sábado, 1 de agosto de 2009

Uma Comparação entre o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha

Mais uma do tópico do fascismo.














2) É correto considerar o fascismo italiano e o nazismo alemão como duas manifestações de um mesmo fenômeno?

Introdução

Para uma análise comparativa do fenômeno fascista na Itália e nazista na Alemanha é necessário uma compreensão de sua mais profunda estrutura. Como o historiador Robert Paxton demonstrou, o fascismo não possui uma essencia fixa, mas se configura de forma específica conforme a sociedade em que se encontra seguindo de forma absurda a lógica maquiavélica de que os fins justificam os meios. Para alcançar a finalidade em questão o fascismo é capaz de fazer as mais diversas alianças e as mais diversas doutrinas desde que essas ajudem a levá-los a seus objetivos. Ao que parece os fascismos deram certo segundo a sua capacidade de adaptar o discurso a sociedade na qual pretendiam estabelecer o governo e fazer as devidas alianças e concessões aos grupos que precisavam para alcançar o poder. Portanto, antes de nos determos na análise especifica do fenômeno na Alemanha e na Itália pretendemos demonstrar o que, para nós, configura a estrutura de pensamento básico que determina o que vêm a ser o fascismo nas suas mais diversas configurações.
O fascismo, a princípio, ao contrário das outras alternativas de governo surge como uma resposta emotiva e não racional a situação de suposta ou real degradação em que a sociedade se encontra. Logo, não podemos explicar racionalmente o fascismo de forma satisfatória sem antes esclarecermos os sentimentos que o originam. Em todos os casos o fascismo está intimamente ligado aos mais profundos sentimentos nacionalistas de vículo e amor para com o povo ao qual o individuo pertence. Derivado desse sentimento, a princípio nobre e humano[1], surge uma reação emotiva de profundo ódio para com todos aqueles que são considerados os inimigos da nação. O fascismo é uma forma conduta cuja preocupação maior está vinculada a decadência e humilhação da comunidade, vista como vítima de algum inimigo, no qual é descarregado um ódio violento. Crendo que as soluções tradicionais, em grande medida baseadas em certos princípios racionais, são fracos e incapazes de conter a suposta agressão inimiga esses grupos organizam uma oposição de luta em torno de um partido que valoriza o sentimento de unidade, energia e pureza da nação, age violentamente em relação aos inimigos e se diz capaz de restaurar a glória e a grandeza nacional.
Outra característica fundamental de caracterização do fascismo nos lugares em que este se desenvolveu é aquilo que podemos chamar de niilismo criativo. Tal característica é provocada pelo desprezo a tudo o que possui um valor em si como princípio a ser preservado, seja no âmbito racional ou no âmbito sentimental, é o desprezo por qualquer valor absoluto a não ser o plano biológico de existência material. Nessa lógica o individuo não possui qualquer dever em obedecer um principio superior ao qual os humanos devem seguir[2]. Ao se libertar da necessidade de corresponder a esse princípio exterior devido a própria descreça em sua existência os niilistas devem escolher entre dois caminhos: o nada ou a criação de algo “novo” em benefício a única existência real que restou: a existência biológica do ser em si.
No limite tal desprezo pela verdade até a loucura leva a uma condição que a própria nação perde sua mística e valor para passar a ser um grupo biológico. Mesmo os sentimentos de amor e de ódio iniciais do movimento a favor de um bem coletivo chegam a um momento que perdem seu valor. O que importa é que a manipulação de tal sentimentalismo nos outros poderia levar a satisfação de um desejo pessoal e, em certos casos, supostamente coletivo, de êxito e poder. Para chegar ao domínio livre e totalitário de poder os fascistas faziam os mais diversos acordos políticos com os grupos instituidos, distorciam toda a tradição e moral, manipulavam o sentimento da população e criavam novas ideologias “verdadeiras”. Ao fim toda a política estava organizada para satisfazer os aleatórios desejos de poder e dominação do indivíduo que por sua vez era conduzido unicamente por seus instintos.
Feitas essa considerações poderemos agora nos deter numa análise mais detalhada do fascismo italiano e do nazismo alemão e mostrar que ambos esses movimentos são a manifestação de um mesmo fenômeno ainda que em alguns momentos a aparência exterior seja divergente em certas questões de doutrina e conduta de modo a se adaptar melhor ao contexto no qual o movimento está inserido.

