sábado, 1 de setembro de 2007

Reflexões Sobre uma Greve

Este é um texto que eu ia mandar ao e-mail da minha sala quando as discussões a respeito da validade ou não da greve do semestre passado estava no auge. No fim não mandei, temendo as consequencias que o e-mail poderia trazer. Fiquei inclusive receoso de postar aqui, pois é possível que me interpretem mal e na verdade não tenho convicção das minhas afirmações, é um tema bastante complexo, e nem sei se ainda penso do mesmo modo. Mas enfim, ai está.

Olá pessoal!!!
De fato, não perdi tempo lendo toda essa discussão e não tenho o objetivo de prolonga-la, embora, talvez isso aconteça. Apenas gostaria de fazer algumas considerações acerca disso tudo e da greve.
Tudo isso faz-nos parar para pensar e refletir acerca de nossa posição, quem somos nós em meio a isso tudo. Não quero discutir a validade ou não da greve e nem dar soluções. Mas questionar algumas coisas que talvez sejam paradoxais.

Qual o objetivo da greve?? As respostas podem ser variadas, mas talvez os pontos básicos sejam: garantir a autonomia da universidade pública, a defesa da universidade pública como um todo, aqui inclui a contratação de professores, aumento de verbas...,
Esses argumentos são bastante válidos, mas apenas para aqueles que consideram ela algo bom. Embora creio que todos nós tenhamos esse mesmo valor. Universidade é boa pq ela é o local da produção do conhecimento, produção do saber. Mas talvez aqui esteja nosso primeiro consenso absoluto. Produzir conhecimento e saber é bom, ignorância é ruim. Pq?? Esse ponto não deve ser questionado. É um valor, uma premissa prévia na qual se sustenta a discussão. Se relativizarmos isso ruiremos com toda a discussão. Sem dúvida!! Podemos passar então a um próximo ponto. A questão q se coloca e talvez seja onde haja as divergências é: Qual saber queremos produzir? Mas antes de pensar o que queremos produzir temos que pensar o que, exatamente queremos? De um lado temos os que desejam o desenvolvimento técnico, cientifico, com finalidades práticas, bem definidas, produzindo um conhecimento que seja aplicável ao mercado. Pra que? Eles têm um valor firmado. As universidades são necessárias pois produzem ciência, está é útil para as industrias, para a agricultura, para a saúde da população... e a melhoria dessas é o único meio para desenvolver a nação. Mas essa palavra desenvolver não expressa muita coisa. Qual o objetivo desse desenvolvimento?? Não sei, talvez nem eles. Talvez eles não cheguem até aqui. Talvez nem devêssemos. Mas provavelmente se perguntarmos a alguém ela esboce alguma resposta. A melhoria da qualidade de vida da população, a felicidade da nação. São valores válidos. Não acho que pensem nisso. Mas pq melhorar a qualidade de vida?? Estamos em outro absoluto, melhorar a qualidade de vida é bom. Pq? Faz viver mais. E o q isso gera? Viver mais aqui é bom?? E sera q a melhoria na minha qualidade ou da nação não seria as custas da piora da do outro?
Do outro lado temos os que sabem questionar mais mas não conseguem dar tantas respostas. O que querem que seja a Universidade? Um local de livre produção, não tão voltado para o mercado mas que produza algo menos finalista e mais... cultural...? Sei exatamente o que questionam, mas não sei exatamente o que querem. Pq não querem ter um objetivo pré-estipulado. Com qual finalidade?? Não há muita finalidade para esse tipo de produção. Não há muitas metas, muitos sonhos. Da pra aplicar na sociedade?? È difícil. As professoras de EL talvez tentem. Os que pensam desse modo não tem respostas não pq não pensaram no assunto, mas pq crêem que a base de qualquer tipo de finalidade a ser criada é falsa. Por isso tais pessoas acabam virando seres sem sonhos, sem utopias de mudança. Lembrando que utopia só é utopia para quem não acredita nela, para quem acredita é a mais pura realidade. Creio q essa seja a posição de nossos professores. O relativismo bloqueia o sonho, a luta pela mudança, pois é paradoxal relativizar a tudo e sair a luta de um absoluto próprio, subjetivo, pois a base da argumentação não é sólida que deveria ser consensual, mas pessoal, e se afirmação é subjetiva como querer que os outros adiram a minha proposta? Ou ainda como querer que os outros pensem da minha maneira e julgar certa ou errada tal atitude? Tal opinião? Só posso fazer isso a partir do momento que tenho certos universais, como por exemplo: produção de conhecimento é bom, ou educação é bom, ou ainda, produção de conhecimento não tem que ter um sentido definido. Relativizar nos ajuda a tudo criticar, mas não ajuda nada na prática, na realidade, na hora de propor algo novo, para isso temos que, necessariamente, partir de princípios universalistas, que devem ser tidos por consenso, pelo menos no que se refere ao nosso grupo, a nossa sociedade.
Talvez seja esse o maior paradoxo que vejo entre os grevistas. Possuem uma ótica relativista no que se refere as religiões, a princípios, a valores, apesar de as vezes serem até absolutistas quando querem falar sobre liberalidade sexual, de preconceitos... absolutistas relativistas, ética liberal acima de tudo. Não se intrometa na vida do outro, cada um cada um.
Mas quando estes criam seus absolutos querem que todos compartilhem de seus valores. Acham absurda a posição dos professores ou de alguns alunos da sala. Criticam os que lêem Veja mas não percebem que suas próprias opiniões também foram construídas a partir das assembléias.
Vejam bem, não critico aos que lutam em defesa da autonomia da universidade, da educação pública, nem mesmo critico os relativistas, como os professores (de fato eu acharia contraditória a posição deles se de fato partissem para defender esses ideais, com exceção dos professores marxistas) critico os que adotam dupla postura, julgando ora de um modo e ora de outro, segundo convém. Quer ser absolutista?? Fale o q quiser na defesa de seu ideal, bata o pé, brigue.... Quer ser relativista?? Não julgue nem imponha (barricadas) aquilo q acredita. Apenas seja coerente, pq não existe coisa mais contraditória do que relativizar a todos, se apresentar como o grande dono da Verdade e ainda querer impor aos outros o q pensa.

- Mais algumas considerações: A greve, ao meu ver foi a defesa de uma Utopia, mas que estranha Utopia foi essa. Não foi uma Utopia revolucionaria, não queria tantas mudanças, foi uma Utopia conservadorista. Ela lutava mais pela permanência da Universidade no seu atual estado, ou pior pelo retrocesso a dez anos atrás pela contratação do mesmo número de professores q tínhamos.

- Os absolutismos podem ter sido a causa das guerras, genocídios... ao longo da História, mas, por outro lado o absolutismo é o único motor da História, as pessoas agem por aquilo q acreditam ser o certo, elas vivem por aquilo que acreditam ser o certo, mesmo q o certo, ou o objetivo seja apenas promover-se a si próprio, como, creio também ser esse o caso de alguns professores. Humanos são movidos por sonhos, pelas supostas Utopias.

Um comentário:

Tedaloa disse...

vou ler de novo...