sexta-feira, 4 de julho de 2008

História e Verdade no pensamento de Paul Ricoeur

Bom, esse é o tabalho final que desenvolvi para o curso de Teoria III, ministrado pela professora Margareth Rago. Escolhi como tema o conceito de História em Paul Ricoeur, conhecido filósofo contemporâneo que apesar de ser francês e bastante respeitado academicamente é cristão. Escolhi seu livro História e verdade para desenvolver o trabalho. Acabei por me identificar bastante com o autor, pelo menos no que eu li até agora. Recomendo aos historiadores e aos interessados em discutir algumas questões de ética no atual estágio de nossa civilização. :)
Introdução

O livro de Paul Ricoeur, História e Verdade publicado pela primeira vez em 1955, se propõe a articular e discutir filosoficamente a questão da verdade no conhecimento histórico. Apesar dos diversos capítulos contidos no livro terem sido publicados separadamente, e justamente por isso em contextos diversos e com objetivos diversos, é possível reconhecer uma forte articulação interna entre eles que nos permite escrever esse presente ensaio na busca por uma unidade de sentido a despeito da pluralidade de intenções dos diferentes artigos ali organizados. Outro fator que cabe esclarecer de início é que o livro em si é dividido em duas partes centrais: num primeiro momento Paul Ricoeur discute questões metodológicas da significação da atividade histórica; já a segunda parte do livro adentra mais em questões éticas a partir da reflexão de certas propulsões civilizadoras de nossa época. Por diversas questões tomamos por opção nos restringir aqui a análise de caráter metodológico da história e da verdade no pensamento de Paul Ricoeur.
A questão central que perpassa a todos os ensaios é se, “aquela história que ocorreu e que interessa ao ofício do historiador presta-se a um conhecimento na linha de verdade, de acordo com os postulados e regras do pensamento objetivo postos em função nas ciências?”[1] Surge nessa questão uma primeira oposição que irá acompanhar toda a análise de Paul Ricoeur, temos por um lado uma vontade de verdade intimamente vinculada a busca por unidade, o verdadeiro têm de ser, ao final, único, se não acabaria por se anular. Esse impulso pela verdade seria inútil se não fizesse surgir determinações provisórias da história criando ao final do processo um arremate final do saber na unidade. Todavia quando exigimos essa unidade de sentido e buscamos na história esse Uno articulado nos decepcionamos pois encontramos apenas pedaços dispersos onde só ha diversidade, variação, contradição, mutabilidade. A verdade na história surge como um princípio de possibilidade que se perde sem cessar e que se recupera à medida que se transforma a própria significação da história.
A história, o outro elemento da oposição, é, em si, múltipla e isso acaba por nos conduzir a certo ceticismo. Consequentemente, todas as resignificações, na busca de um sentido, que construímos sobre ela, são imperfeitas e nos conduzem desse modo a certo dogmatismo no qual determinada interpretação (a minha) se coloca acima das outras. No extremo, a história não seria senão a história dos erros e a verdade a supressão da própria história.
Diante dessa dificuldade inicial Paul Ricoeur nos conduz a três níveis de leitura da verdade em história. Num primeiro momento há o plano do progresso que considera a história como um processo de acumulação de algo adquirido seja como instrumental material ou mesmo como instrumental do conhecimento, nessa perspectiva os próprios homens em suas singularidades são colocados entre parênteses. O segundo plano é o que leva em consideração a ambigüidade da própria história como decisões, crises, crescimento e decadência; a multiplicidade dos homens que a fazem; e para além disso também percebe o paradoxo da própria atividade do historiador entre objetividade e subjetividade na escrita do passado. Por fim, Ricoeur lança o terceiro plano possível para se pensar a história que é a esperança cristã: essa consegue arrematar a história sem pertencer-lhe. Apesar de acreditar na unidade do verdadeiro, reconhece que esse todo articulado permanece um mistério que ainda não podemos sistematizar.

