segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma Reflexão Sobre a Filosofia Arqueológica Nazista

Trabalho desenvolvido no segundo semestre de 2009 para o Tópico sobre História e Cultura Material ministrado pela Prof. Dra. Aline Vieira de Carvalho.

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Recentemente a arqueologia nazista vem sendo amplamente discutida pela academia ocidental, sobretudo por teóricos pós-processualistas que se interessam não apenas pelo profundo questionamento teórico da própria disciplina como procuram também revelar o desenvolvimento histórico interno a prática arqueológica desde o seu surgimento até os nossos dias. As novas perspectivas e formas de abordagem da arqueologia, que acompanham uma mudança mais ampla no desenvolvimento da pesquisa histórica, têm trazido questionamentos que em muito contribuem para repensarmos a subjetividade na interpretação dos documentos e o caráter político implícito a toda produção científica.
Todavia, inerente a qualidade da grande gama de produções atuais, vez por outra temos nos deparado com um problema recorrente no pensamento teórico. Trata-se de posicionar um inimigo, muitas das vezes estereotipado, que em seus contornos gerais se opõe a tudo o que o pensamento teórico a ser desenvolvido pretende que acatemos. Esse inimigo funciona, muitas vezes, como um catalisador de todas as concepções negativas que aquela argumentação deseja negar.
Em nossos dias, os mais variados grupos tem constantemente recorrido ao nazismo para expressar, por contraste, tudo aquilo que eles não são. O período nazista ocupa na atualidade a posição (necessária para toda sociedade) de ser o “outro” que deve ser recriminado para que eu possa definir minha própria identidade. É em torno do conceito do que teria sido o nazismo que aproximamos as características que pretendemos criticar na sociedade atual. Estranhamente, se é que é possível expressar desse modo, os nazistas ocuparam na sociedade de hoje o papel que por vários séculos na Europa foi atribuído aos judeus: catalisadores simbólicos de tudo o que julgamos negativo em nossa sociedade.[1]
É óbvio, não há nada mais longe do nosso intuito do que defender aquele horrível governo que nos assusta só de pensarmos na possibilidade de seu retorno. Mas pela própria natureza desgraçada do nazismo achamos que os pensadores modernos deveriam ter mais cuidado ao relacionar pessoas e grupos contemporâneos a aquele trágico governo. Digo isso porque há certo consenso entre os historiadores que trabalham com o tema da arqueologia nazista em relacionar a grande maioria da produção arqueológica desenvolvida até nossos dias como sendo uma arqueologia feita nos moldes do nazismo. Isso é, sem dúvida, uma afirmação que, a partir de um conceito fechado e estereotipado do que era a arqueologia nazista, fecha os olhos para a diversidade da produção acadêmica, seus diferentes objetivos, meios, métodos e contextos de produção.
Em um artigo publicado no livro Nationalism, politics, and the practice of archaeology[2], Bettina Arnold e Henning Hassmann defendem que “o sistemático e institucionalizado abuso da arqueologia para fins ideológicos e políticos durante o Terceiro Reich contribuiu significantemente para o desenvolvimento da arqueologia alemã após a guerra”[3], afirmando ainda que “a atual rejeição da arqueologia processual por parte dos arqueólogos alemães é devido principalmente a racial e nacionalista deformação da teoria e interpretação feita pelo regime Nacional Socialista”[4]. De fato, há problemas teóricos na arqueologia alemã em nossos dias, mas é no mínimo precipitado tomar tais questões como decorrência de uma discrepância absurda na prática arqueológica ocorrida por um tempo relativamente pequeno naquele país. É necessário retomar o contexto da produção arqueológica desde suas origens e mostrar que ela passou por etapas que tinham objetivos diferentes e perspectivas variadas, gerando de forma diversa a atual arqueologia presente na Alemanha.
Uma critica nesse mesmo sentido pode ser feito em relação à afirmação de Laurent Olivier em um artigo publicado no livro: Identidades, Discurso e Poder:

A Arqueologia européia, e notadamente a pré-história recente da Europa, foram profundamente infectadas pelo nazismo [...] os conceitos sobre os quais de funda a disciplina, os dados mesmo sobre os quais ela funciona, são intimamente ligados a noções e materiais elaborados inicialmente em uma perspectiva nacional-socialista. Esses elementos não estão incrustados, como corpos estranhos, no funcionamento da disciplina: eles estão fundidos e amalgamados.[5]

