domingo, 6 de julho de 2008

Imigração e Movimento Operário no Brasil da Primeira República

Trabalho final de Brasil III, ministrada pelo professor Vinícius Rezende no primeiro semestre de 2008.
Introdução

Muitos dos estudos realizados sobre o movimento operário no Brasil da primeira república buscam explicá-lo a partir de suas ausências e não pelas especificidades que lhe são próprias.[1] Tais interpretações redutoras do real processo aqui ocorrido se deve a dois fatores complementares: as comparações do movimento brasileiro com as lutas européias, estas tomadas como centro de análise histórica; e/ou concepções teleológicas que entendem a história partir de etapas de desenvolvimento linear e progressivo. Diante de tais pretensões muitos historiadores tenderam, anteriormente a própria análise crítica da documentação, a homogeneizar a classe trabalhadora dentro de arquétipos bem definidos: ela era toda branca, imigrante, desorganizada e sem consciência de classe. Tal caracterização provém do pressuposto de que só a partir da revolução de 1930 se efetivou a real ascensão burguesa em nosso país e, em conseqüência, se iniciou de fato o movimento trabalhista brasileiro.[2]
Porém, nosso intuito nesse presente trabalho vem a acompanhar a historiografia mais recente no sentido de desmistificar o operariado da primeira república e entende-lo na lógica que lhe é própria, dentro de um processo de múltiplas determinações e influências. Tendo em mente esse objetivo, tomamos como recorte de análise a seguinte questão: como a imigração européia influenciou e/ou limitou a constituição de um movimento organizado entre os operários das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo entre fins do século XIX e início do XX? Ao contrário do que propõe as interpretações tradicionais, o movimento aqui é mais múltiplo e vivo do que o europeu na medida em o proletariado brasileiro é constituído por uma soma de pessoas das mais diversas culturas, línguas, etnias e posições sociais. E é nesse quadro complexo em que coincide a vinda da mais variada gama de imigrantes, os primórdios da república, a recente abolição da escravidão e o nascimento de uma nova elite burguês-industrial que o movimento operário brasileiro deve ser pensado.
A Imigração Estrangeira

Segundo o recenseamento do Brasil realizado em 1920, por volta de 3.390.000 de imigrantes entraram no Brasil entre 1871 e 1920. Desses, aproximadamente 1.373.000 eram italianos, 901.000 portugueses e 500.000 espanhóis[3]. Esses três maiores grupos migratórios vieram também a constituir a maior parte da mão-de-obra industrial do período. Dentre os que foram para os grandes centros urbanos os italianos se concentraram na cidade de São Paulo, já os espanhóis e portugueses acabaram por se fixar nas cidades portuárias de Santos e do Rio de Janeiro.
Segundo censo realizado na capital paulista em 1893[4], 54,5% da população da cidade era estrangeira, sendo que os imigrantes correspondiam a 82,5% da mão-de-obra industrial. Em 1900[5], numa pesquisa que considerava o Estado de São Paulo como um todo, 92% dos operários industriais eram estrangeiros e 81% italianos. Já em 1915[6] um relatório do Departamento de Trabalho de São Paulo afirma que a maior parte dos operários da cidade eram italianos. Por fim, um novo censo realizado em 1920[7], indica que os estrangeiros correspondiam a 52% da população daquela cidade e 51% dos empregados na indústria. Entretanto, é bem possível que muitos dos brasileiros considerados nessa última pesquisa sejam filhos de imigrantes.
Quanto ao Rio de Janeiro os dados são menos precisos. Na Capital federal os italianos são menos expressivos, havendo uma maior predominância de portugueses e espanhóis. As pesquisas de Sheldon Maram nos mostram que segundo um censo de 1890[8], 39% dos empregados em indústria eram estrangeiros. Já em 1906[9] essa porcentagem sobe para 44%, para cair novamente para 32,2% em 1920[10]. Tais dados demonstram que na cidade do Rio de Janeiro a presença do imigrante foi menor, apesar de, ainda ali, constituir-se numa porcentagem elevada. Todavia tal situação permitiu uma maior atuação dos brasileiros na indústria e conseqüentemente nos movimentos dos trabalhadores.
A importância dos imigrantes na organização do movimento operário fica ainda mais explicita a partir de um levantamento feito por Sheldon Maram[11] acerca da nacionalidade dos principais líderes sindicais entre 1890 e 1920. Os dados seguem na tabela abaixo:

Brasileiros 35
Italianos 24
Portugueses 23
Espanhóis 22
Alemães 1
Poloneses 1
Não identificados 13
Total 119

Dentre os identificados por nacionalidade, 71 (67%) haviam nascido na Europa. Desses os italianos aparecem como o principal grupo seguidos de perto pelos portugueses, que, contrariamente ao que mostra a tabela, na época eram tidos no senso comum como passivos e fura-greves. Especificamente na cidade de São Paulo, os principais líderes estrangeiros do período correspondiam a 82% de um total de 44, já no Rio de Janeiro a porcentagem cai para 50% dos 17 identificados naquela cidade.
Portanto, apesar da crítica da historiografia recente acerca da homogeneização movimento trabalhista em parte da historiografia tradicional, se estamos falando de primeira república é necessário considerar que se trata de uma classe onde predominavam estrangeiros. E ainda que questionemos a tradição industrial, a sofisticação política e a experiência organizacional de tais imigrantes é inegável que o fato destes estarem tão presentes na indústria trouxe conseqüências ao nível da consciência e da organização dos trabalhadores. Além disso, a averiguação de que a maioria desses operários provinham de regiões rurais da Europa não exclui a possibilidade de que elementos singulares como tais líderes realmente tivessem participado de organizações operárias no velho continente. No entanto é muito difícil de avaliar qual foi o real peso do elemento estrangeiro na constituição da classe operária do Brasil. Até que ponto o imigrante realmente trouxe novas influências? E em que medida a própria heterogeneidade étnica e a particularidade dessa nação na América deu contornos específicos e diferentes daquele movimento tal como podemos encontrar na Europa?

Exército de Reserva e Individualismo

São diversas as decorrências desse contingente imigratório para a formação do movimento operário no Brasil; a mais imediata é a formação de um considerável exército de reserva para a indústria. Como nos mostra Michael Hall[12], desde a década de 1880 muitos imigrantes saíram das fazendas para se fixarem nos grandes centros urbanos como as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em decorrência a esse fator o movimento operário encontrou dificuldades na sustentação de greves em virtude do grande contingente populacional disposto a substituí-los no mercado de trabalho. Isso foi bem considerado pelo militante anarquista Gigi Damiani, segundo ele, “os que governam o Brasil para a indústria e propriedade de seus sócios, precisam que haja sempre uma pletora de braços no mercado de trabalho. Com esta pletora, pretendem manter os salários de fome, horários de detenção e despedaçar a organização de classe”.[13]
Outro fator que deve ser aqui considerado é o individualismo do imigrante. Muitos deles vieram ao Brasil justamente com o intuito de fazer fortuna, investiam suas economias e adiavam os prazeres imediatos a fim de melhorar sua situação econômica e retornar a Europa com um estilo de vida melhor. Como viam essa terra como um lar temporário em que estavam apenas de passagem relutavam em participar de uma organização que poderia causar-lhes a perda do emprego. Tal pressuposto é em grande medida confirmado pelo fato de que em 1920, somente 6.441 (14,5%) entre os 44.374 imigrantes das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro haviam adotado cidadania brasileira.[14]
Vários jornais operários da época relatam tal situação com fortes críticas à “indiferença que os estrangeiros têm pela vida social de um país onde, na maioria, vem para arranjar dinheiro e voltar aos seus lares”[15]. Para Antônio Piccarolo, os imigrantes são, “antes de tudo, elementos flutuantes, incertos, que mudam a todo momento, preocupados apenas consigo mesmos, não se importando com o País, com suas lutas, seus problemas, seu destino”..., tal pragmatismo econômico “auxilia... para despertar nele os instintos menos nobres, um egoísmo desenfreado, o que faz colocar seus interesses pessoais acima de qualquer princípio de solidariedade social”[16]. No jornal Guerra Sociale há um desprezo ainda maior contra os “avarentos imigrantes”, que “só olham para o tostão, que vão ciscar com a boca na merda.”[17] A repetição de tal tema na imprensa sugere que, de início, uma parte significativa dos estrangeiros encarou com ceticismo a possibilidade de sua participação em estratégias políticas baseadas em ação coletiva, estavam convencidos que “triunfariam com muito mais facilidade individualmente, mesmo adulando e rastejando diante do patrão, do que como classe”.[18]