O Fascismo na Itália

O fascismo nasceu na Itália em 1919 quando um grupo composto de veteranos desmobilizados, sindicalistas que haviam apoiado a guerra e intelectuais futuristas se reuniram para declarar guerra ao socialismo em razão desse ter se oposto ao nacionalismo. Retirando o sentimento de nacionalismo e o ódio aos socialistas pouco há que una esses três grupos em um único movimento. Os veteranos de guerra acompanhavam Mussolini e se sentiam no direito de governar o país pelo qual haviam lutado. Os sindicalistas traziam consigo um carater revolucionário e um desejo por uma profunda reestruturação social na Itália. Por fim, os futuristas desejavam a destruição da sociedade vigente e pensar novas possibilidades, que confere o principal carater diferencial do movimento em relação a outros semelhantes.
Os futuristas eram uma associação livre de artistas e escritores que apoiavam os manifestos futurisas de Filippo Tomaso Marinetti. “Discutindo diante dos limites extremos da lógica” Marinetti fala sobre a necessidade de romper violentamente com tudo o que é associado com a tradição. Repudiava o legado cultural do passado reunidos nos museus e nas bibliotecas como antiquarios sinônimos de morte. Afirma como base do movimento uma reação violenta contra a religião e a moral cristã que para ele é inconsciente, esnobista do passado e que prega a renúncia. Ao invés disso deseja que todas as coisas se prostrem diante do homem. Afirma o poder da vontade e glorifica os atributos e desejos da juventude: a coragem, a energia, a velocidade, a violência, o desejo de ir além para arrombar as portas do Impossível. Em lugar da tradição o futurismo pretende criar novas possibilidades, despertar sensações novas e desenvolver os valores emotivos.
O futurismo nos oferece ocasião para tratar do controvertido filósofo que muito influenciou a Benito Mussolini e, em grande medida os próprios futuristas, Friedrich Nietzsche. Apesar de todas as controvérsias a teoria do pensador alemão apresenta uma teoria geral que muito influenciou os fascismos. Nietzsche desejava uma superação do homem através do super-homem, alguém espiritualmente livre que, através da sede de poder e rejeição, rebeldia e rebelião contra os velhos ideais e códigos morais entraria em um continuo processo de superação a partir da criação de novos valores próprios. A questão é que partindo da filosofia de Nietzsche nada temos a condenar em nenhum dos fascismo, pois a própria característica básica de tal filosofia é se colocar acima do bem e do mal. Ora, se não há nenhum absoluto maior no qual se baseie os principios de justiça, não podemos dizer que subordinar, controlar e matar milhões de pessoas é, necessariamente, ruim. O que Mussolini fez foi aproveitar-se da suposta liberdade do super-homem, livre para fazer e criar o que bem entende pelo seu próprio desejo irracional e natural de poder.

Mas o fascismo em seus primórdios ainda era um tanto misturado. Tinha um anseio de expansionismo, prometia a perseguição violenta aos inimigos da nação, atacava a propriedade e a exploração burguesa, propos maior igualdade e desprezava a sociedade estabelecida. Logo depois de fundado um grupo fascista invadiu o escritório do jornal socialista Avanti onde feriu muitas pessoas e matou quatro delas, desse modo, o fascismo “inrrompeu na história por meio de um ato de violência contra não apenas o socialismo como também contra a legalidade burguesa, em nome de um pretenso bem nacional maior”. Logo a violência foi organizada por um grupo de seguidores de Mussolini denominados squadrismo. Sua tática era atacar os que a seu ver eram inimigos da nação italiana, acima de tudo, os socialistas. Nessas investidas muitos grupos como os proprietários de terra e a polícia local não só concordavam como colaboravam com os fascistas. Os puristas do movimento que discodava dos rumos que o partido havia tomado acabaram ou por sair do movimento ou foram expulsos, sendo substituidos por filhos dos proprietarios, policiais jovens e oficiais do exército. Tal fator alterou a composição social do movimento em direção a direita, mas o fascismo ainda preservava sua qualidade jovial e “revolucionária”.
Mussolini optou por adaptar seu movimento segundo as oportunidades que surgiam. É certo que o líder italiano muito se inspirou no que leu na obra de Friedrich Nietzsche que apesar de todas as controvérsias apresenta uma teoria geral que muito influenciou os fascismos. Nietzsche desejava uma superação do homem através do super-homem, algém que, através da sede de poder e rejeição, rebeldia e rebelião contra os velhos ideais e códigos morais entraria em um continuo processo de superação reavaliando a parti da criação de novos valores.

