sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Teologia da Libertação

Esse trabalho foi desenvolvido no segundo semestre de 2008 para a disciplina de Brasil IV, ministrado pela professora Margareth Rago. Meu trabalho final vai ser sobre o Conselho indigenista missionário (CIMI) então, acabei fazendo o fichamento de um livro do Leonardo Boff pra entender um pouco melhor sobre a Teologia da Libertação. Aí está.

----------------------------------------------------------------
BOFF, Leonardo. O Caminhar da Igreja com os Oprimidos – Do Vale de Lágrimas à Terra Prometida, Rio de Janeiro: Editora Codecri, 2 edição, 1981.
----------------------------------------------------------------

Introdução

Publicado pela primeira vez em 1980, o livro de Leonardo Boff, O Caminhar da Igreja com os Oprimidos, reflete sobre a situação histórica e religiosa da igreja a partir das transformações operadas pela teologia da libertação nos anos precedentes. Apesar da linguagem clara e pedagógica do frei, o fato de o livro ser uma reunião de pequenos escritos publicados em situações diferentes cujos objetivos nem sempre eram os mesmos, torna difícil encontrar no todo uma unidade estrutural que lhe de sentido uniforme. Além disso, o livro acaba sendo bastante repetitivo ao retomar pontos que já haviam sido explicitados com relativa clareza em partes anteriores. Por outro lado, tal configuração, nos permitiu adentrar minimamente nos mais variados problemas tratados pelo autor e ter uma noção da amplitude de seus questionamentos.
De qualquer modo, o que é evidente, a preocupação central de Leonardo Boff é mostrar o progressivo deslocamento do modelo da igreja, anteriormente associada ao Estado e as classes hegemônicas, a outra posição caracterizada pela aproximação com as classes subalternas. Tal movimento pode ser definido resumidamente como opção preferencial pelos pobres. Disso decorre uma série de fatores abordados pelo autor - as incompreensões e conflitos no próprio seio da igreja, a necessidade de reformulação teológica, o aprofundamento em questões sociológicas e a necessidade de pensar politicamente a igreja e a sociedade – que são explicitados e discutidos pelas mais diversas abordagens nos curtos capítulos da obra. Tomando por base esse eixo central, da igreja que penetra no povo, tentaremos discorrer sobre os pontos principais do livro a partir de três planos articulados entre si, o histórico, o teológico e o sociológico.