As Identidades dos Operários

Entretanto o elemento que mais chama a atenção da situação do operariado brasileiro é sua enorme diversidade étnica e racial. Tal situação gerou inevitáveis conflitos que se não impediram, ao menos dificultaram em muito a organização do movimento. A nacionalidade e a classe são duas percepções diferentes de identidade que se articularam de diferentes maneiras conforme a época e o local.
Em um artigo sobre a identidade da classe operária no Brasil o historiador Cláudio Batalha[19] expressa a formação do operariado a partir da diferenciação entre uma identidade visível decorrente das próprias condições de existência de determinado grupo e o discurso que se forma em torno dessa identidade. O que notamos nos primeiros anos da república é um conflito existente entre, por um lado, a identidade nacional dos diferentes grupos vindos ao Brasil e que participa de uma tradição mais longa evidenciada pela cultura, a língua e os costumes. Por outro lado, uma nova condição material de existência desses grupos faz surgir uma nova identidade cujas elites e os próprios líderes sindicais acabam por vincular em torno da noção de trabalho. No discurso dominante o trabalho legitima socialmente o indivíduo e no discurso operário é o grupo ou o conjunto da classe que encontram sua própria legitimidade.
Desse modo, entendemos a organização dos trabalhadores industriais no Brasil no período que vai de 1880 a 1930 como um constante conflito entre essas duas principais identidades que compunham o operariado da época: a nacionalidade e a classe a qual pertenciam. Todavia, o que notamos nesse embate ao longo dos anos, através de idas e vindas, continuidades e rupturas, é uma lenta sobreposição da identidade de classe sobre as identidades nacionais. A associação operária se apresenta nesse contexto como a materialização da experiência comum em torno da qual se constrói a identidade coletiva e é, ela própria, um fator de reprodução dessa identidade. Na construção de tais organizações se evidencia a vontade de estabelecer uma identidade coletiva. Feitas tais considerações podemos passar a olhar mais de perto os conflitos étnicos e culturais decorrentes da tentativa de organização de um movimento operário.

Os Conflitos Étnicos

Muito embora os imigrantes de fato proviessem de áreas rurais da Europa e, portanto, não fossem qualificados para o trabalho industrial, os empregadores optaram, de inicio, pela mão-de-obra estrangeira por considerarem os europeus como gente operosa e de confiança, dotada de aptidões especiais para as exigências da vida urbana e o trabalho na indústria. Desse modo grande parte da empresas brasileiras foi ocupada por eles, principalmente nos cargos mais qualificados. Tal situação levou muitos brasileiros a se ressentissem da superioridade cultural e até mesmo racial que os imigrantes ostentavam sobre eles. Em decorrência conforme se processavam as greves os nacionais eram os primeiros a se colocar a disposição para substituir os estrangeiros, abortando assim muitas greves e ocasionando o declínio de muitos sindicatos.
Em seu livro, Trabalho Urbano e Conflito social,[20] Boris Fausto considera que os conflitos de agosto de 1986 em São Paulo se explicam pela transformação demográfica e ocupacional que a cidade sofreu devido à chegada dos imigrantes italianos. Ali essa nação predominava de tal forma na grande indústria que os brasileiros, em certas épocas, correspondiam a menos de 10% dos operários. Tal fator tem como óbvia decorrência a ausência quase total de nacionais no movimento operário daquela cidade em fins do século XIX. Já em 1892 o Diário Popular considerava:

“A classe média está sendo absorvida pelo elemento estrangeiro, pela considerável massa dos que emigraram para aqui e tomaram conta de toda a pequena indústria, de todo o pequeno comércio, de toda a pequena propriedade e que enriquecida porque trabalha e gasta pouco, tem amplo e incontestável direito de fazer imposições em seu exclusivo proveito.”[21]

Porém, os conflitos entre brasileiros e imigrantes deixou maiores marcas no Rio de Janeiro onde o operariado era mais misto entre os dois grupos. Um exemplo dramático é o que ocorreu em 1908 na Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, que fora controlado durante muitos anos por brasileiros negros e mulatos. Quando nessa data dois portugueses assumiram o controle do sindicato os ânimos ficaram acirrados resultando numa sangrenta batalha entre brasileiros e portugueses na qual um português morreu.[22] Tal disputa acarretou no inevitável declínio daquela Sociedade. Um choque como esse pode ser entendido como forma de reação a continua invasão por parte do estrangeiro a uma área que, para o brasileiro, lhe parecia reservada.

Mas a divisão dentro do movimento operário se dava também entre os próprios estrangeiros e, para além disso, dentro de uma mesma nacionalidade, como mostra o jornal Il Pungolo em 1909:

“A grande coletividade operária está dividida e subdividida e traz a guerra latente em seu próprio seio... homens brancos, negros, amarelos, juntos, jamais: cada um no seu lugar. Alemães, russos, turcos, poloneses e espanhóis, italianos, lado a lado, é pior que andar no escuro. Cada povo que se defenda! Mas a questão não termina aqui! A Itália é unificada, livre e independente. No entanto, eu sou piamontês, você é toscano, vocês são sicilianos, calabrezes, venezianos, lombardos, etc., e não nos entendemos entre nós.”[23]

A hostilidade e mesmo a simples diversidade entre as nacionalidades criaram barreiras enormes para a organização dos trabalhadores. A começar pelos sindicatos que tinham grandes dificuldades em reunir diferentes etnias. O sindicato de pedreiros de São Paulo, por exemplo, de predominância italiana, conseguiu manter muito poucos dos não-italianos em seus quadros pois a língua falada nas reuniões e também na propaganda, era a italiana.[24] Da mesma forma o sindicato dos chapeleiros da capital paulista era composta quase exclusivamente por italianos devido à recusa de alemães, espanhóis e portugueses em participarem do grupo.[25] Um outro evento marcante ocorreu no ano de 1906, quando os portugueses relutavam em entrar no sindicato dos transportadores de tijolos, dominado novamente pelos italianos, houve lutas ásperas travadas a tiros de garrucha.[26]
De um modo geral, os italianos dificilmente se davam com os portugueses por considerá-los como furadores de greves sem consciência social. Tal preconceito étnico pode ser melhor entendido num livro anarco-sindicalista intitulado A Terra Livre: “É bastante ridículo o papel que os portugueses vêm desempenhando. Esses pobres “Maneis”... correm para a central de polícia e se tornam seus fantoches, prontos para assassinar grevistas, enquanto que aqueles que produzem todas as coisas e não possuem nada estão pedindo somente mais um pedaço de pão.”[27]
Os próprios jornais operários acabam por demonstrar o caráter desarticulado do movimento como um todo e a dificuldade de transpor da barreira lingüística. Na quase totalidade dos casos eles eram escritos na língua natal de seus produtores o que torna obviamente a capacidade de veiculação das idéias bastante limitada. No período tratado podemos encontrar vários jornais em italiano, alguns em espanhol e português e até dois escritos em língua alemã.

A Mudança na Identidade

Apesar das diversas dificuldades aqui apresentadas o movimento operário do período não deve ser pensado como um fracasso, muitas vezes houve avanços frente os empregadores. Em alguns momentos as injunções econômicas atravessaram as fronteiras étnicas, lingüísticas e culturais e tornavam-se as causas mais importantes unindo os trabalhadores até então separados por “nacionalidade, ocupação profissional, língua, idéias e sentimentos étnicos”[28]. Aos poucos a condição de assalariado acabou por prevalecer sobre as diferentes nacionalidades. Tal fenômeno é percebido primeiramente entre os trabalhadores mais qualificados que já em fins do século XIX podiam fazer frente aos patrões sem a possibilidade de perder os empregos.
Mas, conforme considera Sheldon Maram,[29] há um salto na capacidade organizativa dos operários a partir do fim da primeira guerra mundial. Nessa época muitos dos trabalhadores imigrantes, mudam de atitude em relação ao trabalho organizado. Muitos já estavam aqui a muito tempo e começam a aceitar o Brasil como terra permanente. Diante dessa nova situação os sindicados passam a ser vistos por esses imigrantes como meio de luta necessário para a garantia de uma boa situação nas condições de trabalho e do próprio futuro. Além disso, o tempo de permanência de grande parte deles aqui contribui para o surgimento de uma identidade de vínculo com o Brasil, sua cultura e sua língua. O deslocamento a essa nova identidade nacional comum, ainda que isto em grande parte das vezes não tenha passado pelo registro do Estado, fortaleceu ainda mais o movimento nesse período.
Mas as mudanças na capacidade de articulação da classe não se processou apenas entre os operários. Os empregadores que de início utilizavam-se apenas da repressão policial violenta para conter as ameaças das greves adotam, sucessivamente, novos meios de controle do operariado. Em 1907 é promulgada uma nova Lei em favor da deportação “do estrangeiro que comprometer a ordem nacional ou a tranqüilidade pública”.[30] A partir de então a elite passa conjuntamente a incitar o medo dos sindicalistas estrangeiros, se livra de certos elementos indesejáveis e passa a formular um discurso que defende que todo o movimento operário é, na verdade, uma maquinação urdida pelos imigrantes. Como bem mostra essa frase: “Por toda a parte é o mesmo: os nossos escravos ousam levantar a voz?! Isso não é senão o resultado dos “agitadores de profissão”, dos estrangeiros e, por isso, livremo-nos deles”.[31] Como vimos tal homogeneização não correspondia a realidade.
Tal discurso consistia basicamente em afirmar que, no Brasil, não havia razão para a agitação proletária, aqui o operário podia encontrar “na lei as garantias necessárias para sua subsistência e compensação razoável do trabalho”,[32] além do mais, por ser um país novo, essa nação está isenta de problemas sociais.[33] Se assim é, a inquietação operária só pode decorrer da incitação de agitadores estrangeiros que sem a devida compreensão das condições e tradições brasileiras, espalhavam suas idéias venenosas a tão suscetível classe operária.
O Correio da Manhã afirmava em 1917 que eram elementos agitadores que, “abusando da boa fé de nosso proletariado e da ignorância da maioria dos trabalhadores brasileiros, têm espalhado doutrinas e teorias cuja falsidade não pode, infelizmente, ser imediatamente compreendida por nossas classes trabalhadoras”.[34] O Paiz reforça tal concepção afirmando que o trabalhador brasileiro, “disciplinado e de boa índole, está sendo minado pela ação deletéria de alguns estrangeiros”[35]. Tal maquinação das elites tinha por intenção fundamental dividir a classe trabalhadora instigando um sentimento nacionalista e um ressentimento dos trabalhadores nacionais contra os estrangeiros que dominavam o movimento. Mas notamos aqui um novo deslocamento das identidades em torno da nacionalidade e do trabalho. Se no Rio de Janeiro da virada do século, como nos mostra Cláudio Batalha, é o imigrante português que encarna a imagem do bom operário na visão das elites,[36] nesses jornais é o brasileiro que é assim identificado. Em contraste o estrangeiro é sucessivamente aproximado das “classes perigosas”, um mal operário na ética de trabalho burguesa. É na tentativa de separar os trabalhadores por cisões étnicas que as elites acabam por reafirmar, sobre o trabalho, o elemento central para a formação de uma nova identidade.
A idéia de uma conspiração estrangeira surtiu efeito e espalhou, trazendo dificuldades a organização operária em sua relação com os brasileiros. Desde então muitos jornais operários passaram a se defender de tais acusações tentando mostrar a presença de brasileiros no movimento e insistir na “brasilidade” desses imigrantes. Nesse sentido é interessante notar como os discursos dos operários se esforçam por demonstrar o quanto os estrangeiros vincularam-se a cultura brasileira. O português Mota Assunção afirma: “eu não sou um estrangeiro... se eu for obrigado a ter uma nacionalidade, esta só pode ser a brasileira... em Portugal é onde me considero um verdadeiro estrangeiro”.[37] Já em 1919 o jornal carioca Spartacus, do qual a maioria dos signatários eram brasileiros, defendia os imigrantes afirmando que eles “aqui cresceram, formaram seus conceitos e constituíram família. Identificaram-se inteiramente com a nossa maneira de viver”.[38] Na oposição as elites em defesa da organização operária, até os anarquistas, paradoxalmente, acabaram por vincular as lutas sindicais a identidade nacional de brasileiros.

Conclusão

Distanciamos-nos assim das interpretações tradicionais que pensam o operariado da primeira república a partir de suas ausências em relação ao paradigma europeu. A classe e a consciência de classe emergem da situação própria na qual ela esta inserida, sendo que uma experiência não é mais verdadeira que a outra. Na busca pela reconstituição da forma pela qual a imigração influiu no movimento operário no caso específico do Brasil da primeira república acabamos por perceber no todo a continuidade de um processo complexo de formação de uma nova identidade de classe que acaba por se sobrepor as divisões étnicas e culturais. Mas mesmo esse processo de transformação não é retilíneo e homogêneo, o que de fato há, na história do movimento, são constantes conflitos dentro das próprias classes trabalhadoras e contra seus empregadores num movimento plural em que circulam várias identidades mas que nunca se completam, nunca se fixam totalmente.

[1] São vários os estudos na historiografia acadêmica que procura explicar a classe operária brasileira a partir das ausências, ou desvios dos caminhos da revolução. Para citar exemplo recente ver CARONE, Edgard, Classes Sociais e Movimento Operário, São Paulo, Ática, 1989.
[2] Uma discussão mais aprofundada sobre a data de 1930 na interpretação do movimento operário pode ser encontrada em HALL, Michael; PINHEIRO, Paulo Sérgio “Imigração e Movimento Operário no Brasil: uma interpretação” em: DEL ROIO, José Luiz (org.) Trabalhadores do Brasil – Imigração e Industrialização, São Paulo: Ícone, 1990.
[3] Fernando Carneiro, Imigração e Colonização do Brasil (Rio de Janeiro, 1950)
[4] Relatório apresentado ao cidadão Dr. Cesário Motta Júnior, Secretário dos Negócios do Interior de Estado de São Paulo pelo Diretor da Repartição da estatística e do Archivo, Dr. Antônio de Toledo Piza, em 31 de Julho de 1894.
[5] Brasil Diretoria geral de Estatística, Relatório... 1908, p. 190
[6] São Paulo, departamento Estadual do Trabalho, “A crise geral do trabalho”, Boletim, 1915, p. 53.
[7] Brasil, Diretoria Geral de Estatística, Recenseamento do Brasil, realizado em 1º de Setembro de 1920, Rio de Janeiro, 1930, vol. IV, 5 parte, tomo I, pp. 170-173.
[8] Brasil, Diretoria Geral de Estatística, Recenseamento Geral da República dos Estados Unidos do Brasil em 1890. Distrito Federal, pp. 418-419, 420-421.
[9] Recenseamento do Rio de Janeiro de 1906 pp. 388-389; Centre Industriel du Brésil, Lê Brésil: Sés Richeses Naturelles, ses Industries (Paris, 1910) , II, p 383.
[10] Brasil, Diretoria Geral de Estatística, Recenseamento do Brasil, realizado em 1º de Setembro de 1920, Rio de Janeiro, 1930, vol. IV, 5 parte, tomo I
[11] MARAM, Sheldon Leslie, Anarquistas, Imigrantes e o Movimento Operário Brasileiro 1890-1920, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1979. pp. 20-22.
[12] HALL, Michael; PINHEIRO, Paulo Sérgio “Imigração e Movimento Operário no Brasil: uma interpretação” em: DEL ROIO, José Luiz (org.) Trabalhadores do Brasil – Imigração e Industrialização, São Paulo: Ícone, 1990. p. 48
[13] G. Damiani, I paesi nei quali non si deve emigrare. La questione sociale nel Brasile. Milano, 1920, pp. 8-50.