O chefe sentia-se destinado a governar e lançou-se politicamente, com impressionante habilidade tática, a se transfomar em um participante indispensável na competição pelo poder político na Itália. Essa pretensão levou Mussolini a converter seu movimento em um partido político, desagradando a muitos de seus seguidores que acharam que o movimento estava perdendo seus principios iniciais para se conformar com o parlamentarismo burguês. Mas para Mussolini tais concessões e mudanças, assim como saber lidar com os diferentes interesses econômicos e sociais, ainda que esses confrontassem a política nacionalista do partido, pareciam necessárias para a finalidade do poder. No período de 1920 a 1922 houve sensíveis mudanças na orientação do grupo: desapareceram muitas das reivindicações a favor dos trabalhadores, Mussolini tentou a reconciliação com o catolicismo e amenizou seu republicanismo inicial. Assim, o movimento foi sendo remodelado conforme a imposição das necessidades.
Logo o líder fascista percebeu que além de esclarecer prioridades e tecer alianças era necessário um novo estilo político que atraísse os eleitores. Com alguns ajustes a proposta fascista veio a tocar muitos desejos que os italianos sentiam no período. Ao invés de se apresentar como apenas mais um partido que iria dividir ainda mais a sociedade e o cenário político os fasistas prometiam unir o povo o povo debaixo de uma liderança que trabalharia em beneficio da sociedade alemã. Além disso se apresentavam como o único caminho não socialista para a necessária renovação política. O chefe discursava uma proposta de revolução contra o socialismo e o liberalismo flácido, um novo tipo de autoridade governamental capaz de subordinar as liberdades privadas às necessidades da comunidade nacional. Era hábil em criticavar a tudo que a população de fato discordava e apresentava uma Itália unida e triunfante sem necessariamente mostrar o caminho para alcançar esse ideal.
Mussolini ainda se apropriou da teatralidade pública com discursos bombasticos proferidos carismaticamente e organizou a coesão aparente do partido com uniformes e forma própria de saudação. Mussolini tinha a retórica necessária para extrair apoio diretamente da vontade popular manifestada em comícios de massa por meio de uma misteriosa comunicação do chefe com sua raça. Esse status único e místico colocava o líder como a encarnação da vontade do povo e o portador do destino desse povo, uma espéciede messias dotado de poderes pessoais extraordinarios que surgiu para a redenção da nação.
No decorrer de 1922 os squadristi exacerbaram sua atuação de tal forma que Roma não poderia deixar de ser a próxima meta. A marcha sobre Roma foi liderada por quatro militantes que representavam as diversas cepas do fascismo, mas o próprio Mussolini, prudentemente esperou em Milão. No entanto parece certo que as tropas fascistas chegaram a Roma mal-armados, com pouca comida e água e desgastados, facilmente o exército nacional poderia suprimir a revolta. Mas no último minuto, o rei Vittorio Emmanuel III recusou-se a usar a força para expulsar os Camisas Negras de Roma. Em vez disso o rei ofereceu o cargo de primeiro-ministro ao jovem líder fascista que viera do nada. A melhor explicação é que, se o governo usasse a força para dispersar os revoltosos correria o risco de ter de suportar amargas e perigosas dissensões internas.
A grande crise pela qual passava a Itália no período, crise que os próprios fascistas haviam alimentado, tornava o momento por demais anormal. Os líderes conservadores tiveram de decidir se tentariam cooptar os fascistas ou empurrá-los de volta a marginalidade. Na Itália eles preferiram “transformar” Mussolini a disciplina-lo. Os líderes conservadores concluiram que o que os fascistas tinham a oferecer superava em muitos as desvantagens de tê-los junto ao governo: o fascismo tinha uma base de massas suficiente para permitir que os conservadores formassem maioria parlamentar, ofereciam uma nova forma de engajamento e disciplina com cara jovem e pareciam apresentar soluções para contenção das esquerdas e assim restaurar a desejada ordem e o poder dos conservadores. Esse período em que conservadores e fascistas dividiram o poder foi uma época tensa para ambos os lados, mas tanto um lado como o outro estava dispostos a fazer os acordos necessários e serem cumplices uns dos outros. Tal período criou muitas tensões para Mussolini que, se por um lado tinha de negociar o poder com a elite política conservadora, por outro seus seguidores o acusavam de acomodação e de trair seus principios.
Mas Mussolini desejava ir além, queria a autoridade pessoal ilimitada. Isso ocorreu mais definidamente a partir de 1925 quando, pressionado pelo Duce o parlamento aprovou uma série de Leis para a Defesa do Estado, que fortalecia o poder da administração, submetia a imprensa a censura, restituia a pena de morte e dissolvia os partidos. Os conservadores aceitaram o golpe interno poque as alternativas pareciam ser a continuidade do impasse no enfrentamento do ministro ou a admissão da esquerda no governo.
Mas ainda aqui as ambições de poder pessoal de Mussolini contrapunham-se em constante tensão tanto às forças tradicionais quanto aos intrasigentes do partido fascista. Ao final o regime fascista italiano decaiu cedendo espaço a um poder autoritário e conservador. As organizações paralelas do partido fascista desempenhou um papel complexo e ambíguo, era ao mesmo tempo um recurso do líder que pretendia levar vantagem contra as forças conservadoras e uma base de poder autônoma que poderia colocar em cheque a supremacia do líder. Nesse jogo de forças Mussolini optou por subordinar o partido ao Estado, com seu poder consolidado declarou o fim da revolução e deu maiores autoridades ao Estado em detrimento ao partido.
Assim, as ações do líder apenas vagamente eram tomadas para defender determinada ideologia, ele agia de modo a aumentar sua situação pessoal de prestígio e poder. Para não se opor muito aos conservadores por vezes o líder teve de tomar medidas que colocavam de lado seu próprio partido. Os radicais, por sua vez, também desejavam poder, ao percebessem que as atitudes do líder estavam se tornando cada vez mais conformistas o pressionavam a radicalização e, em condições favoraveis, não tardariam em tentar depô-lo. O modo como Mussolini chegou ao poder impedia-o de acomodar-se diante do partido e mesmo da sociedade, ele deveria sempre fazer promessas espetaculares de purificar, unificar e energizar sua comunidade com feitos cada vez mais ousados. Mas, ao que parece, tendo sido um jogador ousado durante a tomada do poder Mussolini acabou se revelando um primeiro ministro que preferia a estabilidade à aventura.
O expansionismo a partir da guerra foi a saida encontrada pelo general para manter o carater ativo e dinâmico de seu governo. A luta mostrou ser a fonte de coesão, disciplina e energia do regime, assim foi na guerra contra a Etiópia e na entrada na II Guerra Mundial. Nessas condições em que o jogo de forças política com os conservadores saia temporariamente de cena o fascismo mostrava sua cara mais assustadora e o quanto a lógica do niilismo de poder criativo penetrava todo o partido. Era na ocasião de domínio de um outro povo em terra estranha que todos os preceitos morais políticos e sociais desapareciam dando a possibilidade daqueles céticos inventarem o que desejavam fazer com a população local. Não havia mais nenhum poder político, ainda que dos piores, que poderia refrear suas atitudes arbitrárias diante do desproporcional poder estabelecido em suas mãos.