1- O Plano do progresso

Como bem demonstra Paul Ricoeur esse primeiro nível de leitura da história surge de um duplo interesse filosófico, e não histórico propriamente. O filósofo, ao se voltar para a história têm em mente duas exigências, duas esperanças: por um lado pretende encontrar um todo na história e atribuir assim uma ordem a todas as possibilidades realizadas na obra do espírito; por outro lado o filósofo também deseja se comunicar com a história na medida em que ele também faz parte dela. A história é uma forma privilegiada do pensador buscar sua verdadeira subjetividade. Nesse sentido é do intuito do filósofo ler o passado buscando respostas as suas questões presentes e desse modo terminar em si mesmo o desenrolar da história.
Diante dessa dupla esperança, surgiram dois métodos opostos utilizados pela história da filosofia no intuito de estabelecer o diálogo com os filósofos do passado: a primeira é a que amplia ao sistema fazendo surgir conjuntos dentro das múltiplas filosofias e a segunda é a que se aprofunda na totalidade singular de um filósofo específico sem a intenção de estabelecer vínculos de pensamento entre os diversos filósofos. Trataremos inicialmente da primeira forma de produção em história da filosofia que possui suas origens na filosofia do progresso, para que, posteriormente, ao retornarmos para a produção em torno de singularidades possamos demonstrar a ambigüidade presente na produção da História da filosofia e consequentemente na história em geral.

1.1.1- A filosofia do progresso

Foi na esperança filosófica de satisfazer seu duplo desejo de totalizar e de comunicar através de uma filosofia única que abrangesse todas as outras que surgiu o ecletismo da história da consciência. Essa concebe todas as filosofias da história unidas num desenvolvimento continuo e progressivo da razão, de forma é possível organizar todas elas dentro de um único discurso racional e totalizante. O grande problema é que ao se construir, essa suposta filosofia global não é outra coisa senão a filosofia própria da subjetividade de um filosofo que acreditou ter descoberto a chave da compreensão histórica. Tal filósofo concebe uma solução prematura ao dilema da verdade e história colocando-se no ponto máximo do processo de desenvolvimento da razão para o qual todas as filosofias caminham, mas ele não faz isso senão através de uma absurda simplificação de todas as demais formas de pensar o mundo. O eclético acaba assim por exercer uma espécie de Imperialismo sobre os demais através de um ato violento e impositivo a todos os outros na condição de ter em si seu respectivo termo. Todavia, ainda que equivocada essa primeira solução abrange ao mesmo tempo os dois intentos do filósofo: se de um lado minha consciência se torna espírito (posso expressar filosoficamente) de outro a história se torna consciência própria (a razão pode ser historicizada).

1.1.2- A História progresso

Mas não foram apenas os filósofos que assim procederam, alguns historiadores adotaram essa mesma perspectiva progressista e eclética para pensar o passado. A solução encontrada por eles para compreender a história num todo unitário e em desenvolvimento foi tomar certas características próprias da nossa civilização para pensá-las como um desenvolvimento continuo e independente. Nessa perspectiva um dos parâmetros para se pensar a história é o nível técnico atingido em cada civilização através dos utensílios materiais produzidos por eles. Essa forma de produção histórica é capaz de abranger tudo aquilo que supostamente permanece e vai se acumulando ao longo das gerações e que culmina no atual “estágio” de nossa civilização. Desse modo saber, a arte e a moral também podem ser considerados como elementos no movimento da tradição num processo histórico crescente e cumulativo.
Ao que notamos, em benefício dessa história progresso acaba-se por violentar novamente o próprio homem na medida em que entende toda a história como um curso anônimo e sem vida. Na tentativa de unificar todo o passado acaba-se por deixar de lado a própria história como lugar de acontecimentos, de atos humanos capazes de criar o novo, de lutas entre os indivíduos, de morte, enfim, do drama da vida. Do mesmo modo as civilizações são reduzidas a explicações generalizantes perdendo-se assim sua singularidade, aquilo que é próprio de determinado grupo, seu próprio modo de ser e pensar o mundo. Dessa forma quanto mais avançamos em direção a unidade do sistema mais reduzimos o outro em explicações generalizantes e deturpadoras da realidade. Ao que parece quanto mais próximos supomos estar da unidade da história mais longe estamos da verdade.

