segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Martin Luther King Jr. e a Segregação Racial nos Estados Unidos

Esse trabalho fiz no segundo semetre de 2008 para a disciplina de América III ministrada pelo professor Michael Hall. É basicamente uma biografia de Martin Luther King Jr. relacionada com o contexto segregacionista dos EUA na época, no final faço ainda uma comparação com Malcolm X. King é um cara q viveu o cristianismo de forma sincera, tomo ele como exemplo de vida e carater, da vontade de ser igual ele.


-

-

“Se protestarmos com coragem, mas com dignidade e amor cristão, quando os livros de história forem escritos no futuro, alguém terá de dizer: ‘Houve uma raça de pessoas, de pessoas negras, de pessoas que tiveram a coragem moral de lutar por seus direitos, e, assim, injetaram um novo significado nas veias da história e da civilização’”[1]

-


Martin Luther King Júnior nasceu em 1929 numa próspera família da cidade de Atlanta, na Geórgia. Seu pai conseguiu ascender socialmente graças à carreira religiosa como pastor na Igreja Batista de Ebenezer onde fazia sermões semanais e dirigia as atividades da igreja. Ele era ainda um ativo militante pela causa dos negros pertencendo a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP), chegando inclusive a organizar uma marcha de protesto a favor do voto dos negros. Uma das maiores preocupações dos pais de Martin Luther King era proteger a dignidade e a auto-estima dos filhos contra o mundo ao redor que os tratava como cidadãos de segunda classe. Ainda assim, como para todo negro que vivia no Sul nesse período, as humilhações decorrentes da segregação eram inevitáveis.
Em 1947 a independência da Índia do domínio da Grã-Bretanha através da resistência não-violenta liderada por Mahatma Gandhi chamou muito a atenção do jovem, então seminarista. O líder indiano conseguiu mobilizar multidões de pobres a uma resistência sem agressão por meio da compreensão da humanidade do inimigo. Bastante ilustrativo do método de ação de Gandhi é a situação em que centenas de pessoas se deitaram nos trilhos de modo a impedir que os trens levassem suprimentos aos ingleses, o corpo indefeso dos manifestantes era a única arma contra toda tecnologia bélica dos ingleses no período. Gandhi defendia a Doutrina da Satyagraha que se baseava na insistência na verdade e na força do amor. Essa doutrina impõe sacrifícios heróicos, e quem a aceita não pode retroceder, tem de ir até o fim, ainda que para isso tenha de lutar contra a esposa, filhos, governantes e o mundo. Gandhi definia seu método de ação como um meio de desafiar as injustiças através da não-cooperação com o mal, o que significa nunca revidar com violência e sempre amar ao próximo. Ele acreditava na necessidade de resistir a opressão até a morte, se necessário fosse, mas acreditava também que a maior força estava em mudar o inimigo graças ao amor pela humanidade. É impossível não reconhecer em sua doutrina os princípios básicos, tratados literalmente, do Sermão do Monte[2].
Depois de se formar no seminário King ganhou uma bolsa de estudo para preparar seu doutorado na Faculdade de Teologia da Universidade de Boston. Ali se apaixonou por Coretta Scott que estudava canto no Conservatório Musical da Nova Inglaterra, pouco tempo depois eles vieram a se casar. Foi também nesse período que Martin Luther King confirmou sua bela oratória, sendo convidado para pregar em várias igrejas da região. Em 1954 tornou-se pastor responsável pela Igreja Batista da Avenida Dexter, em Montgomery, no Alabama, antiga Capital dos Estados Confederados. Nesse mesmo ano a Suprema Corte dos Estados Unidos tomou a decisão histórica de incentivar a integração das escolas públicas do país depois de concluir que as escolas separadas não davam educação igual aos estudantes negros. Na ocasião, muitos homens de boa vontade, tanto brancos como negros, aclamaram a sentença como o começo de uma nova era na história das relações raciais nos Estados Unidos. Embora essa lei não tenha sido efetivada de maneira concreta até os dias de hoje foi um importante marco simbólico nas lutas pela igualdade de direitos.
No final do ano de 1955, Rosa Parks, uma mulher muito ativa que havia sido secretária do NAACP de Montgomery, se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem branco, então foi levada a delegacia da cidade. Ao tomar conhecimento da situação e incentivado pelo advogado E. D. Nixon e por outros pastores, Martin Luther King começou a liderar um boicote para que os negros deixassem de utilizar o transporte público enquanto a lei segregacionista nos ônibus não fosse revogada. Com rápida articulação da liderança local dos pastores e da NAACP o boicote foi divulgado através de panfletos e foi organizada uma rede de transporte alternativa, ainda que ilegal, para levar as pessoas ao emprego. Para melhorar ainda mais a ação do grupo criou-se a Associação para o Progresso de Montgomery (MIA) da qual King foi eleito presidente. Duas vezes por semana o reverendo liderava assembléias com canto, oração, relatórios sobre o boicote e discursos.
Aos poucos os brancos começaram a levar aquele movimento a sério e perceber que os negros não iriam voltar a usar os ônibus tão rapidamente se nenhum acordo fosse feito. Ao longo de mais de um ano de boicote o movimento sofreu várias resistências por parte dos brancos. Martin Luther King foi acusado de enriquecer com a manifestação e foi preso por excesso de velocidade, além disso acordos de falsa negociação foram publicados nos jornais e membros da Ku Klux Klan encapuzados começaram a rodar pelos setores negros da cidade. Mas o mais preocupante foi quando uma bomba explodiu na casa de King quase atingindo sua mulher Coretta e sua filha Yolanda. Ao chegar em casa o pastor acalmou o grupo de negros armados e enfurecidos que se encontravam no local não permitindo que a situação perdesse o controle. Finalmente, em dezembro de 1956, a Corte Suprema e altos magistrados declararam anticonstitucional a segregação dos negros nos bondes e ônibus, a primeira batalha fora ganha.
Mas havia muito a ser feito ainda, a igualdade de condições nos ônibus era pouco se comparada a todas as outras diversas formas de separação e o preconceito diário que sofriam os negros. Mas os acontecimentos de Montgomery, devido à ampla cobertura da imprensa no local, ascenderam a chama da esperança por todo o país de que era possível uma rápida integração por meios pacíficos. Muitos negros das mais diversas regiões haviam retomado seu orgulho e encontrado um meio de usá-lo de um modo efetivo, foram assim influenciados a se dedicarem a lutas por igualdade de direitos fazendo uso de métodos muito similares aos utilizados por King em Montgomery.
Foi nas cidades maiores que os negros começaram mais claramente a manifestar sua impaciência. Desde 1940 vinha ocorrendo um amplo processo de migração negra para os centros urbanos, principalmente para as grandes cidades metropolitanas, embora normalmente a migração fosse para os subúrbios destas. Nessas regiões, porém, eles descobriam que seus problemas persistiam ou mesmo aumentavam. Más condições de habitação e desemprego eram dois males que geraram novas frustrações e dificuldades. Mas foi justamente na cidade que surgiram contatos e associações que capacitaram os negros a descobrir a força que possuíam e a capacidade de provocar mudanças maiores na sociedade na qual viviam. A ação que mais atraía grande número de negros dos centros urbanos era procurar melhorias através da política, começaram a sentir que o governo faria mais pelos negros se eles pudessem utilizar sua força política de maneira sensata.