A Alemanha Nazista

A Alemanha do pós-guerra oferecia um solo fértil para movimentos anti-socialistas que tinham como meta renascimento nacional. O impacto emocional da derrota na guerra e o colapso econômico do país destroçou o orgulho e autoconfiaça nacionais. Veteranos que não tinham para onde ir, sem conseguir encontrar trabalho ou mesmo comida eram presa fácil para o extremismo. Muitos deles agarraram-se ao nacionalismo dos tempos de guerra e se puseram na luta contra os “inimigos internos”, os socialistas. O cabo Adolf Hitler, já em 1919 veio a se juntar a um dos muitos movimentos nacionalistas que surgiram desde então, o Partido dos Trabalhadores Alemães, que mais tarde Hitler alterou o nome para Partido nacional-socialista. De inicio seu programa era uma mistura de nacionalismo, anti-semitismo, ataques a lojas de departamentos e ao capitalismo internacional.
Grande parte dos partidários do movimento eram jovens que reagiam com entusiasmo à nova espécie de política anti-política do nazismo e a intensa fraternidade de emoção e esforço do grupo. O partido em si era bastante diversificado, podia-se encontrar boêmios, operários, intelectuais e artistas. O que os unia eram certos valores sentimentais, muitas vezes, comuns na Alemanha do período: desprezo pela cansada política burguesa, hostilidade com relação a esquerda, nacionalismo fervoroso, idéia de que a sociedade estava se degradando e perdendo suas raizes e tolerância a violência, quando necessário.
No nazismo o nacionalismo é direcionado e explicado por diretrizes mais amplas de base biológica. São os princípios básicos do darwinismo que entende a vida como uma constante luta pela sobrevivencia na qual o mais apto deve prevalecer que são transportados para o campo social da comunidade. Para muitos fascistas as questões relativas a racionalidade e a emotividade estão subordinadas ao principio mais amplo da preservação da espécie. Esses elementos são pensados não como um fim em si, mas devem ser usados como meio com o objetivo do grupo conquistar o topo da hierarquia entre as raças dominando os demais.
Como uma invenção nova criada para a subordinação da nação aos “deveres” para com a raça o fascismo teve de formular maneiras de subjugar a nação a esse ideal. Para tanto buscou apelar para ações que gerassem reações emocionais no povo, tanto seu amores e prazeres quanto seus maiores ódios. Manipula-se tanto os desejos emocionais do povo quanto suas capacidades racionais com a finalidade de produzir neles um estado de espírito que pudesse ser de todo controlado pela política totalitária. Dessa forma o próprio conceito de verdade perdeu todo sentido deixando de ser o objetivo a ser alcançado para se tornar o meio para o poder. Essa inversão é fundamental. “A verdade de uma ideologia consiste em seu poder de mobilizar nossas capacidades para os ideais e para a ação” e já não possui um valor em si.
Iludido pelo mito de Mussolini, Hitler buscou também realizar sua “marcha”. Após o fracasso decidiu não mais chegar ao poder pela força, as massas teriam de sustentá-lo. Hitler teve que esperar outra crise para que novamente tivesse a chace de subir ao poder, o que ocorreu nos anos da grande Depressão. Nessa época milhões de pessoas perderam seus empregos e estavam ainda mais insatisfeitas com o regime vigente e com a possibilidade de uma revolução comunista. Nessa situação o fascismo soube se aproveitar da situação apresentando uma vasta torrentes de reivindicações particulares, para cada grupo seus estrategistas souberam formular uma retórica que se dirigisse aos seus interesses específicos. O nazismo conseguiu prometer alguma coisa a todos. A contradição dos argumentos pouco importava, e sim que, em 1932 os nazistas eram o maior partido da Alemanha.