E segue um pouco adiante na mesma linha de raciocínio:

Tanto que nós acreditamos na existência de tais “fatos” arqueológicos, tanto que nós persistimos em pesquisar, nos materiais arqueológicos, o testemunho da identidade étnica e cultural dos “povos” do passado; nós não escapamos da maldição do nazismo, cujo coração ardente ainda bate, enterrado sob os escombros da velha Europa.[6]

Essa afirmação revela uma simplificação extrema do que é o nazismo. Parece que a único erro daquele governo foi dividir o mundo em raças. O nazismo também é isso, mas de maneira alguma é apenas isso. Em decorrência o autor acaba por aproximar toda prática arqueológica que articula a pesquisa em termos de identidades étnicas coletivas como sendo necessariamente uma conseqüência do nazismo. Quando a complexidade da história por trás desse tipo de abordagem étnica da materialidade é muito mais complexa e remonta ao século XIX. A arqueologia surgiu junto com o nascimento dos estados-nação modernos e, em decorrência, com o desejo de identificar os antepassados daquele grupo através da materialidade.
É bastante ilustrativo também o fato de que Sian Jones inicia seu livro The Archaeology of ethnicity[7], que pretende repensar a relação entre a arqueologia e a construção de identidades coletivas, citando como exemplo ilustrativo em sua introdução o caso das políticas de manipulação do passado da Alemanha nazista. E diz que, “independentemente se fazem ou não referência ao passado da população ou grupos étnicos, o mesmo paradigma básico que era usado na Alemanha nazista também formou a rudimentar estrutura das investigações arqueológicas no mundo”[8]. É interessante que, apesar da veracidade de sua colocação, Jones tomou como exemplo maior para ilustrar toda uma forma de prática arqueológica desenvolvida das mais diversas maneiras no último século justamente a que mais causa constrangimento para os pesquisadores. Usar a arqueologia nazista como exemplo acaba por atrelar a perspectiva teórica criticada toda uma série de significados negativos que não necessariamente lhe pertencem inicialmente.
De qualquer modo, a arqueologia nazista possui certamente características próprias que as tornam reprováveis e devem servir como exemplo de algo que não deve se repetir. Porém, a situação da arqueologia nazista deve ser pensada em seu contexto específico de produção. Para tanto passarei a discorrer sobre as características ideológicas gerais do partido nazista e sua forma de se relacionar com a verdade e a ética, para, em seguida, mostrar como essa ideologia influenciou o posicionamento do partido em relação à ciência, sobretudo a arqueológica.