Em 1957 o presidente Eisenhower apresentou uma proposta sobre direitos civis que depois de vários debates foi aprovada pelo Congresso com algumas modificações. Essa lei autorizava ações judiciais por parte do governo sempre que uma pessoa tivesse negado seu direito de voto. Também criou a Comissão de Direitos Civis com a finalidade de investigar, estudar e coletar informações concernentes aos acontecimentos legais que constituíam recusa de igual proteção sob as leis. Desde a proclamação dessa lei inicial, ainda que limitada, o governo aumentou suas atividades na área dos direitos civis. Em 1960 depois de muito debate e obstrução no senado o Congresso aprovou outro projeto sobre direitos civis que dispunha que, se um escrivão eleitoral negasse a inscrever um negro o processo poderia ser instituído contra o estado.
Nesses anos o reverendo Martin Luther King Jr. já era uma figura de projeção nacional. Ajudado por outros pastores ele criou a Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC) para ajudar os negros a combater a segregação. Desde então King passou a fazer discursos por todo país incitando os negros a luta, criticando a indiferença de muitos brancos moderados e divulgando a sua doutrina da não-violência através do livro recém-escrito: A Caminho da Liberdade: a História de Montgomery. Quando viajou a Nova York uma senhora negra de aparência respeitável, mas obviamente desequilibrada, aproximou-se e atingiu-o no peito com um afiadíssimo abridor de cartas, King foi socorrido as pressas e conseguiu sobreviver. Com ordens médicas para diminuir suas atividades o reverendo peregrinou até a Índia, uma viagem que sonhara desde que estudou a filosofia de Gandhi.
No ano de 1960, Martin Luther King abandonou o sacerdócio e mudou-se para Atlanta para se dedicar exclusivamente às atividades do SCLC. Nesse mesmo ano sugeriu a criação do Comissão Estudantil de Coordenação Não-Violenta (SNCC). Como estava na época de eleições o reverendo hesitou em apoiar publicamente um dos candidatos, pois pretendia não se envolver com nenhum dos lados. Porém, o senador Jonh Kennedy venceu facilmente seu oponente na busca pelos votos dos negros por meio de suas várias críticas ao governo anterior que ele cria não ter avançado o suficiente na defesa pelos seus direitos civis, mas principalmente por sua atitude quando, estando o reverendo King preso por ocasião de uma manifestação, ligou para a senhora King e expressou sua solidariedade e preocupação prometendo fazer tudo o que estivesse em seu alcance para proteger o pastor. Coincidência ou não, três dias depois Martin Luther King foi solto o que contribuiu grandemente para Kennedy arrebatar a maioria dos votos dos negros, tal fator foi decisivo para sua vitória.
O novo presidente tomou várias medidas no intuito de beneficiar os negros. Encorajou o Departamento de Justiça a levar avante os esforços para garantir o direito de voto através de negociação ou litígio, fez pressão para o aumento de emprego para negros nos programas ligados ao governo federal e criou a Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego e a Comissão de Oportunidades Iguais de Habitação que tomaram medidas para eliminar a discriminação racial nessas áreas. Ainda que sinceras as iniciativas do presidente é certo que a efetivação de um maior igualitarismo por meio dessas atitudes é extremamente questionável. Logo que Kennedy assumiu a presidência o reverendo King foi conversar com ele a respeito de uma legislação mais abrangente sobre os direitos civis, o presidente relutou em propor essa legislação, mas sugeriu que poderia ser pressionado, e pressão foi o que não faltou nesses anos.
Ainda em 1960 surgiu na Carolina do Norte um movimento denominado sit-in cuja idéia básica era sentar-se em locais designados apenas para brancos e esperar ali até que fossem atendidos (no caso de bares e lanchonetes) ou levados forçadamente para fora por meio de ação policial. A tática se alastrou rapidamente como incêndio. Esse movimento teve grande repercussão levando a violentas reações em várias localidades, muitos manifestantes foram presos (esse, na verdade, foi o motivo da prisão de King), espancados e atacados por cachorros policiais. Com efeito, tiveram êxito em acabar com a discriminação em muitos restaurantes e outros estabelecimentos semelhantes.
Em 1961 surgiram os cavaleiros da liberdade que iam até o Sul testar as leis e as práticas de segregação no transporte interestadual. Em várias localidades foram atacados por racistas revoltados levando o governo federal a enviar tropas para evitar novas violências. King também se envolveu com esse movimento indo a Montgomery para ficar ao lado daqueles corajosos jovens num momento em que estes corriam sérios riscos e arrecadando dinheiro para pagar as fianças dos participantes do movimento que eram presos. No outono daquele ano a Comissão Interestadual do Comércio promulgou uma legislação para acabar com a segregação nas rodoviárias. Com esses eventos, cada vez mais as pesquisas de opinião pública registravam um aumento de solidariedade para com os negros.
Já no ano de 1962, Martin Luther King foi ajudar o movimento negro de Albany, uma pequena cidade do sudoeste da Geórgia. Ali King discursou e participou de passeatas pela integração dos lugares públicos. Após algum tempo e com poucos avanços nas negociações a população começou a questionar os métodos não-violentos, e, para piorar, uma moça grávida que fora presa durante as manifestações foi brutalmente surrada por um auxiliar do delegado. Diante dessa lamentável situação duzentos negros enfurecidos saíram pelas ruas de Albany e King pouco pôde fazer para detê-los.
No ano seguinte houve forte mobilização nacional em função do centenário da emancipação da escravidão. Fortes pressões foram exercidas para a obtenção de uma legislação a favor dos direitos civis com o lema “livres até 1963”[3], para muitos a igualdade racial não poderia passar daquele ano. Marcado pela experiência de Albany, Martin Luther King procurou um cenário mais adequado para continuar sua luta, escolheu Birmigham, no Alabama, que ele considerava a cidade mais segregacionista do país. Ali contava ainda com o apoio do destemido militante dos direitos civis, Fred Shuttlesworth e de seu irmão Alfred, que era pastor na cidade. Martin Luther King juntamente com seus companheiros passou meses planejando a campanha de Birmingham, estavam determinados a não parar as manifestações e boicotes até que todas as suas reivindicações fossem atendidas. Exigiam oportunidades de empregos justos, integração dos locais públicos e criação de uma comissão para planejar a integração.
As passeatas começaram com muitas pessoas e de início a reação foi leve, apenas com policiais prendendo um grande número de manifestantes. Graças à libertação dos presos por meio do pagamento de fianças e a chegada de novas pessoas que aderiam ao movimento, a manifestação pôde manter-se viva por bastante tempo. A partir de Maio o comissário de polícia, Eugene “Touro” Connor, como era chamado pelos brancos, começou a interceptar as passeatas com cães policiais e jatos d’água de mangueiras de bombeiros, esse fato causou grande comoção por todo país e imediatas manifestações de solidariedade. O próprio presidente Kennedy disse na ocasião: “posso entender muito bem por que os negros de Birmingham estão cansados de ouvir porque devem ser pacientes”[4].
Durante a semana que terminou em 18 de Maio o Departamento de Justiça registrou 43 manifestações grandes e pequenas por todo país. E mais movimentações aconteceram no mês seguinte nas grandes cidades. Em Cambridge as manifestações pacíficas perduraram muitas semanas até irromper em distúrbios em julho, em Nova York e Filadélfia grupos revoltados procuraram bloquear as construções financiadas pelo dinheiro público nas quais não se empregavam negros, ainda em cidades como Chicago e Boston houve protestos sentados e greves em escolas para reivindicar maior equilíbrio racial. Porém, em alguns momentos, após as manifestações pacíficas ocorriam distúrbios maiores devido à repressão agressiva das autoridades das cidades. Em Birmingham após atentados a bomba vários negros começaram a fazer represálias e a polícia estadual começou a atacar as pessoas no distrito negro. A paz só era restaurada com acordos em que alguma das partes cedia, como foi o caso de Cambridge ou com a intervenção do governo federal, como aconteceu em Birmingham.