Hitler sabia como trabalhar com o eleitorado de massas, jogava habilmente com os ressentimentos e medos dos alemães comuns com discursos apaixonados. O partido unido em seu uniforme e em sua marcha repetia inúmeras reuniões públicas como uma espécie de espetáculo com espertas técnicas de publicidade, as massas eram excitadas com o forte apelo emotivo do momento. No partido e no discurso cuidadosamente talhado pelo líder pareciam que todas as diferenças desapareciam em benefício de um bem superior mitificado, a glória da nação alemã. Uma nação tão nobre não poderia ser destruida pela modernidade estrangeira, pelo comunismo, pelo judeu. Deveria, isso sim, dominar os outros povos, expandir suas fronteiras, ser aquilo que estava destinada a ser, a raça superior.
Com o apoio das massas Hitler atraiu um amplo eleitorado e, assim como na Itália, colocou os conservadores em uma difícil situação. Para que pudessem se opor a esqueda comunista com maioria parlamentar era necessário uma aliança com os fascistas. Os conservadores sempre desprezaram os nazistas como brutos grosseiros, traze-los para dentro do governo foi um ato de desespero diante de uma ameaça “maior”, o comunismo. A dificuldade do estado liberal dar soluções satisfatórias ao momento de crise econômica abriu a brecha para outras alternativas de poder, o fascismo soube se aproveitar disso. Diante da caótica situação política pareceu ao idoso presidente Hindenburg que nomear Hitler como chanceler seria a solução mais viável aquela altura, achava que coseguiria domesticá-lo e mante-lo na linha dentro do jogo de forças do governo.
Mas na Alemanha a aliança dos fascistas com os conservadores durou pouco tempo. Logo, Hitler, com audácia, ímpeto e agilidade tática, conseguiu a autoridade total que os fascistas tanto desejavam. Um incêndio ao prédio do Reichstag em 1933, supostamente provocado por comunistas e o consequente pânico da revolução bolchevique deu a oportunidade ao chanceler de aumentar seu poder sem ter de responder ao Parlamento nem ao presidente, estabeleceu então uma ditadura de partido único. Desde então a luta dos conservadores se converteu numa ação de retaguarda em defesa da autonomia dos núcleos de poder que ainda lhes restavam.
Por outro lado haviam também as relações de Hitler com o partido nazista, relações essas cheias de tensões. É fato que Hitler sempre exerceu maior controle sobre seu partido do que Mussolini, mas mesmo nas dissenções internas que haviam ele tratou de maneira mais brutal e conclusiva. Assim, conseguiu resolver grande parte dos conflitos na “Noite das Facas Longas” quando mandou assassinar vários líderes da SA além de outros notáveis que o haviam ofendido ou que ameaçavam sua posição. Essa lição foi aprendida cruamente: debaixo da proteção de Hitler os nazistas tinham permissão de agir quase com liberdade total, mas se quisessem se opor ao Fuhrer certamente seriam assassinados.
Enquanto o regime fascista italiano decaiu, cedendo espaço para um poder autoritário e conservador, a Alemanha nazista se radicalizou a ponto de chegar a uma situação de licenciosidade irrefreada. Por algum tempo as forças do partido e as forças do estado coexistiam numa cooperação conflituosa conferindo ao regime uma mistura de legalismo com violência arbitrária. Pouco a pouco a coalizão interna e organizações paralelas dos nazistas sobrepuseram-se e até mesmo contaminaram as instituições tradicionais do estado usurpando o poder destas. Hitler permitia que as agências do partido competissem com as repartições estatais mais tradicionais colocando-os uns contra os outros. Em certo sentido, nos fascismos, o caos é o princípio basico de sustentação do poder. Logo o partido detinha o controle absoluto ou influenciava grandemente todas as instituições como o exército, a polícia, a educação, a imprensa, o poder judiciário e a área da saúde. Essa maior atuação e “liberdade” que Hitler dava possibilitava o dinamismo e o poder desejado por seus seguidores e supria em parte a ânsia radicalizadora dos nazistas.