[14] Recenseamento do Brasil de 1920, IV, pt. 1, 307, 345,
[15] “O anarquismo no Brasil” por “C”, La Barricata, n° 383, 15/01/1913
[16] Antônio Piccarolo, O Socialismo no Brasil: Esboço de um Programma de Ação Socialista (São Paulo, s.d.) pgs. 45 e 53
[17] Guerra Sociale, 04/11/1916
[18] Avanti!, 28/11/1914
[19] BATALHA, Cláudio H. de Moraes. “A identidade da classe operária no Brasil (1820-1920): Atipicidade ou Legitimidade?”. Revista Brasileira de História, São Paulo, Anpuh, vol. 12, nº 23-24, p. 111-124, 1991-1992.
[20] FAUSTO, Boris “ A formação da classe operária: determinações estruturais” em Trabalho Urbano e conflito Social (1890-1920). 4ª Edição, São Paulo, Difel, 1977.
[21] Diário Popular, 12/03/1892
[22] Informações retiradas do Correio da Manhã por Sheldon Maram
[23] Il Pungolo, 1º de Maio de 1909
[24] A Terra Livre (Rio De Janeiro), 28 de Setembro de 1907, p. 4.
[25] Il Risveglio, 13/02/1898, 10/04/1898
[26] PENTEADO, Jacob, Belenzinho, 1910 (retrato de um época), São Paulo, p.22
[27] A Terra Livre (São Paulo) 8 de Junho de 1807. p. 3
[28] O Amigo do povo (São Paulo) 13 de setembro de 1903, p. 2
[29] MARAM, Sheldon Leslie, Anarquistas, Imigrantes e o Movimento Operário Brasileiro 1890-1920, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1979. p. 57
[30] Artigo 1° da Lei Adolfo Gordo, 05/01/1907
[31] Jonh W. F. Dulles, Anarchists and Communists in Brazil, 1900-1935, Austin, University Texas Press, 1973, 9.22
[32] Rodrigues Alves, na Galeria dos Presidentes de São Paulo, II, 424, 425.
[33] O Paiz, 1° de Maio de 1906, p. 1
[34] Correio da Manhã, 28 de Setembro de 1917, p. 1
[35] O Paiz, 13 de Julho de 1917, p. 1
[36] BATALHA, Cláudio H. de Moraes. “A identidade da classe operária no Brasil (1820-1920): Atipicidade ou Legitimidade?”. Revista Brasileira de História, São Paulo, Anpuh, vol. 12, nº 23-24, p. 111-124, 1991-1992. p. 119
[37] A Terra Livre, 14 de Março de 1908, p. 2
[38] Spartacus, 27 de Setembro de 1919. p. 1

13 comentários:

agatha disse...

vc so faz historias grande

Anônimo disse...

Que bonito Silas... continue sendo um discípulo de Jesus!
Por acaso você não tem o mapa do local onde ocorreu o movimento operário da primeira república (no Brasil)???
Um abraço!

Thiago Pessoa disse...

gostei muito do artigo, era o que eu estava procurando , valeu...

Anônimo disse...

uhum era isso mesmo que eu tava procurando...
continua assim abrços.

Anônimo disse...

que Deus te abençoe!!!
gostei muito de sua matéria postada.
bjs

ely disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

qu não gostei porque não fala dos russos por que eu gostaria muito de saber sobre os russos.

Anônimo disse...

aah gostei muiito
mas da próxima vez faz um resumo mais pequeno..

adooorei

PRISCILAH disse...

voce é ótimo.... nossa... amei....
era o q eu recisava....
bjaum
fik cm Deus

Anônimo disse...

gostei do texto,entratento podia ser um pouco mais resumido e direto.

Anônimo disse...

muito bom cara !! mais faça resumos menores

Silva Rocha disse...

viado

claudienyalvarenga disse...

muito bom parabéns, otmo para estudar... bjos e abraços e parabéns novamente