Nem o presidente e nem o Congresso puderam ficar indiferentes às manifestações em grande escala e à resistência dos segregacionistas brancos. Foi então que em junho de 1963 o presidente apresentou um novo e amplo programa de direitos civis, disse John Kennedy: “enfrentamos... uma crise moral como país e como povo. Ela não pode ser enfrentada por ação policial repressiva. Não pode ser deixada para as manifestações cada vez mais freqüentes... É hora de agir no Congresso, em seu corpo legislativo, estadual e local e, acima de tudo, em toda nossa vida do dia-a-dia.”[5] O projeto ocupou grande parte da atenção do Congresso durante o verão de 1963, houve longo período de debates e a oposição foi forte.
Foi nesse clima que Martin Luther King, juntamente com diversos líderes religiosos, cívicos e trabalhistas ajudou a organizar a “Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade” que ocorreu em 28 de agosto de 1963. Essa iniciativa recebeu apoio dos mais diversos setores da sociedade e uniu todos os grandes grupos defensores dos direitos civis no planejamento e execução da gigantesca manifestação. Calcula-se que mais de 200.000 pessoas estiveram presentes na capital da nação americana para ouvir os diversos representantes discursarem. Nessa manifestação o reverendo King foi o último a falar pronunciando um memorável discurso sobre seu sonho de unidade e liberdade na América, o reverendo finalizou dizendo: “quando deixarmos que a liberdade ecoe em cada cidadezinha e em cada cabana, em todos os Estados e em todas as cidades, poderemos apressar a chegada do dia em que os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão se dar as mãos e cantar juntos as palavras do velho spiritual negro: Livres finalmente! Livres finalmente! Graças a Deus Todo-Poderoso, estamos livres finalmente!”[6]. Anos mais tarde o escritor negro James Baldwin expressou o que sentiu ao ouvir o discurso de Martin Luther King: “Naquele dia, por um momento, parecia que estávamos nas alturas e podíamos ver a nossa herança; talvez pudéssemos tornar o reino dos céus realidade, talvez a ansiada igualdade deixasse de ser aquele sonho que sonhamos com agonia”[7].
Depois desse dia houve certo esfriamento do movimento negro por diversas razões. Em primeiro lugar a promulgação do projeto dos direitos civis estava demorando a sair e a oposição tinha se enrijecido ainda mais aumentando a repressão. Em setembro quatro crianças morreram devido a uma bomba deixada em uma igreja em Birmingham e em novembro para maior desespero da população negra o presidente Jonh Kennedy, que a muitos agradava, foi assassinado em Dallas. O ano de 1963 chegava ao fim e os negros ainda não eram livres. Nessa ocasião a oposição aos movimentos pacifistas cresceu e outros grupos como os Mulçumanos Negros liderados por Malcolm X, começaram a ganhar mais espaço. Criam eles que o reverendo não era suficientemente revolucionário e a doutrina pacifista atrapalhava a vitória dos negros, para eles para se avançar politicamente era necessário opor-se violentamente e, como declarou Malcolm X, “revoluções requerem derramamento de sangue”[8].
Finalmente, em 1964, a Câmera dos Deputados aprovou o projeto sobre os direitos civis por substancial maioria. Essa lei deu ao procurador-geral poderes adicionais para proteger aos cidadãos contra a segregação e a discriminação no voto, no ensino e no uso dos locais públicos. Proibiu a discriminação na maioria dos locais de freqüência pública, criou um Serviço de Relações Comunitárias a nível federal para ajudar os indivíduos e comunidades a solucionar problemas de direitos civis, estabeleceu uma Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego e eliminou a discriminação nos programas com assistência federal. Embora essas leis realmente tenham produzido considerável declínio na discriminação em algumas áreas, o período seguinte à aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964 foi marcado por forte resistência a sua aplicação e até por considerável violência em alguns lugares. Desde então a Ku Klux Klan voltou forte como principal defensora da supremacia branca. Promoveram manifestações contra a igualdade racial e intimidavam aqueles que incentivavam a integração. E mesmo no Norte também começaram a surgir novos problemas quando brancos descobriram seus preconceitos pela primeira vez quando tiveram de conviver com a integração nos planos de habitações e nas escolas.
Quando diversos grupos como a Comissão Estudantil de Coordenação Não-Violenta e a Conferencia Sulista de Liderança Cristã aceleraram sua campanha para o alistamento de eleitores a violência foi ainda maior, várias pessoas morreram e outras desapareceram sem nenhuma condenação; e 34 igrejas foram destruídas por bombas ou incêndios. Nas eleições presidenciais o candidato democrata Lyndon B. Johnson que havia assumido após a morte do presidente Kennedy venceu com relativa facilidade recebendo a grande maioria dos votos dos negros. Mas mesmo com a legislação existente sobre os direitos civis centenas de milhares de negros do Sul continuaram a encontrar diversas dificuldades para votar.
No ano de 1965, Martin Luther King foi para Selma no condado de Dallas para fazer outras mobilizações. O reverendo passou então a centrar suas preocupações na necessidade de uma lei mais efetiva sobre o direito de voto. Essa cidade mantinha os negros afastados das urnas de um modo tipicamente sulista, havia longos papéis a serem preenchidos onde os eleitores poderiam ser desqualificados por qualquer erro, por mínimo que fosse. King marcou sua primeira manifestação para o dia de inscrição dos eleitores. Ali, o xerife do condado, chamado Clark, foi particularmente feroz com o uso de gás lacrimogêneo, chicotes e choques elétricos. Com tamanha repressão por parte do xerife local, rapidamente King conseguiu atrair a atenção mundial para Selma e para a hostilidade dos brancos da região. As cenas de violência alarmaram a população do país e mesmo do exterior.
Aproveitando a situação King começou a levar a campanha para os condados vizinhos para enfrentar o governador George Wallace. Ajudou a promover então uma caminhada de Selma até Montgomery, quando os primeiros manifestantes começaram a marchar foram violentamente atacados por tropas estaduais e do xerife Clark armados de chicotes e tubos de borracha cobertos de arame farpado, cerca de 140 pessoas tiveram de ser hospitalizadas. Saindo dali Clark e seus homens foram ainda pelo setor negro da cidade espalhando horror e cometendo outras atrocidades. King, assim como todo resto do país, ficou estarrecido e lançou um apelo a todos os religiosos dos Estados Unidos a se juntarem a marcha à Montgomery. No dia 21 de março, Martin Luther King, com Ralph Bunche das Nações Unidas, de um lado e o rabino Abraham Herschel, do outro, partiram de Selma liderando milhares de pessoas. Em Montgomery, três dias depois, receberam a adesão de mais 25.000 pessoas e seguiram em uma marcha triunfal até as portas da Assembléia Legislativa do Estado do Alabama.
Revoltado com todas as atrocidades o presidente Lyndon B. Johnson foi pessoalmente ao Congresso para introduzir uma nova legislação eleitoral. Num discurso dirigido à nação disse que o verdadeiro herói a luta pela igualdade era o negro norte-americano, “suas ações e seus protestos – sua coragem em arriscar a segurança ou até mesmo a vida – despertaram a consciência da nação. Suas manifestações têm se destinado a chamar atenção para a injustiça, provocar mudanças e estimular reformas. Têm nos convocado para cumprirmos a promessa da América”[9] Dias depois enviou ao congresso suas propostas de uma lei sobre o direito de voto que foram aprovadas com rapidez incomum. A lei autorizava o envio de examinadores federais aos estados para alistarem eleitores negros quando concluíssem que os funcionários de alistamento não estavam cumprindo suas funções e suspendia todos os testes de alfabetização e outros dispositivos para afastar os negros das urnas.
Ainda que com todos esses avanços na legislação, cada vez mais um clima pessimista vinha tomando conta de muitos partidários do movimento negro. Mesmo antes, com as sucessivas modificações na constituição, já havia ficado claro para muitos dos negros norte-americanos, que eles precisariam de muito mais do que os direitos civis para desfrutarem da igualdade. Muitos começaram a ficar desiludidos com a lentidão do progresso racial, apesar das vitórias legislativas. Na prática da vida cotidiana, que é o lugar onde reside a verdadeira segregação, os negros sofriam, talvez ainda mais, com o preconceito a eles dirigido. Havia progressos, todos reconheciam, mas era necessário algo mais do que simples leis, para transformar a situação, pois apesar das leis coibirem, elas não transformam.
Por exemplo, a discriminação habitacional por muito tempo não era apenas prática privada, mas foi uma política de governo que dispunha que para um bairro ser estável era necessário que mantivesse as mesmas classes sociais e raciais. Assim, os negros sempre foram explorados por corretores imobiliários que cobravam aluguéis mas se recusavam a atender os padrões mínimos de habitação e saúde estabelecidos pelo município ou estado. Nesses bairros seus filhos recebiam ensino inferior, havia menos oportunidades de emprego e as prefeituras não se dispunham a aplicar seus códigos contra as discriminações existentes. Obviamente essa estrutura que prevalecia tanto no Norte como no Sul já estava tão impregnada na sociedade que não seria uma simples lei que a modificaria. É difícil controlar a venda ou aluguel de imóveis se os donos deste desejam beneficiar mais a um branco do que ao negro.
Disso decorre também o outro problema de segregação escolar, as escolas públicas já eram segregadas de acordo com a separação entre os bairros. Para integrar seria necessário transportar crianças brancas para distritos negros o que causou enormes reações racistas nas cidades. Foram elaborados diversos planos para a efetivação da integração, mas por causa da oposição eles não eram cumpridos de maneira satisfatória. Nos estados sulistas, por exemplo, entre 1965 e 1966 apenas seis por cento das crianças negras freqüentavam escolas integradas. No Norte a oposição foi tão intensa quanto no Sul, sendo que muitas cidades simplesmente não promoviam planos para tentar mesclar os alunos. E mesmo nas escolas em que isso ocorria havia ainda outros problemas adicionais, por vezes as raças eram separadas por classes diferentes, ou ainda os pais segregacionistas retiravam seus alunos das escolas integradas e os colocavam em particulares.
Os negros dos centros urbanos sofriam ainda mais devido a falta da igualdade nos empregos. De um modo geral admitia-se que um vigoroso impulso no sentido da igualdade havia começado a diminuir a diferença econômica entre negros e brancos, porém, isso era apenas fachada, na verdade o que houve foi apenas a abertura de algumas oportunidades amplamente divulgadas que eram mais simbólicas do que correspondentes a realidade. Pelo que os números indicam as disparidades econômicas entre negros e brancos aumentaram no período de 1949 a 1964. Durante esse período o índice de desempregados negros foi o dobro dos brancos e a participação dos negros na vida econômica total da nação declinou significativamente. As tentativas de igualdade nessa área também foram difíceis de serem aplicadas de acordo com a lei por ser algo complicado de se controlar e impor. Existem problemas como especialização de mão-de-obra ou tradição familiar no emprego.
A dificuldade dos negros em conseguir habitação adequada mesmo quando ela existia, de ter um ambiente saudável para criar seus filhos, de participar plenamente na vida econômica e social do país produziu uma esmagadora sensação de frustração que em certo momento acabou por explodir em violência, como em 1965 em Watts, Los Angeles. Com casas aos pedaços, sem conseguirem moradias em outros lugares e trinta por cento dos negros desempregados, muitos daquela cidade recorreram ao exercício de uma variedade de atividades ilegais. Outros ainda começaram a seguir o Conselho dos Mulçumanos Negros, cuja influencia na área era crescente, concluíram que a situação em que estavam eram causadas unicamente pelas injustiças do homem branco. Nos guetos da cidade 7.000 negros revoltados investiram contra os policiais com rancor e ódio, e mesmo quando Martin Luther King se dirigiu a região pedindo para que parassem, não foi ouvido. Quando a polícia com ajuda da guarda nacional, restaurou a paz, as baixas tinham sido de 34 mortos e 1032 feridos.
Ao que parece a tensão que Martin Luther King intencionou criar no intuito questionar a moralidade do opressor e promover melhorias na situação do negro acabou agindo contra ele próprio. Os inúmeros ataques às manifestações pacíficas serviram, antes de qualquer coisa, para alimentar ainda mais o ódio negro pela população branca, fazendo-os revoltar-se contra a sociedade em que estavam inseridos. Foi então que ganharam mais destaque outros grupos negros que se opunham a doutrina integracionista e não-violenta de Martin Luther King. Paradoxalmente, entre esses grupos estava a própria Comissão Estudantil de Coordenação Não Violenta. Seus membros durante os anos anteriores haviam enfrentado insultos e arriscado a vida a fim de aumentar o alistamento eleitoral entre os negros sulistas. Gradativamente a desilusão e o pessimismo tomaram conta de alguns de seus membros, desconfiaram de líderes negros e perderam a confiança na maioria das autoridades do governo. Em 1966, Stokely Camichael tornou-se o novo presidente do grupo e insistiu que os negros pensassem em termos de “poder negro” e o usassem para combater o “poder branco” que os havia mantido em situação inferior. Essa perspectiva abriu caminho para maior penetração no movimento negro da rotulação preconceituosa do que é ser negro e o que é ser branco. Em 1967 a Conferência do Poder Negro pediu a divisão dos Estados Unidos em duas nações independentes, uma para ser pátria dos brancos e a outra para ser pátria dos negros norte-americanos.
Enquanto isso um grupo de jovens militantes da Califórnia, liderados por Huey P. Newton e Bobby Seale, organizavam o Partido da Pantera Negra para a Autodefesa e Eldridge Cleaver, seu porta-voz mais representativo declarou que a escolha posta diante do país era a liberdade total para as pessoas negras ou a destruição total para a América. Esse grupo se tornou nacionalmente conhecido por vários feitos como entrarem armados no interior da Assembléia Legislativa da Califórnia e a condenação de seu líder Huey P. Newton que foi acusado de homicídio culposo de um policial. Rapidamente se espalharam por toda nação reivindicando pleno emprego, habitação decente, controle negro da comunidade negra e o fim de toda forma de repressão e brutalidade. Não demorou muito para se envolverem em numerosos confrontos com a polícia.