O partido Nacional-Socialista surge em meio a uma atmosfera de profunda desordem em que se encontrava a Alemanha do período. Porém, ao contrário dos outros partidos ele não nasce de uma oposição racionalmente definida para com a política instituída, mas como uma reação profundamente sentimental. Tais sentimentos surgiram em quase toda a população como reação de ódio, em grande medida nacionalista, diante da derrota na guerra, da pobreza de uma forma geral e da penetração de costumes “estrangeiros” que estavam supostamente fragmentando os valores e estruturas sociais existentes. Interpretando a situação da Alemanha no período os nazistas veiculavam a idéia de que os problemas da Alemanha eram em decorrência das influencias de outras raças, como os judeus, que estavam corrompendo o verdadeiro espírito alemão. Seria necessário então que a raça ariana se levantasse para combater contra essas influencias maléficas.
A defesa da racionalidade assim como da democracia eram vistos pelos partidários do nazismo como estando diretamente relacionados a essa penetração de ideais estrangeiros contrários a essência do povo alemão, muito mais vinculada aos sentimentos. Por isso, para os nazistas, pouco importava debater com os outros partidos, o principal era levar os alemães a um profundo sentimento de vinculo com o partido, que se propunha como o único que lutava pelos interesses da nação. Defender o partido nazista era, para muitos, defender a nação alemã. Assim, como diz o historiador Robert Paxton[9] o nazismo deve ser explicado a partir da instalação de um estado de espírito comum em torno de um conjunto de paixões mobilizadoras e não por uma filosofia explícita e plenamente consistente.
A teoria biológica desenvolvida pelo nazismo a partir do darwinismo social entre as raças é de todo complementar ao forte sentimento nacionalista do grupo e está totalmente associado à possibilidade do nazismo superar o próprio racionalismo oferecendo novas possibilidades de ação. Essa teoria revela as características fundamentais do nazismo. Em primeiro lugar, o direito do povo eleito de dominar os demais sem limitações de qualquer natureza, sejam elas impostas por leis humanas ou divinas. Depois, a primazia do grupo, em relação ao qual as pessoas tem deveres superiores a quaisquer direitos, e a subordinação do individuo a esse grupo. E, por fim, a necessidade da autoridade dos líderes naturais, culminando num chefe nacional que é o único capaz de encarnar o destino do grupo e cujo instinto é superior a qualquer racionalidade. Hitler acreditava que ele seria capaz de levar o povo a obedecer a cumprir o destino da raça ariana.
A essência por trás de todas as motivações e ações dos nazistas era a raça. Eles colocam a luta grosseira pela sobrevivência e o direito do mais forte, no caso, a raça ariana, de dominar sobre as outras nações, como algo evidente em si mesmo e inquestionável. Para os nazistas, era dever do povo alemão obedecer a esse instinto acima de qualquer coisa. Essa lógica foi levada ao extremo de tal forma que qualquer noção de justiça ou moral passou a ser subordinada aos benefícios da raça. Ou seja, a moral deixou de ser baseada numa noção de bem ou mal universais ao qual todos devem se submeter e procurar seguir. Todos os valores foram quebrados ou colocados em segundo plano para dar lugar ao beneficio de uma raça em detrimento das demais. Nesse mundo cujo princípio fundamental de todas as coisas está no plano biológico, que, guiado pelas leis da natureza, luta instintivamente pela dominação do forte sobre os fracos, não há mais nada que tenha valor, exceto o grau de poder sobre os demais.
Tendo desprezado a racionalidade e abandonado toda moral os nazistas se viram livres “criar” algo novo a partir da reconfiguração da tradição (ou também, da história). Nada mais os impedia de arrancar de seu contexto um ou mais preceitos simplesmente porque esses chamaram sua atenção por meras circunstâncias emotivas em determinado momento, hipertrofiá-los até a loucura e usá-lo para os fins de sua vontade. Desde então eles poderiam lidar com a tradição sem ter de se sujeitar a seus princípios fundamentais, poderiam selecionar o que lhes era útil e o que poderia ser desprezado. Mas sem se conformar apenas com a própria “liberdade” criadora adquirida os nazistas ainda quiseram manipular nas pessoas aquilo que esperavam ou desejavam da sociedade. Verdadeiros sentimentos nos indivíduos foram encorajados simplesmente para produzir vontades de acordo com o desejo do partido. Isto é, criaram nos outros por sugestão ou feitiço uma miragem sentimental porque isso supostamente é bom para a comunidade: eis a propaganda.