O Plano Histórico

É inquestionável que a igreja de um modo geral sempre ocupou um lugar social que ficava próximo ao poder econômico, político e cultural da sociedade. A hierarquia eclesiástica por muito tempo foi estruturada de maneira ordenada de cima pra baixo de modo a não deixar praticamente nenhuma participação às camadas populares. Tal situação criou uma religião que em grande medida era utilizada pelas classes altas como mecanismo de dominação, os grupos detentores do poder se associavam com a igreja e detinham assim um melhor controle sobre o social.
A partir da segunda metade do século XX algumas mudanças começam a se operar no interior da igreja brasileira, acompanhando o movimento continental de transformações. Já na década de 1950, com a modernização da instituição eclesial, surge o que Leonardo Boff chama de populismo eclesiástico. Apesar da maior sensibilidade social do clero desde então, essas modificações não atingiram a estrutura de poder da igreja. Mudanças mais profundas vão ocorrer só na década de 1960, quando vários grupos, ligados a igreja, mas principalmente laicos, começaram a aprofundar a análise do sistema. Muitos são os que vão se esforçar em entender os motivos do subdesenvolvimento a partir dos conflitos estruturais do sistema econômico, social e político em que viviam. Segundo Leonardo Boff, nesse período, as contradições do capitalismo foram se tornando cada vez mais óbvias para os pensadores latino-americanos que passaram a perceber a miséria como decorrente de um sistema global de produção que privilegia uns, mas condena à margem social a grande maioria da população.
Estabeleceram-se assim as bases mínimas para um projeto de orientação popular. Essa nova percepção exigia práticas libertárias cujos sujeitos deveriam ser o próprio povo. É nesse período que as comunidades eclesiais de base (CEB’s) elaboram sua autonomia e ensaiam em nível de grupo uma prática libertadora. Os pobres adquirem espaço nesse contexto a partir da crescente percepção da igreja da exploração das classes baixas, da crença na força histórica desses explorados como capacidade quase ilimitada de resistência e da valorização da religiosidade popular. Dessa forma o clero em grande medida inverte sua relação com o poder dominante, não mais legitimando seu o Estado, mas criticando sua exploração e abuso. A igreja, com sua força institucional, passa a defender os oprimidos e se levantar contra a fome, a propriedade privada, a desigualdade social, a violação dos direitos humanos, engajando-se no processo de libertação ou ainda, se fosse necessário, em atitudes revolucionárias capazes de gerar um desenvolvimento mais simétrico e livre de forma a superar o sistema capitalista.
Tal processo de proporções continentais teve seu marco na II Assembléia Geral do Conselho Episcopal latino americano realizado em Medellín em 1968. Ali foram tomadas três grandes opções de prática política e pastoral da igreja: a opção pelos pobres, saindo em defesa de seus direitos e denunciando a violência contra os humildes; a opção pela libertação integral, que implicam críticas pertinentes as causas geradoras do empobrecimento, ao sistema capitalista dependente, associado e excludente da América Latina; e opção pelas comunidades eclesiais de base (CEB’s) como lugar onde os pobres se reúnem, meditam, se ajudam, se articulam com outros movimentos sociais e tomam a palavra efetiva.
Por fim, a década de 1970, Leonardo Boff caracteriza como um período de convergência ainda maior entre a igreja institucional e a rede de comunidades na base. A inserção ainda mais acentuada do país no capitalismo internacionalizado e a política autoritária do regime militar aumentam ainda mais as contradições do sistema e a degradação das classes baixas. Por outro lado, tal situação contribuiu para solidificar a consciência e o envolvimento cristão ao projeto do povo, configurando assim uma nova imagem da igreja frente à sociedade: solidária aos pobres, corajosa frente ao Estado, defensora dos humildes e encarnada nas CEB’s. É nesse período também que a teologia da libertação é decisivamente fundamentada do ponto de vista teórico a partir da publicação de diversas obras de peso, como a de Gustavo Gutiérrez no Peru, intitulada Teologia da Libertação, e o livro, Jesus Cristo, Libertador, do próprio Leonardo Boff. Por fim em 1979, outra Assembléia dos bispos da América Latina, agora em Puebla, quer ampliar ainda mais o movimento a partir da conversão de toda a Igreja para uma opção preferencial pelos pobres, em vista de sua libertação. Para o autor essa opção significa a mudança teológico-pastoral mais importante desde a Reforma protestante, por ela se define um novo lugar histórico-social a partir do qual a igreja quer estar presente e construir-se a si mesma.