1.2.1- As respostas típicas

Foi em decorrência a essa filosofia do progresso e partindo desse mesmo empreendimento por unificar que pode ser aqui situado o primeiro modo de produção em história da filosofia. A solução encontrada já não é mais tão eclética mas busca certa lógica externa ao filósofo que configura uma proximidade de pensamento entre diversas filosofias. A principal idéia que fundamenta tal produção é a de que, apesar das soluções dadas pelos filósofos variarem no decorrer do tempo existe alguns problemas que são idênticos e que acabam por configurar assim certas respostas típicas, tais como espiritualismo, materialismo, existencialismo e demais ismos. Nesse sentido compreender uma filosofia seria apreender sua intenção central, atuação de desenvolvimento, ligação orgânica e organização sistemática dentro da crosta socializada e anônima.
Tal caracterização a partir de tipos de pensamento parte do princípio da realidade-reflexo, onde o pensamento do filósofo surge em resposta a uma época. São as influências econômicas e sociais, portanto influências externas aos indivíduos, que criam uma situação na qual emergem filósofos com um sistema de pensamento semelhante. Tal gênero de explicação têm sua validade pedagógica e nos ajuda também a identificar e situar uma filosofia em relação às demais. Pois de fato, como assume Ricoeur, toda filosofia possui uma parcela de anonimato que elas repetem sem converter em singularidades. Nesse sentido as filosofias podem participar de tipologias na medida em que não são totalmente isoladas, mas carregam em si certas características próprias de suas sociedades.
Porém tal caracterização é sempre incompleta pois novamente é necessário fazer certas generalizações que acabam por perder a real inovação e singularidade de uma filosofia particular. Quanto maior o filósofo mais complicado se torna estudá-lo num conjunto, pelo duplo motivo de que maior é a criação própria dele e mais ele consegue dissimular suas influências sociais numa obra que se pretende universal. De forma que assim como as contradições da filosofia progressista nos levou as caracterizações por tipologias, quanto mais nos aprofundamos na tipologia mais somos levados ao encontro da particularidade e inovação de cada pensador.

1.2.2- A compreensão na singularidade

Para Paul Ricoeur uma identificação autêntica começa no ponto em que saímos da tipologia e partimos em direção ao aprofundamento na singularidade de determinado filósofo. Tal aproximação com a particularidade de determinado pensamento nos afasta do idealismo das classificações usuais e conduz a compreensão de cada filosofia como um todo em si. Esse segundo modo de compreensão da história da filosofia, ao invés de usar a história no intuito de estabelecer seqüências de pensamentos procura ver o modo específico em que determinado filósofo problematizou sua época através da obra singular. O sentido dessa obra não está em suas respostas a problemas eternos, mas aos novos questionamentos que só ela traz a tona e na adequação de suas respostas as suas questões.
Nesse sentido uma filosofia aparece numa certa situação que não está fora ou antes da obra, mas na e pela obra, é só pelo fato da problemática ter surgido que é possível encontrar uma situação. A direção de estudo aqui é inversa, não é do meio social gerando o indivíduo, mas, tomando a obra como o centro de análise, como o individuo produz e revela características de sua situação a partir de novas problemáticas que ele próprio criou. Dessa forma as filosofias singulares são radicalmente isoladas, cada uma constituindo uma totalidade em si que deve ser penetrada em sua unicidade numa familiaridade que jamais se completa.
Para Paul Ricoeur a obra do filósofo é uma expressão de tal forma que apresenta o aspecto mais extremo da relação entre a história efetiva e o discurso. Na obra a relação entre a situação e o discurso é significada em forma de expressão universal. E é, paradoxalmente, expressando esse universal que o filósofo acaba por demonstrar a estreiteza de sua situação singular. A relação entre uma época histórica e uma obra filosófica é a forma extrema do estatuto da linguagem no mundo. A linguagem em sua pretensão por universalidade revela o que sucede a toda expressão, todo discurso em uma sociedade. A nova significação criada pelo discurso excede a função do reflexo pois ultrapassa a realidade e se transforma em um símbolo maior que vai muito além de seu suporte histórico.

Mas a abordagem da obra em sua singularidade também faz surgir alguns problemas que devem ser pontuados. Superando as tipologias, singularizando as filosofias e reduzindo as situações aos problemas essas filosofias tornaram-se imensas. Além disso existe uma descontinuidade incrível entre as diversas filosofias para além das unidades de influência, temas e linguagem. A imensidão e singularidade das filosofias estão pontuadas de tal forma que acabam impossibilitando a comunicação entre elas. Só existe história porque os filósofos anteriores fazem parte da situação do novo filósofo, mas cada qual engloba certo modo de história em si mesmo, em um momento histórico que é uma espécie de absoluto.
Dessa forma ao mesmo tempo em que a história como desenvolvimento em série é anulada, a verdade também se anula por multiplicar-se. Novamente o mesmo paradoxo entre a história variável e a verdade imutável aparece. No conjunto as filosofias não são mais verdadeiras nem falsas, mas outras. Novamente quando o filósofo conseguiu realizar seu duplo desejo de comunicar e totalizar a partir do limite da singularidade, a verdade e a história como unidade voltaram a se perder.