Após o inicio da guerra o governo do partido assumiu o controle total do estado. A invasão ao leste ofereceu uma liberdade de ação quase ilimitada ao partido e as suas instituições paralelas, livres das poucas restrições que ainda provinham da estrutura de estado tradicional. Na “terra de ninguém” os radicais sentiram-se a vontade para realizar suas fantasias de limpeza étnica. Além disso a guerra possibilita uma situação de caos e fragmentação necessária para um poder mais irrestrito, nesse caso uma minoria fanática pode se ver livre para expressar um furor e colocar em prática seus desejos mais instintivos. O holocausto dos judeus deve ser pensado como a expressão radical e até as últimas consequencias de profundos sentimentos de ódio que se viu livre para a atuação sem uma ética básica acerca de qualquer moral de nível superior a simples existência e qualquer instituição capaz de preservar alguma moral que pudesse fazer frente aos instintos. O nazismo trabalhou nos dois sentidos, interiormente destituiu os individuos dos valores a partir dos quais suas consciências poderiam impedi-los de agir livremente, e exteriormente se levantou contra as instituições que defendiam tais valores prometendo que o poder estabelecido não condenaria seus abusos. Nos lugares conquistados tanto a normalidade burocrática quanto os princípios morais eram fáceis de serem deixados de lado e as necessidades da raça superior convertiam-se no único critério para a ação.
Tamanha liberdade de ação possibilita-nos uma brecha para outra possível interpretação. É possível considerar que nem todos os partidários do fascismo sempre acreditaram na teoria de pureza biológica da nação. Ainda que acreditassem que o valor biológico é o único a ser seguido, em detrimento de qualquer outro valor, isso em nada implica o dever de defesa de uma comunidade de indivíduos que supostamente fazem parte de um mesmo grupo. Esse suposto dever instintivo para com a espécie não é algo que está tão naturalmente dado como o instinto de preservar a si mesmo em detrimento dos demais. Ao que parece, se desejo protejer minha raça isso está muito mais ligado a um sentimento enraizado na tradição do que num impulso. E é exatamente por isso que esse suposto “instinto” ter de ser fabricado pela propaganda.
Não penso que estariamos exagerando se considerassemos toda a doutrina biológica nazista como um instrumento de propaganda e não de crença real, para submissão coletiva a vontade individual e instintiva de uns poucos individuos. Talvez isso dificilmente se possa provar, contudo, é bastante claro que em determinado momento, principalmente para a liderança nazista pouco importava a raça e a nação, e sim a subordinação dos demais a vontade própria, a Alemanha pouco importava, e sim a possibilidade da pratica da vontade instintiva de poder e dominação. Tal característica se torna mais descoberta ao final da guerra quando uma minoria obcecada é capaz de levar a cabo, de forma mais implacável, seus ódios mais passionais, extrapolando-os aos limites últimos da experiência humana. Por fim a radicalização acaba por negar a própria nação e os fanáticos preferem ter de destruir tudo a admitir a derrota. O poder acaba se voltando contra a própria população alemã, como o próprio Hitler em ocasião da aproximação das tropas aliadas desejou levar junto com sua própria destruição toda a nação alemã.

