bipolarização será observada não apenas na Argentina, mas em diversas regiões da América Latina, agora transformadas em nações recém independentes. Echeverria, em sua obra O Matadouro (1838-1840), faz a denuncia do regime sangrento de Juan Manuel Rosas através da analogia com o ambiente de um Matadouro, além de utilizar a temática do índio e do deserto na manifestação poética.
Domingo Faustino Sarmiento Albarracín (1811-1888), por sua vez, em "Facundo: Civilização e Barbárie", traça uma biografia do caudilho argentino Facundo Quiroga. Sarmiento, porém, usando Quiroga como pretexto, realizou neste livro um profundo estudo do fenômeno do Caudilhismo e um verdadeiro libelo contra Rosas e seu regime. Tanto Quiroga quanto Rosas, para o autor, são caudilhos e representam a barbárie que deriva da natureza e da falta de civilização presente no campo argentino. Esse campo, por sua vez, pode ser representado na figura do gaucho, livre, rústico e símbolo contrário ao progresso.
O poeta José Hernandez (1834-1886), ao contrário, tratará de exaltar o gaucho, como emblema da argentinidade. O trabalhador dos pampas aparecerá como personagem principal de obras como "O gaúcho Martín Fierro", onde recrutado à força para a guerra contra o índio, é vítima de arbitrariedades, se tornando desertor, e depois assassino e ladrão.
O que queremos dizer citando esses autores é que a literatura latino-americana (principalmente do século XIX) possui temáticas, aspectos e um ambiente que, de fato, a torna única, com uma linguagem única. Ora, estamos falando de produções artísticas que retratam as tensões e debates gerados por acontecimentos até então únicos na história (o colonialismo, os processos de independências e, subseqüentemente, os processos de construções das nações americanas). É obvio que essas produções vão estar recheadas de apelos políticos, de críticas, de idéias e de denuncias. Os três autores citados acima são apenas alguns exemplos da infinidade de escritores que se dedicaram (cada um da sua forma) a buscar soluções e a entender suas nações e a América.
Quando adentramos ao século XX, após a normalização da vida política da América Latina, a literatura latino-americana atravessou um processo de mudança, passando a tratar de temas universais. Ao longo dos anos, passou-se a produzir uma obra literária capaz de despertar a admiração internacional. Entretanto, falarmos de uma literatura cosmopolita, de uma literatura que agora não mais se dirige a denuncias e a conscientização (como a do século XIX) não significa falarmos de uma literatura que perdeu seu reconhecimento enquanto latino-americana. Apesar de termos consolidado a nossa independência e as bases de nossas nações, os processos vividos pela América Latina no século XIX não se esvaziaram. Como bem afirma Julio Cortázar em seu ensaio “A literatura latino-americana à luz da história contemporânea”: É obvio que a maioria dos novos escritores latino-americanos percebe que a sua literatura participa de um ciclo vital e histórico que chega bem além das funções bastante restritas que a tradição clássica ou acadêmica atribuía à literatura” [7] (sublinhados meus). Na verdade, ser escritor na América latina é falar também de si. É falar de vivencias que os próprios literários fazem parte. Essa talvez seja a grande peculiaridade da literatura latino-americana: O literário, “além de ser escritor é um argentino ou um panamenho ou um boliviano” [8]
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[1] Pratt, Mary Louise. “Reinventando a América/ Reinventando a Europa: a auto-modelação crioula.”, in Os Olhos do Império: relatos de viagem e transculturação; EDUSC, Bauru, p.295-335
[2] Pratt, op. cit., p.300
[3] Pratt, op. cit., p.301
[4] Pratt, op cit., p.322
[5] Fuentes, Carlos. O Espelho Enterrado. Rio de Janeiro: Rocco, 2001
[6] Sarlo, Beatriz. “Intelectuais”, in Cenas da Vida Pós-Moderna, Editora URFJ, RJ, 2004, 3ª edição, pp.159-182.
[7]CORTÁZAR, Julio. “A literatura latino-americana a luz da história contemporânea” in Obra Crítica, v. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 187.
[8] Idem, Ibidem, p 189.
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