1.3- O paradoxo da história

A história da filosofia quando se divide em dois modelos de inteligibilidade (o sistema e a singularidade) revela um paradoxo que está subjacente a toda a história: no limite os dois modelos utilizados pela história da filosofia representam certa supressão da história. Como é impossível ir até o sistema ou até a singularidade a história só pode se colocar numa espécie de situação intermediária. No lado do sistema desde que haja uma lógica que explique todo o passado a história é suprimida para que em seu lugar apareça determinada filosofia da história. Nos gêneros comuns (ismos) não se atinge as essências, desse modo contenta-se com uma tipologia, quando não é possível enquadrar no tipo produz-se uma essência singular, de modo que ao invés do sistema temos uma caracterização única. Ora, uma filosofia isolada não se acha mais na história, é nela que implicam o passado e futuro, o que faz dela uma essência interna. Aqui já não há comunicação entre os filósofos, elas são singularidades de certa forma intemporais onde a obra é um centro absoluto. Nesse sentido a filosofia revela o caráter paradoxal de toda história em sua tentativa de suprimir a historicidade: o sistema é o fim da história porque ela se anula na lógica, a singularidade é o fim da história porque ela nega toda história.

2- O Plano da Ambigüidade

Como vimos a compreensão em história da filosofia tende a dois pólos limites que nos representam dois modelos de verdade. Isso, segundo Paul Ricoeur revela a condição de toda historicidade pois toda ela deve ser entendida como exaltação de um sentido e emergência de singularidades; toda a história está entre um tipo estrutural e um tipo baseado em acontecimentos. De modo que a história não é história senão na medida em que ela não atingiu nem o discurso absoluto, nem a singularidade absoluta, na medida em que o sentido permanece confuso, mas aberto. O método histórico, para existir, só pode ser inexato, só pode ser equivoco. Eis o plano da ambigüidade.

2.1.1- A busca pelo sistema

De um lado empregamos a história no singular e atestamos que existe uma única história na qual vive uma única humanidade. Para Ricoeur, essa unidade é antepredicativa do próprio campo histórico, ela não pode ser explicada, é um pré-conceito do historiador que se manifesta por duas concepções primordiais: a idéia de mundo e a idéia de homem. O mundo é o horizonte mais concreto da nossa existência, é no mundo percebido da minha existência carnal que as coisas se dão, tudo se realiza no mundo e nesse mundo da minha vida, minha percepção. Essa camada primordial não posso exprimir porque é a realidade prévia em todas as circunstâncias, ela é o horizonte de todas as atitudes. A segunda unidade se refere ao homem, no sentido de que é o mesmo homem que traz consigo e produz a ciência, a arte, a ética, a religião. Um mesmo fluxo de existência, um mesmo humano vive todas as atitudes, para Ricoeur essa unidade do homem também é por demais primordial para ser compreendida.
Na tarefa do filósofo isso se justifica pela esperança de recuperar em um único discurso todos os discursos parciais; isso surge num sentimento de que tudo o que os filósofos disseram por toda parte deve poder constituir uma continuidade. A possibilidade limite do sistema é essa, que ao fim a história é potencialmente una. Mas retornemos aqui a uma questão da historia da filosofia que deve ser considerada, desde que haja um sistema que englobe tudo não há mais história, ela passa a ser suprimida na unidade de uma lógica filosófica. Desse modo a idéia de história universal só pode aparecer como um objetivo, um horizonte que se pretende mas que nunca se completa.

2.1.2- A objetividade

Desse desejo pela unidade surge então o primeiro lado da ambigüidade que se exige da tarefa do historiador, espera-se dele certa objetividade que convém a tarefa de escrita da história. O historiador deve arrumar o passado no sentido de uma maior certeza, um maior rigor. Para isso é necessário determinar certas características metódicas para a atividade de pesquisa e escrita. Isso foi muito bem realizado por Marc Bloch em seu livro Apologia da História[2], segundo ele a tarefa de redescoberta do passado pelo historiador é uma tarefa de constante observação em que, partindo de uma análise crítica dos vestígios do passado (principalmente documentos) ele possa reconstituir um sentido dos acontecimentos, das situações, das instituições numa objetividade que é própria da tarefa do historiador. Ainda que consideremos a questão da subjetividade na produção historiográfica, como faremos adiante, a objetividade que se propõe o historiador é irrecusável no sentido científico já que está vinculada a determinada atividade metódica de crítica documental.
Retomando novamente Marc Bloch, Paul Ricoeur afirma que é uma análise e não síntese a atividade do historiador de explicar. Não é da tarefa do historiador reestabelecer as coisas tais como eram, mas recompor através de um encadeamento retrospectivo uma ordem coerente dos fatos, sendo necessário uma abstração e a constituição de séries de fenômenos que se relacionem em uma continuidade. O passado integral é então visto apenas como uma idéia, um limite jamais atingido de um esforço de integração sempre mais vasto e complexo, que exprime o desejo de tentar compreender racionalmente e assim estabelecer uma ordem no todo da história.

2.2.1- A subjetividade do historiador

Em relação a esse empreendimento por objetividade que vem se situar a crítica que insiste sobre a subjetividade do historiador. Segundo Paul Ricoeur, de fato, diferentemente de outras ciências a disciplina da história engloba uma parcela maior de subjetividade na produção metodológica por diversos motivos.
Em primeiro lugar existe a questão da opção e julgamento de importância que o historiador faz dos eventos que considera importantes; é somente através da escolha e exclusão seletiva de eventos que é possível criar um encadeamento continuo na narrativa e dessa forma uma unidade de sentido da história produzida. Além disso a história é tributária de uma concepção vulgar de causalidade, que se constitui na tentativa de atribuir todos os fenômenos que causaram determinado evento. Porém, entre outras coisas é preciso incluir entre as causalidades uma psicologia do senso comum que é impossível de ser distinguida completamente. Assim, a história é condenada a usar simultaneamente vários esquemas de explicação sem os ter compreendido e distinguido completamente.
Outro fator que deve ser considerado é a questão da distância histórica. A história tem por função dar nome aquilo que foi abolido ou mudou. Aqui está um problema fundamental da linguagem, é necessário explicar o que já não existe por semelhanças funcionais corrigidas pela diferenciação, o que faz da linguagem histórica necessariamente equívoca. Essa transferência temporal não é mais do que a imaginação a partir do presente em que um outro presente é representado/traduzido. Por fim, um último problema se coloca, o que a história se propõe a explicar são os homens e o caráter humano inesgotável impossibilita uma compreensão integral.
É a realidade absoluta do vivido humano passado que a história tenta recuperar numa reconstrução cada vez mais articulada e em sínteses cada vez mais diferenciadas e ordenadas. Mas o historiador só pode ir ter com os homens do passado a partir de sua experiência humana própria. O historiador faz parte da história no sentido de que os homens do passado fazem parte de uma mesma humanidade que ele. A história é, por fim, o modo pelo qual os homens repetem o fato de pertencerem a uma mesma humanidade.
Segundo Ricoeur, tais considerações não arruinam a objetividade da história, é necessário apenas especificar o tipo de objetividade que se requer do historiador, essa deve ser correlata com a subjetividade própria de seu ofício. Mas essa não é uma subjetividade qualquer como um subjetivismo de querer-viver, mais do que isso a subjetividade do historiador representa a vitória da boa subjetividade sobre a má subjetividade. Nesse sentido a dimensão subjetiva é uma dimensão própria da atividade histórica; a imaginação e o sentimento são assim reintroduzidos na racionalidade da produção.

2.2.2- História singular?

Ora, se a busca estrutural está intimamente relacionada com a objetividade na história, a subjetividade do historiador se liga diretamente a produção da história na singularidade (o que seria evidentemente um paradoxo). Expliquemos, diante da percepção das problemáticas subjetivas do trabalho historiográfico a primeira saída a ser pensada seria, por um lado, a complexificação da interpretação, e por outro, a redução do objeto de análise, o que nos conduz, no limite, ao evento singular sem nenhum maior encadeamento. Ora, evidentemente isso só se da por hipótese, pois seria ao fim uma negação da própria disciplina.

2.3- História na ambigüidade

Demonstramos pois que os dois extremos de pensar filosoficamente a história acabam, no limite, por anulá-la, cabe então ao historiador produzir na ambigüidade. Todavia, paradoxalmente, é apenas nessa situação paradoxal que a história pode aparecer como ela realmente é: é somente na ambigüidade que se percebe o pluralismo do drama histórico. Diante da diversidade das interpretações que pode surgir a multiplicidade e diversidade dos homens, das comunidades, das civilizações; e a própria história, ao invés de ser vista como um contínuo, se apresenta com rupturas, inovações, contradições que lhe são próprias.