Eis o contexto particular que o nazismo criou. Enquanto a proposta da ciência no período era descobrir a verdade através de uma análise pretensamente racional e neutra da realidade chegando assim a interpretação correta. No nazismo, ao contrário, é de pouca importância a veracidade da pesquisa, a ênfase está no efeito que ela poderá gerar quando for recebida pela sociedade. Assim, a prática da pesquisa é em grande medida falsa, pois existe ali tão somente para confirmar a teoria pré-estabelecida. Desse modo a ciência só deveria ser produzida de como um meio para fundamentar a ideologia do partido, e essa ideologia serviria para a sustentação do poder político do partido através da propaganda. Se as pesquisas em campos como a antropologia, a biologia e a arqueologia conseguissem demonstrar de alguma forma, ainda que falsa, a superioridade da raça alemã, não seria difícil convencer a população, até mesmo estrangeira, se seu suposto direito de dominação sobre as sobre as raças ditas inferiores. E se a população assumisse essa ideologia nada iria tirar o nazismo do poder.
É verdade que, como está claro nos nossos dias, toda ciência parte, a princípio, de uma ideologia. Mas a consciência desse fato não deve levar o pesquisador a uma espécie de manipulação dos dados e da metodologia para a ostentação de determinado ponto de vista que lhe é próprio. Por mais que saibamos acerca da subjetividade na interpretação a pesquisa deve sempre procurar se subordinar aos dados encontrados e não organizá-los da maneira que melhor convém a ideologia. O que o nazismo fez foi justamente inverter, ao invés da verdade científica ser o objetivo último da pesquisa ela passou a ser um meio para defesa de determinados ideais, naquele caso, extremamente perversos.
Assim sendo, o papel atribuído a arqueologia no período do Terceiro Reich foi o de demonstrar “cientificamente” as ações e realizações dos antepassados germânicos e fazê-los relevantes para a política do partido. Ao que parece os pesquisadores da época tinham bastante consciência do que estava acontecendo, consciência cada vez mais clara à medida que o partido se fortalecia no poder. Há bastante consenso entre os historiadores do assunto[10] que muitos estudiosos e instituições de pesquisa resistiram, ainda que timidamente, as tentativas de doutrinação do partido e lutaram com sucesso contra novas organizações nazistas como a Amt Rosenberg, principalmente através da própria pesquisa acadêmica. Mas a grande maioria dos pesquisadores se manteve neutros e sem um posicionamento claro em relação ao regime. Porém, é certo que alguns estudiosos da academia foram infectados com o vírus da ideologia nazista. Os motivos, além da pressão de um governo totalitário, estão associados também a possibilidade de ascensão e obviamente ao posicionamento ideológico.
A condição de desenvolvimento da arqueologia nazista foi certamente facilitada pelo por várias das pesquisas que já vinham sendo desenvolvidas na área até aquele momento e que tinham um caráter fortemente racista e nacionalista baseado em grande parte em pseudo-acadêmicos como Gobineau, Chamberlain, Riehl e principalmente, Gustav Kossinna. Assim como todo o nazismo, a arqueologia do período, não surgiu ao acaso, mas foi possibilitada por um processo interno a própria disciplina que em grande medida dava sustentação, ao menos teórica, ao tipo de pesquisa que o nazismo pretendia realizar.
O nome do filólogo e pré-historiador Gustav Kossina está intimamente ligado a interpretação étnica da arqueologia nazista mesmo tendo morrido antes da ascensão de Hitler ao poder. Suas teorias sobre as origens e superioridade racial dos germanos foram quase completamente adotadas pelo regime nazista. A premissa fundamental desse autor era que os artefatos materiais poderiam ser usados para identificar e distinguir culturas étnicas. Esses grupos étnicos poderiam ser facilmente seguidos do presente até a sua origem pré-histórica através de uma genealogia direta representada na materialidade. Foi assim que Kossina delineou a descendência da raça alemã dos Indo-europeus e a continua expansão desse povo para novas áreas ao longo da história. Com a ascensão do Nacional-Socialismo o trabalho de Kossina foi elevado a posição de dogma para sustentar o mito da grande raça ariana.
Durante o Terceiro Reich a arqueologia recebeu um considerável apoio do estado. O braço direito de Hitler e comandante das SS, Heinrich Himmler, criou a Deutches Ahnenerbe para dar suporte institucional as pesquisas que deveriam buscar vestígios que provassem a posição proeminente dos arianos desde o inicio da civilização. Um de seus objetivos principais era produzir uma gloriosa história do passado ariana para trazer orgulho a nação alemã. O instituto financiou várias expedições para descobrir as raízes do povo ariano, a mais conhecida delas foi para o Tibet em 1938, mas houve outras tentativas nos lugares mais variados como a Escandinávia e até a Islândia. A maioria dos membros do Ahnenerbe eram os próprios soldados da SS, sem nenhum conhecimento na área de arqueologia. De qualquer forma, em todos os casos os compromissos ideológicos claramente suprimiam a integridade intelectual.
Outras pesquisas arqueológicas nazistas buscaram em períodos mais recentes os testemunhos das fases sucessivas de germanização do espaço europeu. Esses arqueólogos acreditavam, assim como Hitler, que era apenas a evolução tecnológica e cultural da raça ariana que conduziu o desenvolvimento da pré-história européia em seu conjunto. Supondo que determinados vestígios materiais pertenciam a raça alemã devido ao seu maior desenvolvimento tecnológico, procuravam a área de abrangência da cultura germânica nos mais diversos períodos da antiguidade. Fora da Alemanha a pesquisa arqueológica desses períodos pretendia por em evidência sucessivos movimentos de colonização germânica naqueles territórios; com a possibilidade de um antigo pertencimento daquela área aos povos germânicos e a suposta existência de pessoas de raça alemã naquela região, justificava-se a invasão do território.
Desse modo as pesquisas podiam dar um importante tempo e profundidade para um necessário passado longínquo mítico, enquanto a distribuição geográfica da cultura material poderia ser usada para mapear a etinicidade, provendo a justificação da expansão territorial. Assim, afirmando a unidade e continuidade de sangue entre os grandes alemães do passado e seus contemporâneos o discurso arqueológico nazista fortaleceu a unidade do povo alemão, o orgulho nacional e a disposição pelo sacrifício em nome da raça e ainda sustentou idéias que favoreciam programas de eugenia. Como se não bastasse a criação dessas crenças na força do povo alemão os nazistas também buscaram denegrir as outras raças. Os eslavos foram apresentados como um povo primitivo baseado em sua suposta preferência em caçar e pescar ao invés de estabelecerem a agricultura tal como os alemães. Já os judeus foram representados como aqueles que trouxeram a degradação moral ao território alemão, como em uma pesquisa arqueológica que determinadas figuras com o falo ereto são interpretados como desenhos de judeus estrupadores.[11]
Tais pesquisas foram transmitidas para a população alemã de várias maneiras sendo a educação escolar uma das principais. Havia ainda documentários e filmes de propaganda, programas de rádio, leituras públicas, expedições em museus que reconstruíam o estilo de vida em outras épocas e revistas públicas como Die Kunge e Germanen-Erbe. Uma forma bastante utilizada no período eram pôsteres representando o cotidiano da vida de alemães nos períodos passados. Essas figuras mostram uma sociedade harmônica e agrária, tal como era romantizada por muitos nazistas. As relações de gênero também são fortemente marcadas, o homem como criador e guerreiro era sempre mostrado com alguma arma ou instrumento de trabalho na mão; já a mulher era representada como a mãe, aquela que reproduz e cuida dos filhos. Tais ilustrações que também tinham uma suposta base arqueológica eram feitas com o intuito de doutrinar a população quanto ao tipo ideal de vida que a sociedade deveria resgatar. Aquela sim era a vida feliz em que o povo vivia confortavelmente junto com sua raça em tempos imemoriais. Mas enquanto os alemães viajavam em suas belas fantasias os judeus eram fuzilados em campos de concentração.