Desde 1966, Martin Luther King Jr. passou a atuar também no Norte dos Estados Unidos onde liderou marchas em bairros privativos de brancos, porém, claramente sua influência já não era a mesma. Os motivos para isso parecem diversos, em primeiro lugar é evidente que a tática da não-violência é passível de contestada. Depois de se ter sofrido várias para defendê-la, levando cacetadas na cabeça e mordida de cães as pessoas evidentemente começam a questionar sua eficácia. É certo também que a ação desse tipo requer um esforço muito grande por parte do oprimido, pois a atitude mais lógica e tecnicamente justa é revidar, se possível, na mesma proporção em que o outro te atacou. Mas se, ainda que se aceite sua prática com base nas transformações morais que ela se propõe a trazer e, ao observar o cotidiano, as pessoas perceberem que nada mudou, a não-violência parecerá, no mínimo, loucura. Essas questões suscitaram o surgimento de novas lideranças com propostas alternativas que trouxeram outras referências ao movimento negro e recusavam a idéia de que é possível progresso na relação com os brancos com base nas manifestações pacíficas.
Além disso, a situação a partir de 1966 é nova em vários aspectos, agora não se trata mais de comover a opinião pública do Norte contra as práticas abusivas do Sul. Ao se dirigir ao Norte, Martin Luther King tem de lidar com um preconceito mais sutil de segregação habitacional e educacional que causou grandes reações em cidades relativamente tranqüilas. King já previa essa situação em 1963 quando indica que “haverá resistência nos núcleos do Sul e sérios problemas no Norte como resultado de discriminação empresarial e habitacional”[10], porém, nessa época, ainda acreditava na possibilidade de mudança pelo peso da opinião pública mundial, pela consciência cada vez mais lúcida de muitos brancos e pela consciência de instituições religiosas. Segundo o reverendo, para a questão da segregação não terminar em violência generalizada, isso dependeria da amplitude que a filosofia da não-violência viesse atingir em toda a comunidade negra e não apenas dos manifestantes.
Quando se dirigiu a Chicago Martin Luther King foi bastante criticado e ainda ignorado por próprios militantes negros de grupos mais radicais. Enquanto os ânimos se acirravam e vários conflitos se espalhavam pela nação King viajava de cidade em cidade tentando acalmar as populações negras, vigorosamente lembrando aos detratores que a mudança moral não se realiza por meios imorais. Nessa época fez diversos discursos contra a violência temendo que os novos rumos do movimento acabassem por destruir tudo o que os negros haviam conquistado nos últimos anos. King perdeu apoio ainda por alguns de seus posicionamentos bem definidos, como criticar a guerra do Vietnã em 1967 e não abandonar seus princípios pacíficos. É marcante que próximo ao fim de sua vida, na marcha em Memphis, Mississipi, muitos manifestantes saíram insubordinados e começaram a quebrar coisas.
Por fim, em 4 de abril de 1968 Martin Luther King foi morto com um tiro de fuzil que lhe acertou a face na sacada de um hotel na cidade de Memphis, aonde havia ido para dar apoio a uma greve. Paradoxalmente, o assassinato de King, o líder da não-violência, acabou por acelerar os conflitos em todo país. Ainda que profundamente criticado o reverendo era muito querido pelos seus irmãos de cor. A dor e a revolta de muitos contra o assassinato de alguém que havia lutado de maneira tão justa quanto ele, elevou a raiva de muitos levando a tumultos generalizados no país. Em mais de cem cidades seguiram-se vários dias de distúrbios, incêndios e saques. Em Chicago, Detroit, Nova York, Boston, Memphis e Washington foi necessário chamar o exército ou a guarda nacional para conter as massas enfurecidas. Em seu enterro compareceram cerca de 60.000 pessoas e no sermão o pastor disse que todo ato violento seria traição ao líder, mas era tarde. Na marcha da Solidariedade que King e outros líderes estavam organizando os oradores manifestaram dor e raiva pelos assassinatos de Kennedy e Martin Luther King, condenaram a guerra do Vietnã como racista e imoral e fizeram uma advertência, talvez, aquela fosse a última demonstração pacífica.
Como vemos, enquanto em vida o reverendo Martin Luther King alcançou muitas vitórias, com suas ações conseguiu atrair a mídia, mobilizar a opinião publica nacional e possibilitar assim várias mudanças constitucionais na nação. Porém, a perda de prestígio e decadência de seu movimento nos últimos anos de vida deixa dúvidas quanto à efetividade de seu movimento no campo que ele mais reclamava como uma arma da não-violência, que é a capacidade de transformar a consciência do opressor através da tensão moral produzida pelo ataque a uma vitima inocente. Ora, a realidade ou não dessa premissa não é possível provar, apenas por uma análise superficial nos parece que as manifestações não tendiam a acalmar os ânimos dos segregacionistas, mas, pelo contrário, os incitavam ainda mais para cometer atos mais cruéis.
Mas nesse ano de 2008, quarenta anos após a morte do líder negro, acaba de ser eleito nos Estados Unidos da América o primeiro presidente negro, Barack Obama. Bom, e o que isso tem a ver? Obviamente não pretendemos atribuir a eleição desse presidente à ação de Martin Luther King, porém a própria possibilidade de um negro concorrer a esse cargo significa uma grandiosa mudança na consciência na população americana praticamente inimagináveis a quarenta anos atrás. Por algum motivo pode-se atribuir uma mudança na mentalidade da população americana. E se Fernand Braudel estiver certo, essas mudanças, que incluem características culturais e mesmo morais da sociedade, se processam numa longa duração e não podem ser percebidas de imediato. A perspectiva de aceitação do negro, principalmente no Sul dos Estados Unidos, está ainda em pleno processo, porém não há como negar que o destino, a nosso ver hoje, parece finalmente ser o da integração do negro na sociedade americana.
Philip Yancey, talvez o principal pensador cristão da atualidade, que aproveitou muito da teoria do líder negro e de Mahatma Gandhi admite: “Cresci em Atlanta, do outro lado da cidade de Martin Luther King, Jr., e confesso com alguma vergonha que, enquanto ele liderava passeatas em lugares como Selma, Montgomery e Memphis, eu estava do lado dos policiais brancos com os seus cassetetes e cães pastores. Fui rápido em apontar suas falhas morais e lento em reconhecer meu próprio pecado de cegueira. Mas, porque ele permaneceu fiel, oferecendo o seu corpo como alvo, nunca como arma, ele atravessou meus calos morais.”[11]Ora, se a tática de Martin Luther King, assim como de Gandhi de amar ao inimigo por mais que suas práticas venham a prejudicá-lo, realmente conseguir promover a aproximação e reconciliação, ainda que a longo prazo, possibilitando quebrar o ciclo da eterna vingança para com o inimigo, e ainda promover o reconhecimento dos erros e uma modificação nesse, talvez essa realmente seja a mais poderosa, e ao mesmo tempo a mais frágil, arma para a defesa dos oprimidos.
-
Apêndice: Uma Comparação entre Malcolm X e Martin Luther King Júnior
-
Para melhor compreensão da filosofia da ação direta não-violenta proposta por Martin Luther King, nada melhor do que contrastá-la com a proposta de seus opositores. Discorreremos então sobre o principal deles, Malcolm X, líder do movimento Mulçumano Negro. Semelhantemente a Martin Luther King, o pai de Malcolm X era pastor batista envolvido em lutas em defesa da causa dos negros. Devido suas aproximações ao movimento garveysta[12] Malcolm X teve a experiência de ter sua casa incendiada por duas vezes e, ainda quando criança, perder o pai assassinado por brancos. Por diversas razões o líder negro não se matriculou no segundo ciclo e em 1947, aos 22 anos, foi condenado a sete anos de prisão por roubo.