2.4- História das civilizações

Esse plano da ambigüidade da história é bem exemplificado por Paul Ricoeur com a história das civilizações tal como propõe Huizinga. As civilizações fazem parte de um complexo histórico-geográfico com contornos peculiares, certa unidade de projeto congrega esses homens no tempo e define um pertencer a um mesmo espaço. Tal conjunto de pessoas partilha de determinado estilo de vida e valores que são reassumidos nas tarefas concretas, tais com trabalhar e se divertir. Nesse sentido não é possível estabelecer uma linha de progresso técnico pois o instrumental não é tido como possuindo um valor em si, mas é objeto de valoração que varia em cada civilização. A história mostra a partir de então diferentes estilos civilizadores.
Aparece aqui também a noção de crise da civilização que está diretamente vinculado a vida e morte das civilizações. Uma civilização nasce em determinado contexto e prossegue na medida em que consegue resolver situações que são para ela desafios. Ao longo dessa linha longitudinal em que vive uma civilização existem crises, crescimentos e regressões que não coincidem obrigatoriamente e são entendidos e solucionados de modo diverso por diferentes grupos. Nesse sentido é necessário refletir sobre o próprio conceito de crise, pois esta não possui o mesmo sentido como hoje concebemos.

A história permanece então contínua como um sentido em marcha e descontinua como uma diversidade de civilizações e, porque não dizer, como uma constelação de pessoas. É então possível a dupla leitura do passado: como um desenvolvimento extensivo e como irradiação de sentido a partir de múltiplos centros organizadores sem que nenhum homem, mergulhado na história possa ordenar o sentido central desses sentidos irradiados. Porém, enquanto a leitura progressista da história como advento da consciência conduz a um otimismo de idéia, a leitura filosófica da produção de múltiplos centros conduz a visão trágica da ambigüidade do homem, que sempre recomeça e sempre pode se desiludir. Diante do ceticismo que se coloca a nossa frente Ricoeur propõe um retorno ao plano escatológico da esperança.

3- O Plano da Esperança

3.1- O Cristianismo e o sentido da história

Ao recolocar a história em seu devido lugar como projeto dos homens, como decisão e como crise é possível retornar ao aspecto da culpabilidade humana que em nós é sensibilizado devido ao aspecto dramático da história. Só é suscetível de culpa uma história ambígua, aberta e incerta, e dessa forma, como bem mostra Paul Ricoeur esse drama histórico pode trazer de volta o sentido da pregação cristã que o racionalismo das luzes acabou por suprimir em sua busca pela unidade de sentido. A ambigüidade da história traz a tona, entre outras coisas, o caráter político da história e dessa forma o conjunto de relações dos homens em face do poder: é em torno deste que proliferam as paixões mais temíveis. Segundo Ricoeur existe um forte vinculo entre grandeza e pecado e entre pecado e culpa.
Porém o pecado não é o centro do credo cristão, e sim a salvação, é na esperança da salvação que se encontra o sentido cristão da história. Esse terceiro plano da história se baseia na fé que propõe uma unidade do Senhorio de Deus diante dessa história incerta, grandiosa e culposa. Nisso surge a esperança de que no último dia surgirá a unidade de sentido, se verá que tudo está em Cristo e tudo é recapitulado nele. Porém, diante do todo da história não podemos fazer um balanço, para isso seria necessário que estivéssemos fora dela, que o jogo já estivesse feito aos olhos de um espectador estrangeiro, por isso que o sentido que a história pode ter é agora objeto de fé e não de razão. Tal sentido não pode ser verificado ou concluído, e só pode ser esperado de uma graça poderosa capaz de transformar em glória de Deus o terrível e o vão. Isso possibilita ao cristão a coragem de viver na ambigüidade da história na crença de que a unidade final ainda está escondida. Desse modo, toda outra unidade proposta até agora é violenta e prematura. A história permanece aberta, o múltiplo ainda está em debate. É apenas no plano da esperança que todas as verdades se contêm na única verdade.
Diante dessa história ambígua o cristão permanece com a crença de que nessa história atravessa uma outra cujo sentido não lhe é de todo inacessível, o sentido cristão da história é a esperança de que a história profana também faça parte desse sentido que a história sagrada desenvolve. Contudo, esse sentido não é racional tal como propõe a história progresso, nem irracional tal como acabamos por nos deparar na ambigüidade da história, mas é objeto de fé e dessa forma supra-racional. O sentido escatológico é esse, que a vida se desenrola nesse tempo de progresso e ambigüidade sem que se possa discernir entre as duas histórias, a profana e a sagrada. Todavia, com base nessa fé adiantamo-nos ao encontro da vida.
Isso não conduz necessariamente a inatividade, não conduz ao deixar de procurar a unidade. A esperança fala como se estivesse mergulhada no absurdo, reassume a ambigüidade, a incerteza da história e incita a busca de um sentido, tenta compreender. O cristão se sente encorajado por sua fé, mesmo em confiança de um sentido oculto, a ensaiar esquemas compreensivos ao menos a títulos de hipóteses. Existe um sentido, e esse deve ser procurado, mas ao mesmo tempo esse é um sentido oculto que não se completa num sistema pra toda história, mas pode se completar no próprio individuo, em sua relação com a verdade.

3.2- A esperança e a história da filosofia

Façamos então uma última aproximação com a história da filosofia. A esperança aparece aqui como razão reguladora da reflexão pois a unidade final do verdadeiro é o próprio espírito da razão. Consequentemente é possível pensar na consonância dos múltiplos sistemas filosóficos num Uno que unifica numa história as singularidades filosóficas. Esse Uno é o que se acha em questão em toda questão, o que suscita a questão, mas não é nem uma filosofia particular pretensamente eterna, nem a fonte das filosofias, nem a identidade aquilo que elas afirmam, nem o vir a ser como lei imanente dos momentos filosóficos.
A relação entre a história da filosofia com a unidade da verdade parte da relação entre o dever de pensar e uma esperança ontológica que para Paul Ricoeur pode ser entendida pela frase: “espero achar-me em posse da verdade”. Nessa relação à verdade não aparece apenas como um termo, um horizonte, mas como um ambiente, uma atmosfera, como a luz. Ricoeur espera que aquilo que denomina sua filosofia se coloque em certo meio constituído por sua não resistência às mediações assim como a luz é mediadora entre o olho e o objeto.
Tal frase também traz-nos de volta ao ser como abertura. Isso significa que as múltiplas singularidades filosóficas são, a priori, acessíveis umas as outras, que todo diálogo é possível a priori. O ser é o ato que precedendo e fundamentando toda possibilidade de questionar serve de alicerce para as mais singulares intenções filosóficas. Com essa abertura prévia da história é possível todos os diálogos no tempo por meio do uso da imaginação e ressignificação.
Ao mesmo tempo a esperança de estar na verdade indica que não posso declarar a unidade, articula-la racionalmente e enuncia-la, não posso englobar num discurso coerente a abertura que fundamenta na unidade de todas as questões. A esperança não é uma relação possessiva com a verdade. É diante desse desejo de ter a verdade tal como praticado pelo ecletismo e pelas filosofias sistemáticas da história que se constituem as maiores mentiras e as maiores violências contra o outro. Já a função da esperança é manter o dialogo sempre aberto e introduzir uma intenção fraternal nos debates mais ásperos, ambiente fundamental para a comunicação, para a inter-subjetividade.
A história permanece polêmica, mas é aclarada por essa luz que unifica e eterniza sem se poder coordenar com a história. A unidade do verdadeiro não é tarefa intemporal, mas esperança escatológica. O ceticismo pode ser enfim vencido no Uno, mas como não conheço esse Uno por completo, ele continua a ser a tentação por excelência do mister do historiador. Porém é justamente esse estatuto ambíguo da história que possibilita a comunicação entre o mesmo e o outro, entre o Uno e o múltiplo, e é somente aqui que pode ser manifestado o colocar-se no lugar, a inter-subjetividade, enfim, a verdade da caridade da crença cristã.

[1] Ricoeur, Paul. História e Verdade, Rio de Janeiro: Companhia Editora Forense, 1968.
[2] Bloch, Marc, Apologia da história. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001.

2 comentários:

Júlio disse...

Silas,

Aqui é o Júlio, que estudou com você no SESI.
Alguns dias atrás vi o endereço do seu blog no orkut, e desde então virei leitor cativo de seus textos,sempre ótimos.
Parabéns, as discussões que você levanta são incríveis, você está escrevendo de forma formidável.

Abraço

Anônimo disse...

qual era a principal ideia de paul ricouever ?