Apesar de todos os problemas decorrentes da relação direta entre a materialidade e a identidade coletiva, tentei deixar claro nessa minha exposição que é necessário desvencilhar esse modo de pensar a arqueologia como sendo uma prática nazista de pensar o passado. Se há uma herança deixada pela arqueologia nazista ela está vinculada a uma forma consciente e planejada de sustentação de poderes políticos no presente através da manipulação dos dados da pesquisa. Ou seja, o problema principal não é o discurso de que há diferentes raças ou mesmo que haja uma hierarquia entre as raças, isso é evidentemente uma concepção equivocada de mundo, mas a raiz do problema é outro, é o uso e manipulação do discurso construído de forma ao menos pretensamente científica com uma finalidade de ostentação e luta pelo Poder.

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[1] BAUMAN, Z. “Modernidade, racismo e extermínio I” In: Modernidade e Holocausto. RJ, Jorge Zahar, 1998.
[2] ARNOLD, Bettina; HASSMANN, Heaning. “Achaeology in Nazi Germany: the Faustian bargain” In: KOHL, Philip; FAWCETT, Claire. Nationalism, politics, and the practice of archaeology, Cambridge: University Press, 1995.
[3] Idem. p. 70
[4] Idem p. 71
[5] OLIVIER, Laurent. “A Arqueologia do 3º Reich e a França: notas para servir ao estudo da ‘Banalidade do Mal’ em Arqueologia” In: FUNARI, Pedro Paulo Abreu; ORSER, Charles; SCHIAVETTO, Solange: Identidades, Discurso e Poder: estudos da arqueologia contemporânea., São Paulo: Annablume-Fapesp, 2005. p. 192
[6] Idem p. 192
[7] JONES, Sian. “Introduction” In: The Archaeology of Ethnicity – Constructing identities in the past and present. New York: Routledge, 1997.
[8] Idem p. 5
[9] PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
[10] MAISCHBERGER, Martin. “German Archaeology during the Third Reich, 1933-45: a case study based on archival evidence” In: Antiquity, March 2002.
[11] ARNOLD, Bettina. “‘Arierdammerung’: race and archaeology in Nazi Germair” In: World Archaeology – Race, Racism and Archaeology. Vol. 38, pp. 8-31, 2006.

2 comentários:

Anônimo disse...

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Vinicius Botucatu disse...

Eh Silas como eu já previa vc iria muito sobre nazismo neste 2º semestre, eu tbm tenho um artigo sobre nazismo se quiser dar uma olhada depois....