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[1] Inicialmente, o amor aos semelhantes, assim como o amor a família, não implica o ódio para com os outos, diferentes. Seria um erro condenar o sentimento de pertencimento a um grupo simplesmente porque alguns individuos degradaram esse sentimento.
[2] Esse conceito é amplo demais para definirmos satisfatoriamente nesse pequeno texto. Seria em termos gerais uma realidade exterior ao individuo de valor objetivo por meio da qual as ações eram julgadas como condizentes ou incondizentes a essa realidade. Essa realidade exterior pode ser identificada ao longo da história com vários nomes, citaremos apenas alguns: Deus (ou qualquer realidade sobrenatural), a Lei, o Caminho, a Verdade, a tradição, a Natureza, a Razão.

3 comentários:

Anônimo disse...

o povo nazionalista
ou faxista
Eram unidos pela cultura cristã catolica
-jesus quando nasce vem
subrepor o velho testamento
que é judaico
por isso é morto
ambos eram religiosos extremos
muito devotos a cultura cristã
A biblia foi e é
a alavanca da cultura europeia
e a propria biblia
tem o filho de DEUS
jesus cristo
a condenar e a repriender
os judeus...
ainda hoje os muçulmanos
vivem nesse odio relegioso

Anônimo disse...

Deus não se agradou nadinha com essas coisas de facismo e nacismo!!!

Anônimo disse...

Mesmo