No presídio Malcolm X conheceu a filosofia de Elijah Muhammad que lhe “indicou o caminho, possibilitou comprovar a verdade e dizer isto é isto”[13]. Devido ao seu profundo desgosto para com os cristãos, ele descartou o cristianismo como hipócrita e converteu-se ao Islã por influência do teórico Muhammad. Malcolm X cria que a religião mulçumana demonstrava a verdadeira honestidade, justiça e liberdade que o negro não podia encontrar na sociedade cristã. Para ele, a pregação do senhor Muhammad era capaz de transformar os negros americanos restaurando-lhes o orgulho de viver e o desejo de se tornarem seres humanos. Tais pessoas, reabilitadas da opressão imposta pelos brancos, poderiam recusar a sociedade em que viviam, deixar de ver a si próprios segundo a ótica dos brancos que os depreciavam, tornando-se capazes de assumir o controle de seu próprio destino.
Malcolm X acreditava que se devia amar ao próximo, mas esse próximo, para ele, era apenas os da própria raça. E justamente o amor ao irmão de raça que motivava a ira contra os brancos, seus opositores. O amor nesse sentido constitui um elo concreto com um povo degradado e desvalorizado que poderia produzir uma verdadeira conversão psíquica, formando assim o negro altivo, cônscio de seus direitos, que verdadeiramente acreditava na capacidade do povo negro de livrar-se do jugo da opressão racista branca.
Como resposta a ideologia e prática hegemônica dos brancos, Malcolm X sugere como única solução o amor-próprio e a autodeterminação dos negros, crendo, um tanto apressadamente, que os nacionalismos negros detêm o monopólio desse amor-próprio e autodeterminação. Isto é, a única saída para ele reside na separação física e moral de negros e brancos em duas sociedades distintas, uma nova nação na qual os negros poderiam ter seu próprio Deus, sua própria religião, sua própria cultura, seus próprios valores e critérios. Para isso todos os hábitos imorais da comunidade negra (como beber, adulterar, fornicar, blasfemar, fraudar...) deveriam ser reformados de forma a tornar os negros mais divinos, mais próximos de Deus e assim receber o favor d’Ele.
Malcolm X dividia o mundo em pólos bem distintos e homogêneos, todo branco era necessariamente opressor assim como todo cristão necessariamente falso. Temia qualquer hibridismo na vida dos negros seja racial ou culturalmente o que o tornava autoritário, dogmático e moralista. Para ele a hibridez poderia atenuar a percepção do caráter perverso da supremacia branca e ligar de tal forma o destino dos negros aos brancos impossibilitando a liberdade dos negros. Nessa linha a sociedade americana era caracterizada não pelo sincretismo de culturas, mas pela vigência de um sistema racial de castas que definia todo produto desse sincretismo como anormal tanto na comunidade negra como na branca. O movimento dos mulçumanos negros condizia com essas idéias, eram um corpo disciplinado de adeptos devotos que continham a sua ira em um clima de repressão cultural e de proteção paternalista as mulheres, sempre guardando distância dos brancos.
O preconceito e generalização de Malcolm X para com a sociedade branca e quanto à possibilidade desses de abandonarem o racismo induziram-no a minimizar a importância dos laços entre negros e brancos e a se posicionar contra qualquer perspectiva integracionista. A integração é uma “armadilha que o homem branco usa para embalar os negros, fazendo-os acreditar que houve mudança a fim de manter o negro no mesmo lugar”[14] diz Malcolm X em entrevista a um programa de televisão gravado em 1963[15]. Nessa mesma ocasião o líder do movimento mulçumano negro disse que o Doutor Martin Luther King é a "melhor arma que homem branco, desejoso em brutalizar os negros, jamais possuiu”. Para ele são “os brancos que seguem, financiam, auxiliam e apóiam King, as massas negras não o apóiam”, pois “King têm por profissão ensinar os negros a não reagir contra o homem branco”. Segundo Malcolm X o reverendo King estava traindo a raça ao pregar o sofrimento pacífico. Ao ensinar o negro a oferecer a outra face estaria retirando seu direito divino, natural e moral à defesa e levando os negros a sofrerem pacificamente. Quando King levou um soco em frente às câmeras de televisão e não reagiu Malcolm X o chamou de estúpido: “eu teria reagido para mostrar que King está errado e sua maneira de lutar não está certa”[16]
Em entrevista posterior ao mesmo programa Martin Luther King rebate as afirmações de Malcolm X relatando a reação de extremistas e reacionários brancos, “a reação não é de tranqüilidade, antes, desperta o sentimento de vergonha”[17]. Para King ação de oposição pacífica possui uma capacidade de produzir uma modificação na consciência das pessoas através do sentimento de culpa, o pesar pelo erro cometido. “Mesmo se, por não defender-te corres o risco de ser golpeado, teu sofrimento ajuda de alguma maneira a outra pessoa a se redimir e tu te purificas do ódio da outra pessoa”[18], “o problema perturba sua [do inimigo] atividade consciente ao atingir a sua integridade interior”. O alvo de King, ao contrário do de Malcolm X não era derrotar o homem branco, “mas despertar um sentimento de vergonha dentro do opressor e desafiar o seu senso de superioridade [...] o fim é a reconciliação, o fim é a redenção, o fim é a criação da comunidade bem-amada.”[19] A partir do momento que a pessoa resiste sem revidar ela quebra uma corrente interminável de ódio que se processa na busca por justiça própria, somente depois disso pode começar a fraternidade.
Para Martin Luther King, a ação direta não violenta é a mais poderosa arma que existe a disposição dos oprimidos na luta pela liberdade e dignidade humana, sendo uma maneira de desarmar o adversário expondo suas defesas morais, “o adversário fica sem saber o que fará”[20]. É um método usado para retificar uma situação socialmente injusta que exige o comprometimento de uma técnica prática que invalida o emprego da violência para com o opressor a cada instante. Evidentemente, esse não é um amor afetivo, mas uma forma de amor que King chama de ágape, que significa boa vontade criadora, que compreende, que redime e aceita todos os homens, apesar de detestar o que eles praticam. Esse amor tal como concebe Martin Luther King é uma poderosa força que vence o inimigo através de sua capacidade de sofrer sem ser abalado. Não como uma inconseqüência emocional e impensada, mas tomando decisões práticas e previamente pensadas organiza uma poderosa ação direta.
Em carta escrita da prisão em Birmingham[21] em resposta a líderes religiosos que questionavam suas atitudes na cidade, King escreve o que pode ser considerado seu maior manifesto a favor da não-violência. Nessa o reverendo define ação direta não-violenta como a atitude de oferecer os próprios corpos como meio de apresentar a causa injusta ante a consciência da comunidade local e nacional. Aqui o reverendo amplia a questão mostrando que esse tipo de ação é capaz de criar tensões não apenas no opressor, mas em toda a sociedade, forçando-a a enfrentar o problema. A ação não-violenta procura dramatizar a questão impossível de ser ignorada de modo a possibilitar a negociação, levando ao entendimento mútuo. A injustiça deve ser exposta com toda tensão implícita de modo a levar a situação ao questionamento da opinião pública nacional ou mesmo internacional.
Por outro lado, ao contrário de Malcolm X, Martin Luther King concluiu que a ira negra era tão destrutiva e autodestrutiva que, sem uma visão moral e organização política, ela provocaria um desastre na América negra. Seu projeto de não-violência foi também uma forma de canalizar a ira negra para direções políticas que preservassem a dignidade dos negros e mudassem a sociedade americana. King temia que um grande caos viria se a não-violência se mostrasse ineficaz e sem atrativos para a geração seguinte. Na carta da prisão King alerta aos religiosos brancos que se eles repudiassem “os que empregam a ação direta não-violenta, milhões de negros, por frustração ou desespero, buscariam asilo e segurança nas ideologias dos nacionalistas pretos”[22], fato que, segundo ele, conduziria a um assustador pesadelo racial.
---------------------------------------------