O Plano Teológico

Obviamente todas essas mudanças no seio da igreja foram se efetivando em meio a várias contestações de muitos grupos, principalmente internos ao clero. No debate teológico acerca do peso social, político e libertário da fé cristã Leonardo Boff identifica duas versões principais: a corrente continuadora e a corrente inovadora. A primeira é intra-sistêmica e eclesial, essencialmente religiosa, acha que a igreja não deve se intrometer num campo secular como a política. Para esses o cristianismo lida com a relação homem e Deus e não com mudanças econômicas e sociais. Já o segundo grupo, do qual partilha Boff, crê que a missão da igreja é mais do que religiosa, ela é integral. A fé pretende uma libertação total e a plenitude da vida humana em todas as dimensões oprimidas, não apenas no campo religioso, mas também no social, político e econômico. Possui uma percepção maior da libertação por meio de Cristo que favorece a luta pelos direitos das classes subalternas. Para esses o cristianismo é um processo de encarnação de Deus no qual tudo vai sendo assumido e transformado.
Seguindo essa segunda linha, Leonardo Boff afirma que a teologia deve ter dois olhos, um voltado para trás e outro para frente. Por um lado deve apropriar-se do passado, saber interpretá-lo corretamente e ser fiel aos testemunhos da fé cristã. Por outro lado o teólogo deve fazer-se sensível aos problemas relevantes para o homem atual e renovar a teologia segundo os problemas e questões de sua época. É fundamental saber articular esses momentos sem radicalizar nos extremos que poderiam gerar, por um lado, um dogmatismo imutável e conservador, e por outro, a desvinculação do argumento da própria teologia. O problema da corrente teológica continuadora é sua excessiva fixação ao passado, não pensa a religião a partir dos problemas de hoje, mas de questões fundamentadas apenas no transcendental, ou, se é possível assim dizer, no plano ideal.
Deve-se evitar o reducionismo freqüente entre os teólogos de tentar pensar o cristianismo desvinculado da sociedade em que se vive. Para Leonardo Boff até mesmo a teologia é limitada pelo contexto sócio-cultural em que está inserida, ela não é uma realidade primeira da qual deve-se buscar uma origem, mas resultado de um esforço de tradução e objetivação de uma realidade prévia que subjaz a totalidade da história. No campo religioso o divino irrompe no homem um choque existencial e totalizante e o resultado disso é a fé que interpreta a realidade a luz de Deus. A teologia é o esforço de tradução da experiência religiosa de forma racionalizante numa realidade historicamente determinada.
Por trás de toda prática inovadora na igreja se esconde uma experiência religiosa típica. Mudanças sócio-históricas carregam um sentido último que os espíritos religiosos detectam como proveniente do mistério de Deus, ele surge como acontecimento de sentido, de esperança para o homem. Cabe ao teólogo, utilizando-se o potencial de sua razão, procurar entender o máximo possível e criar um discurso crítico e sistemático. Mas a teologia não deve se restringir ao sentido religioso da experiência, deve contemplar também, a luz de Deus, aspectos da política, da economia, da sociedade, embora sempre regressando a fé, que foi de onde partiu. O critério que deve estabelecer o religioso para não se perder é sempre voltar a tradiçaõ e confrontar seus pressupostos com os interesses da teologia e do Jesus histórico, que baseiam as crenças do cristianismo.
Mas, com a profunda preocupação da teologia da libertação de atuação no mundo, suas claras aproximações com o marxismo e o reconhecimento da historicidade de sua teologia, ela acaba se configurando teologicamente a partir de diversas características que lhe são bastante peculiares. Num capítulo a parte Leonardo Boff trata de explicitar a leitura bíblica feita pela teologia da libertação. Para ele a fé verdadeira é a que leva a prática libertadora a partir do amor efetivo. Passa-se de uma atitude de entrega a Deus a conseqüente atitude de entrega aos irmãos como serviço, solidariedade, construção de relações fraternas e justas de forma a dar vida ao Reino de Deus. Esse reino é caracterizado pela verdade, justiça e amor e o triunfo dessas coisas hão de se concretizar ainda nessa terra.
O autor segue dizendo que, foi por meio de Jesus que Deus se fez libertador e redentor totalmente presente. A encarnação é um processo iniciado em Cristo mas que permanece até hoje, no qual Deus vai assumindo na história seus distintos momentos. Tal encarnação é libertadora, apresenta um projeto que fere o poder e que se posiciona contra ele. A morte de Jesus é o protesto contra o mundo, a consumação da iniqüidade humana. A ressurreição é a concretização da vitória final do oprimido, é a legitimação da utopia, marcando o triunfo da vida num sentido superior e pleno. O levantar-se dos mortos também vem a dizer que o humilde e rejeitado têm futuro, Deus tomou partido dos humilhados porque foi num rejeitado que Ele realizou o fato decisivo da história, o triunfo da vida e da causa justa. É a vitória do oprimido.
O Espírito Santo é aquele que elevou Maria a altura divina, honrando o feminino; é também o responsável pela atualização do valor histórico de Jesus transformando as estruturas sociais na direção da justiça, amor e fraternidade. A igreja é a comunidade que reúne na consciência a verdade de Jesus e do Espírito Santo, celebra a redenção e sinaliza a verdade universal que todos podem sentir de perto. O mundo está destinado a ser na totalidade o Reino de Deus liberto de toda imperfeição, a concretização completa da obra libertária de Cristo num momento histórico futuro, mas que já se realiza no presente.