[1] Trecho de um discurso de Martin Luther King por ocasião dos boicotes em Montgomery. Citado em: SHUKER, Nancy. Os Grandes Líderes – Martin Luther King. São Paulo, Nova Cultural, 1987. p. 40
[2] Mateus, capítulos 5, 6 e 7.
[3] Durante vários anos a NAACP usou esse lema, A partir de 1963 outros grupos adotaram a mesma idéia e deram maior atenção à campanha pela igualdade.
[4] Citado em: SHUKER, Nancy. Os Grandes Líderes – Martin Luther King. São Paulo, Nova Cultural, 1987. p. 70
[5] Citado em: FRANKLIN, John Hope. Da Escravidão à Liberdade – A História do Negro Norte-Americano. Rio de Janeiro, Editorial Nórdica, 1989. p. 462
[6] Citado em: SHUKER, Nancy. Os Grandes Líderes – Martin Luther King. São Paulo, Nova Cultural, 1987. p. 15
[7] Citado em: SHUKER, Nancy. Os Grandes Líderes – Martin Luther King. São Paulo, Nova Cultural, 1987. p. 15
[8] Citado em: SANTANGELO, Enzo. Martin Luther King – O Grito da Injustiça. Coleção Os Agitadores, v. 5, São Paulo: Edições Loyola, 1984.
[9] Citado em: FRANKLIN, John Hope. Da Escravidão à Liberdade – A História do Negro Norte-Americano. Rio de Janeiro, Editorial Nórdica, 1989. p. 467
[10] Carta da prisão de Birmingham, contida em: MONTEIRO, Irineu. O Pensamento Vivo de Martin Luther King. São Paulo: Martin Claret editores, 1988.
[11] YANCEY, Philip. O Jesus que eu Nunca Conheci. Editora Vida, 2002.
[12] Movimento liderado por Marcus Garvey que tinha por objetivo voltar para a África e ali constituir um Império Negro.
[13] CLARK, Kenneth B. O Protesto Negro – James Baldwin, Malcolm X e Martin Luther King. Rio de Janeiro: Editora Laemmert, 1969.
[14] CLARK, Kenneth B. O Protesto Negro – James Baldwin, Malcolm X e Martin Luther King. Rio de Janeiro: Editora Laemmert, 1969.
[15] O programa chamava-se “O negro e a promessa americana”, para uma de suas edições foram gravadas três entrevistas em maio e junho de 1963 com James Baldwin, Malcolm X e Martin Luther King, realizadas por Kenneth Clark, essas entrevistas foram disponibilizadas no livro citado acima.
[16] SANTANGELO, Enzo. Martin Luther King – O Grito da Injustiça. Coleção Os Agitadores, v. 5, São Paulo: Edições Loyola, 1984.
[17] CLARK, Kenneth B. O Protesto Negro – James Baldwin, Malcolm X e Martin Luther King. Rio de Janeiro: Editora Laemmert, 1969.
[18] SANTANGELO, Enzo. Martin Luther King – O Grito da Injustiça. Coleção Os Agitadores, v. 5, São Paulo: Edições Loyola, 1984.
[19] MONTEIRO, Irineu. O Pensamento Vivo de Martin Luther King. São Paulo: Martin Claret editores, 1988.
[20] CLARK, Kenneth B. O Protesto Negro – James Baldwin, Malcolm X e Martin Luther King. Rio de Janeiro: Editora Laemmert, 1969.
[21] O documento “Carta da prisão em Birmingham está no livro: MONTEIRO, Irineu. O Pensamento Vivo de Martin Luther King. São Paulo: Martin Claret editores, 1988.
[22] Carta da prisão em Birmingham
“Se protestarmos com coragem, mas com dignidade e amor cristão, quando os livros de história forem escritos no futuro, alguém terá de dizer: ‘Houve uma raça de pessoas, de pessoas negras, de pessoas que tiveram a coragem moral de lutar por seus direitos, e, assim, injetaram um novo significado nas veias da história e da civilização’”

3 comentários:

Junior disse...

Lembro-me da leitura de "Alma sobrevivente". Lembro-me tb de como fiquei chocado ao perceber que muito dos comportamentos descritos por Philip Yancey eram praticados por mim, para com aqueles que professavam uma fé diferente...Quanto engano!!! (perdão pelo devaneio...)

No que diz respeito a King,"Eu tenho um sonho de que um dia meus quatro filhos vivam em uma nação onde não sejam julgados pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter." Ao discursar, em agosto de 1963, numa manifestação que reuniu aproximadamente 200 mil pessoas em defesa dos direitos civis para os negros, o pastor não imaginava que, quarenta anos após sua morte, os Estados Unidos da América estariam elegendo o primeiro presidente afro-americano da história de seu país. Não quero discutir política, contudo, esse fato notável embora não represente o fim do racismo nas terras do Tio Sam, constitui avanço dos mais significativos para bani-lo das consciências, não só norte-americanas, mas de todos os povos. A eleição de Barack Obama surtirá os mais diferentes efeitos na existência das nações. Porém, deixo aqui uma ressalva: Espero que Obama possua todo respaldo necessário para o porvir, assim como espero tb, um dia, poder estar livre da política de protecionismo implementada por todos os seus antecessores.

→ mO®εиá ♥ disse...

Parabéns OTIMO trabalho !

Bonekinh@ disse...

muito lindo