O Plano Sociológico

Mas devemos agora retornar a metáfora dos dois olhos. Como é evidente em sua teologia, Leonardo Boff se esforça em articular o duplo movimento entre a tradição religiosa e os problemas concretos de seu tempo. Entretanto, a realidade histórico-social não é simples de ser interpretada. Como ele mesmo diz, entre o olho analista e a realidade se interpõe obstáculos que impedem o conhecimento dos mecanismos de funcionamento das sociedades: as ideologias. Desse modo a fé precisa se auxiliar de outras ciências para que capacitem a decodificar com clareza a realidade e propiciar um aceno mais crítico e objetivo aos problemas. A prática histórica libertária exige um momento teórico cambiável consoante as novas exigências da realidade. Apenas desse modo se evitam soluções teológicas simplistas e equivocadas.
Aqui se coloca um problema fundamental da crença, de grande parte da ciência, principalmente entre sociólogos (Marx, Max Webber, entre outros), de que a religião é apenas aparelho ideológico do Estado usado somente para domestificação dos dominados e legitimação de poder das classes dominantes. Contrariando esses autores Leonardo Boff argumenta que a religiosidade pode ter valor de ação social e política potencializando ainda mais a força da mobilização libertária. É na religião que se articulam os grandes temas que movem a consciência e as buscas humanas radicais. A religião expressa uma experiência irredutível que transcende o religioso. E assim como esse poder imanente a religião pode ser usado para a dominação, os intelectuais orgânicos podem elaborar uma visão religiosa de mundo e assim ajustar o discurso aos interesses dos oprimidos e seus anseios de mudança contra a dominação.
Para isso o frei sugere a utilização da análise dialética que permite maior atenção aos conflitos e desequilíbrios do sistema. Isso corresponde ao desejo da fé em função da libertação dos oprimidos. Segundo o autor, o marxismo é a interpretação que mais pode contribuir para análise dos problemas sócio-históricos para se pensar teologicamente a realidade. Leonardo Boff é extremamente cuidadoso ao tratar do assunto devido à oposição de grande parte da igreja na época principalmente ao comunismo soviético. Assim ele define diferentes tipos de marxismo: como prática histórica da luta de classes, como prática econômico-política, como prática teórico-filosófica e como prática científica de método de análise.
Em relação aos dois primeiros ele praticamente não se pronuncia, apenas deixa claro que as idéias marxistas certamente são melhores do que as capitalistas. Em relação ao materialismo filosófico se opõe frontalmente por negar qualquer transcendência. Por fim considera que a teoria histórico-materialista, como método cientifico, pode ser instrumento de Deus. A teoria é discutível, mas trás luz a crítica ao sistema capitalista, podendo ser útil a igreja em sua prática de defesa do pobre. Com o marxismo é possível refletir, a luz da mensagem de Jesus, sobre o pecado da opressão econômica, política, cultural, espiritual e sobre a graça da libertação. Mas Leonardo Boff é bastante enfático ao afirmar que não é teologia no marxismo, mas marxismo na teologia. O uso da análise histórico-materialista é útil apenas como um instrumento subordinado a própria fé. A partir do conhecimento mais aprofundado dos meios de dominação pode-se fortalecer o peso político da fé e achar modos de ajuizar o sistema capitalista. A teologia assume uma potencial função social e política de crítica e animação das forças libertárias dos oprimidos e marginalizados. Deixa de se restringir ao plano simbólico e idealista para ter uma ação efetiva no nível político e infra-estrutural.

Conclusão

Podemos dizer que Leonardo Boff via o movimento da teologia da libertação em 1980 em plena etapa de expansão dos anos históricos anteriores. Cada vez mais percebia a igreja se voltando aos oprimidos, e não somente, mas caminhando junto com eles. Seu subtítulo é bastante esclarecedor, Do Vale de Lágrimas (que indica o deserto que estavam passando) à Terra Prometida (a qual estavam chegando). Reassume desse modo o sentido teológico do êxodo, de libertação do cativeiro do Egito e a longa caminhada a Israel rumo a posse da terra que emana leite e mel concedida a eles por Deus. Tal evento é metáfora ao próprio momento político e social pelo qual passava o país naquela conjuntura cuja abertura política era um processo que estava ocorrendo e a democracia logo poderia ser novamente vivenciada. O Reino de Deus já dava indícios de estar se concretizando no país.

Nenhum comentário: